Início Crise Vazajato: Intercept divulga áudios de Deltan comemorando censura a Lula

Vazajato: Intercept divulga áudios de Deltan comemorando censura a Lula

Coordenador da força-tarefa que prendeu ex-presidente comemorou decisão tomada por Luiz Fux que, na época, tomou o lugar do presidente da Corte Dias Toffoli; Entenda

Jornal GGN – Em um áudio enviado para o grupo de procuradores da Lava Jato, no Telegram, em 28 de setembro de 2018, o coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, comemorou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, proibindo a entrevista de Lula. O áudio foi divulgado nesta terça-feira (9), pelo The Intercept Brasil.

“Caros, o Fux deu uma liminar suspendendo a decisão do Lewandowski que autorizava a entrevista, dizendo que vai ter que esperar a decisão do Plenário. Agora, não, não, não vamos abordar isso aí. Não vamos falar pra ninguém. Vamo manter, ficar quieto, para evitar divulgação o quanto for possível”, disse Dallagnol arrematando em seguida que a razão de ficarem quietos era evitar tempo hábil da defesa de Lula entrar com outro recurso.

“É… o pessoal pediu pra gente não comentar aí publicamente e deixar que a notícia surja por outros canais pra evitar precipitar recurso de quem tem uma posição contrária à nossa. Mas a notícia é boa, pra começar, começar… terminar bem a semana. Depois de tantas coisas ruins. E, começar bem o final de semana. Abraços! Falou!”, concluiu o procurador.

Entenda: Fux julgou pedido que era para Toffoli

Na noite do dia 28 de setembro, uma sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux tomou o lugar Dias Toffoli na decisão monocrática (individual) proibindo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de conceder entrevistas. O pedido havia sido feito pelo partido Novo contra a exposição do petista, detido na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, desde abril, e direcionado para a apreciação do presidente da corte, Dias Toffoli.

A sigla adversária ao PT, interveio para suspender a decisão do ministro Ricardo Lewandowski que, na manhã do mesmo dia, havia autorizado Lula a dar entrevistas para uma série de meios de comunicação. Segundo apurações da Folha de S.Paulo na época, uma das requerentes de entrevistas com o ex-presidente, o STF não esclareceu o motivo pelo qual Fux tomou o lugar de Toffoli, destacando que, mesmo à distância, o presidente da Corte poderia ter feito o despacho, porque os processos são eletrônicos.

O advogado da Folha, Luís Francisco Carvalho Filho considerou a determinação de Fux “o mais grave ato de censura desde o regime militar”.

“É uma bofetada na democracia brasileira. Revela uma visão mesquinha da liberdade de expressão”, completou. O ministro fundamentou sua ação na proteção e funcionamento da democracia, alegando que a entrevista com Lula causaria desinformação:

“A desinformação do eleitor compromete a capacidade de um sistema democrático para escolher mandatários políticos de qualidade”.

“A corte também foi questionada sobre se Fux despachou do tribunal ou a distância, mas não houve resposta”, destacou a Folha na época. Com a decisão de Fux, a matéria passou para a análise do plenário do STF, e ficou sem data prevista para julgamento. Finalmente em abril deste ano, a corte liberou Lula a fazer entrevistas no cárcere.

In Fux we Trust

A nova revelação do Intercept faz parte de um material robusto que recebeu de uma fonte anônima de quase 1 milhão de mensagens, totalizando 30.000 páginas.

No dia 12 de junho, em parceria com o jornalista Reinaldo Azevedo, o editor do Intercept, Leandro Demori, divulgou outros trechos de conversas entre Dallagnol e colegas da Lava Jato onde o coordenador da força-tarefa conta a outros procuradores que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, disse “para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez”. Ao enviar essa mensagem a Sergio Moro, o ex-juiz responde: “Excelente, in Fux we trust” (em Fux, nós confiamos).

‘Aha, uhu, o Fachin é nosso’

Na sexta-feira, 5 de junho, a revista Veja em parceria com The Intercept Brasil, publicou uma matéria que rendeu a capa da edição mostrando que o atual ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu para que a acusação, representada pelo Ministério Público Federal em Curitiba, incluísse provas nos processos da operação Lava Jato, antes de chegarem em suas mãos, quando juiz responsável por julgar os processos.

Em determinado trecho divulgado pela revista, de julho de 2015, Dallagnol mandou uma mensagem aos colegas da Lava jato “exultante” após um encontro com o magistrado: “Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso.”

Veja a seguir a mais recente matéria do The Intercept

HÁ UM MÊS, o Intercept iniciou uma série de reportagens que mudaram para sempre a história da operação Lava Jato, de seus procuradores e do ex-juiz e atual ministro de Jair Bolsonaro, Sergio Moro. Antes vistos como heróis intocáveis, os monopolistas do combate à corrupção (que tentavam silenciar qualquer voz que se levantasse para expor seus erros, abusos e ilegalidades) hoje são vistos de outra maneira pela população: 58% dos brasileiros acreditam que as conversas de Moro com procuradores são inadequadas. A desconfiança é ainda maior entre os jovens: na faixa etária de 16 a 24 anos, 73% não querem um país guiado pelo espírito justiceiro de Moro.

Em seus primeiros capítulos, as histórias dos arquivos secretos da Vaza Jato mostraram Moro atuando como chefe de fato dos procuradores, o que é ilegal; expuseram o coordenador da força-tarefa Deltan Dallagnol apresentando uma denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva da qual ele próprio duvidava; e revelaram os procuradores da Lava Jato (incluindo Deltan) operando secretamente para evitar que Lula desse uma entrevista durante a campanha eleitoral por medo que pudesse ajudar a “eleger o Haddad”.

28 de setembro de 2018 – chat privado

Anna Carolina Resende – 11:24:06 – ando muito preocupada com uma possivel volta do PT, mas tenho rezado muito para Deus iluminar nossa população para que um milagre nos salve
Deltan Dallagnol – 13:34:22 – Valeu Carol!
Dallagnol – 13:34:27 – Reza sim
Dallagnol – 13:34:32 – Precisamos como país

 

A propósito disso, nós publicamos agora, pela primeira vez, um áudio da conversa entre os membros da força-tarefa a respeito da guerra jurídica em torno da entrevista. Na manhã do dia 28 de setembro de 2018, a imprensa noticiou que o ministro do STF Ricardo Lewandowski autorizara Lula a conceder uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Em um grupo no Telegram, os procuradores imediatamente se movimentaram, debatendo estratégias para evitar que Lula pudesse falar. Para a procuradora Laura Tessler, o direito do ex-presidente era uma “piada” e “revoltante”, o que ela classificou nos chats como “um verdadeiro circo”. Uma outra procuradora, Isabel Groba, respondeu: “Mafiosos!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”

Eram 10h11 da manhã. A angústia do grupo – que, mostram claramente os diálogos, agia politicamente, muito distante da imagem pública de isenção e técnica que sempre tentaram passar – só foi dissolvida mais de doze horas depois, quando Dallagnol enviou as seguintes mensagens, seguidas de um áudio.

28 de setembro de 2018 – grupo Filhos do Januario 3

Deltan Dallagnol – 23:32:22 – URGENTE
Dallagnol – 23:32:28 – E SEGREDO
Dallagnol – 23:32:34 – Sobre a entrevista
Dallagnol – 23:32:39 – Quem quer saber ouve o áudio
Dallagnol – 23:33:36 –

 

A comemoração de Dallagnol expõe mais uma vez sua hipocrisia e sua motivação política: antes de serem alvos de vazamentos, os procuradores da força-tarefa enfatizavam – em chats privados com seus colegas – a importância de uma imprensa livre, o direito de jornalistas de publicar materiais obtidos por vias ilegais e que a publicação desses materiais fortalece a democracia.

No passado, Dallagnol era o maior entusiasta das garantias que foram justamente a base para a decisão de Lewandowski autorizar a entrevista de Lula. Em novembro de 2015, como o Intercept publicou, Deltan alertou seus colegas que investigar jornalistas que publicavam material vazado não seria apenas difícil mas “praticamente impossível”, porque “jornalista que vaza não comete crime”. Naquele época, ele era um dos principais defensores da importância de uma imprensa livre em uma democracia, um princípio que abandonou quando poderia, aos seus olhos, ajudar o PT a vencer a eleição.

Apesar do apelo do procurador para que a informação não fosse compartilhada, a notícia já se espalhava pela internet.

Depois do impacto inicial da Vaza Jato, o Intercept e seus parceiros continuaram a publicação de uma sequência de reportagens que mostraram as entranhas da operação, iluminando as conversas secretas que o público brasileiro e mundial precisavam ver.

Em parceria com Folha de S.Paulo, revista Veja e o jornalista Reinaldo Azevedo, mostramos comportamentos antiéticos e transgressões.

OUTRO LADOO ex-juiz Sergio Moro pediu aos procuradores da Lava Jato uma nota à imprensa para rebater o que chamou de “showzinho” da defesa de Lula, logo após o depoimento do ex-presidente no caso do triplex do Guarujá. A Lava Jato seguiu a sugestão como uma ordem.

Enquanto Lula era o alvo central da operação, o também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso era poupado pelos investigadores por ser considerado por Moro um aliado. Quando viu na TV uma notícia sobre uma investigação contra FHC, Moro chamou Dallagnol no Telegram e, mais uma vez, fez uma de suas sugestões: era melhor não seguir a investigação porque ela “melindra alguém cujo apoio é importante”.

A postura de Moro, escancarada pelas revelações da série, já eram conhecidas entre os procuradores – que o elogiavam em público, mas criticavam no privado. “Moro viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados”, disse a procuradora Monique Cheker.

A violação do sistema levou a Lava Jato a conspirar, depois de um comentário de Moro, para além das fronteiras do Brasil. Os procuradores se articularam para vazar informações sigilosas da delação da Odebrecht para a oposição venezuelana, mesmo que isso representasse “mais convulsão social e mais mortes”, como ponderou o procurador Paulo Galvão em um grupo. O colega dele, Athayde Ribeiro Costa, advertiu: “Imagina se ajuizamos e o malucomanda prender todos os brasieliros no territorio venezuelano”. Deltan Dallagnol não se comoveu: “é algo que cabe aos cidadãos venezuelanos ponderarem”.

Como dissemos em nosso editorial, logo no primeiro dia das publicações, “esse escândalo generalizado envolve diversos oligarcas, lideranças políticas, os últimos presidentes e até mesmo líderes internacionais acusados de corrupção”. O combate à corrupção é fundamental em qualquer democracia, por isso a importância de todo esse trabalho: para melhorar a conduta dos agentes escalados pela sociedade para liderar a luta contra os desvios éticos e o roubo do dinheiro público. Nosso parágrafo final, publicado em 9 de junho, serve também para fechar esse primeiro mês – e é um farol para o que ainda está por vir.

“Tendo em vista o imenso poder dos envolvidos e o grau de sigilo com que eles operam– até agora –, a transparência é crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que eles realmente fizeram. A liberdade de imprensa existe para jogar luz sobre aquilo que as figuras mais poderosas de nossa sociedade fazem às sombras.”

O Intercept enviou para a Lava Jato o conteúdo do áudio. A força-tarefa respondeu: “O site se recusou a enviar o material usado na reportagem para avaliação da força-tarefa, prejudicando o direito de resposta e de análise do material. As mensagens que têm circulado como se fossem de integrantes da força-tarefa são oriundas de crime cibernético e não puderam ter seu contexto e veracidade verificados. Diversas dessas supostas mensagens têm sido usadas, de modo fraudado ou descontextualizado, para embasar falsas acusações que contrastam com a realidade dos fatos.”

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