Vaza Jato: Deltan Dallagnol planejou se candidatar ao Senado

"Apesar de em 2022 ter renovação de só 1 vaga e de ser Alvaro Dias, se for para ser, será", escreveu o coordenador da Lava Jato no final de 2017

Foto: Lula Marques/PT

Jornal GGN – O coordenador da força-tarefa da Lava Jato no Paraná, Deltan Dallagnol, flertou com a possibilidade de sair candidato ao Senado nas eleições de 2018. Mas, após uma meditação introspectiva e entre colegas, decidiu jogar a oportunidade de compor o corpo de parlamentares no Congresso para 2022. São essa as revelações de novos trechos de mensagens trocadas via Telegram e entregues ao Intercept por uma fonte anônima.

O procurador chegou a criar um chat consigo mesmo, escrito no início de 2018, onde ponderou sobre sua candidatura considerado que sairia “provavelmente eleito”. Ele ainda considerou a hipótese de não se candidatar em 2018, mas em 2022, e, também, deixar o cargo no Ministério Público Federal para se tornar um paladino solitário na luta contra a corrupção.

Durante sua análise íntima, Deltan considerou ao todo três caminhos. No primeiro, sairia candidato ao Senado, afinal seria “facilmente eleito” e existiam “circunstâncias apontando possivelmente nessa direção”, como o fato de “todos na LJ apoiaram a decisão”, escreveu.

Os contras dessa decisão seriam os “risco para a Lava Jato porque muitas pessoas farão uma leitura retrospectiva com uma interpretação de que a atuação desde sempre foi política”. “Pior ainda, pode macular mais do que a Lava Jato, mas o movimento anticorrupção como um todo, que pode parecer politicamente motivado. Por fim, a candidatura pode macular as 10+ [dez medidas de combate à corrupção] como uma plataforma pessoal ou de Deltan para eleição, retirando aura técnica e apartidária”, disse Dallagnol para si.

*Os textos das mensagens foram mantidos como no formato original, sem qualquer correções ou alterações

“Há ainda quem leia que uma atuação simbólica como a de Randolfe é inócua (como Josias de Souza), embora eu discorde (com Michael Mohallem). Além disso, ainda que seja algo que está no meu destino, como Joaquim Falcão disse, sair agora seria muito arriscado e não produtivo em comparação com outras opções”, completou.

O Intercept procurou os nomes citados pelo procurador, e os dois primeiros confirmaram que tiveram conversas com Dallagnol na época sobre o teor mencionado. O jurista e professor da FGV, Joaquim Falcão, não foi encontrado até o fechamento da matéria

“Eu tinha um projeto de pesquisa da Transparência Internacional e ele [Dallagnol] por vezes participou de algumas reuniões, como colaborador. Me lembro, antes de alguns desses encontros, dele comentar não da intenção de se candidatar, mas numa possibilidade vaga. Objetivamente, sim, em algum momento ele comentou sobre a possibilidade [de ser candidato ao Senado]”, contou Mohallem.

“Ele [Dallagnol] não falou em ser candidato, claramente, mas em ter procuradores [concorrendo] na eleição do ano que vinha. Até fui atrás, mas não apareceram. Foi após uma entrevista em vídeo, feita na [sede da] Procuradoria [Geral da República], em Brasília, em outubro de 2017. Após a entrevista, os cinegrafistas estavam desmontando os equipamentos e houve essa rápida conversa”, disse o jornalista Josias de Souza.

A segunda opção colocada por Dallagnol era prosseguir no Ministério Público Federal. “Lutar pela renovação enquanto procurador: mantém a credibilidade, mas perde a intensidade que seria necessária”, pensou. “Precisaria me dedicar bastante a isso e me programar. Para aumentar a influência, precisaria muito começar uma iniciativa de grupos de ação cidadã. Dois pilares seriam: grupos de ação cidadã em igrejas e viagens. Tem um risco de CNMP, mas é pagável, cabendo fazer uma pesquisa de campanhas públicas (de órgãos) de voto consciente, para me proteger.”

O CNMP é o Conselho Nacional do Ministério Público, entidade que tem a prerrogativa de punir procuradores por falta de ética. Atualmente, a Constituição Federal veda que membros do poder judiciário, incluindo do Ministério Público Federal, se filiem a partidos políticos e disputam eleições.

A terceira proposta de vida avaliada pelo coordenador da Lava Jato no Paraná era deixar a carreira de procurador e abraçar a política partidária na luta contra a corrupção.

“Lutar pela renovação enquanto cidadão, pedindo exoneração: esta seria a solução ideal pela perspectiva da credibilidade (não seria político, mas ativista) e de intensidade (“Não vote em Fulano). Perderia um pouco de credibilidade e visibilidade, por deixar a posição pública de coordenador da operação. Não teria riscos de corregedoria. Poderia me dedicar integralmente às 10+”, pensou.

Por fim, Dallagnol decidiu se manter no MPF, mas sem descartar concorrer em 2022. Além de ponderar consigo mesmo. As mensagens revelam que esse foi um debate recorrente entre seus colegas entre o final de 2016 e 2018. Um dos apoiadores da candidatura de Deltan foi o procurador Vladimir Aras, que trabalhava em Brasília, como mostra o trecho a seguir.

Para ele, o coordenador da Lava Jato falou que ajudaria “se o MPF lançar um candidato por Estado”.

Em setembro de 2017, Dallagnol foi procurado pela colega Thaméa Danelon, à época integrante da Lava Jato em São Paulo sobre sua possível candidatura.

Em janeiro de 2018, o procurador Diogo Castor de Mattos disse para Deltan que foi abordado por Joel Malucelli, em um clube de Curitiba. O empresário queria convidar Dallagnol para se candidatar, a pedido do próprio senador Alvaro Dias.

Malucelli na época era presidente do Podemos no Paraná e suplente de Dias no Senado. Mais tarde, em setembro de 2018, ele teve pedido de prisão temporária solicitado pela Lava Jato, o que não aconteceu porque estava na Itália. Ele é dono do Paraná Banco e de empresas de comunicação retransmissoras e de uma empreiteira que leva seu nome.

A reportagem do Intercept ressalta que, no início de agosto de 2018, a Associação Nacional dos Procuradores da República entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) para que membros do Ministério Público Federal possam se filiar a partidos políticos e disputar eleições sem precisar abrir mão de seus cargos.

“Não há, nas conversas do Telegram, indícios de que a medida da ANPR tenha sido tomada para favorecer uma hipotética candidatura de Deltan Dallagnol — para que pudesse disputar as eleições de 2018, ele teria de deixar o MPF até abril daquele ano”, completam os jornalistas Rafael Moro Martins e Rafael Neves, que assinam a reportagem.

*Clique aqui para ler a reportagem na íntegra.

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10 comentários

  1. Cada dia, mais picareta se apresenta. Dizer que alguém, em algum momento, foi capaz de “apostar” nessa coisa. Esse dalanzóis é o miliciano-institucional-absoluto: sem contar a vaidade de ser “rainha-do-rádio”.

  2. Esse último diálogo da VazaJato é uma cerejinha no projeto político-messiânico-personalíssimo, de cacoete fascistoide: articula-se a possibilidade de ser lançado o chefe de força-tarefa e/ou outros do MPF na disputa do Senado, sendo que, no caso do Paraná, isso possibilitaria barrar as eleições de “2 inimigos” (isso mesmo, cravam a rotulagem mágica – inimigos! – substantivo indutor de suspeição processual, segundo o texto legal), os quais nominadamente seriam Gleisi e Requião. Não se deve esquecer que o aparato judicial lavajatista montou algumas operações de busca e apreensão na casa dessa senadora *inimiga* . Se as instituições envolvidas (que são permanentes) não se posicionaram, vão ficar definitivamente desacreditadas, comprometidas e reféns dos arroubos personalistas de alguns membros (que, ainda que não se deem conta, são passageiros) …

  3. E se tivesse saido candidato teria sido eleito. E pelo que se vê da imprensa, e nisso a entrevista com Glenn Greenwald no Roda Vida é pedagogica, enquanto a Lava Jato servir a certos interesses, ela tera apoio incondicional desses setores.

  4. é sempre bom lembrar daquela capa da veja uma
    semana antes das eleições de 2014,
    “Lula e Dilma sabiam”,
    jamais esquecerei dum lance que detalha essa
    denúnica da vaza-jato colocada nessa materia. No
    dia da eleição a radio cbn ficou o dia inteiro noticiando
    repetidamente a capa da veja enquanto as
    pessoas iam votar.
    E todo mundo sabia e sabe que a radio cbn de
    curitiba era de joel malucelli, agora virou radio cidade.
    e joel era suplente do senador alvaro dias.
    alguns procuradores,enunciava-se, defendiam
    candidaturas do aécio e o escambau mo facebuque.
    a banalização do mal corria solta nesse pico do
    estado de exceção até agora.
    e continuará se não houver resposta democrática,.
    e embora a resistencia popular tenha.
    crescido muito ultimamente.

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