A essência (alma) do neoliberalismo é a solidão, por Giselle Mathias

Vimos na década de 90, e nas décadas subsequentes, a proliferação da cultura da autoajuda, na qual o indivíduo se basta, que vive por si só e depende única e, exclusivamente, do seu ser, pois como disse Marcuse, “o mercado irá satisfazê-lo em todas as suas necessidades”.

Gilbert Garcin

A essência (alma) do neoliberalismo é a solidão

por Giselle Mathias

Nesses tempos em que fomos obrigados a nos isolar em razão da pandemia, tenho pensado muito sobre como somos construídos através de padrões culturais estabelecidos e desenvolvidos enquanto vivemos.

Tenho aproveitado essa situação para ler, reler e refletir sobre o humano e como nos enxergamos enquanto espécie humana e o que estamos fazendo com a humanidade.

Herbert Marcuse, em “Cultura e Psicanálise”, diz que a nova sociedade exige, estabelece a liberdade como valor próprio do indivíduo, e sua essência estaria na “alma”, como se a plenitude da vida só se realizasse a partir de sua própria existência, do desenvolvimento interior, do que lhe é particular, insubstituível, o local onde entre os homens há a verdade, bondade e justiça, e só na alma há espaço para o humanitarismo e salvação, “Todo o resto é desumano, desprovido de crédito”.

Diz, ainda: “A organização desse mundo por meio do processo de trabalho capitalista converteu o desenvolvimento do indivíduo em concorrência econômica e a satisfação de suas necessidades ao mercado.”

Pensando sobre isso, e como todo e qualquer ser-humano é tratado apenas como uma peça da engrenagem desse sistema, é crível que as relações passem a se desenvolver também como algo descartável, porque a humanidade, em tese, só resta na “alma”, e não no ser vivente, mas apenas dentro de sua própria crença interna, a qual lhe dará a salvação e a vida eterna no paraíso.

A necropolítica adotada no Brasil desde o golpe de 2016, com a Emenda Constitucional n.º 95, mais conhecida como o EC do “Teto de gastos”, e aprofundada com o atual governo diante de suas ações na pandemia, nos escancara enquanto descartáveis, como se seres humanos fossem apenas copos plásticos, que ao perderem sua utilidade são jogados no lixo, nas covas dos cemitérios pelo país.

A descartabilidade do humano não é algo novo, mas essa ideia tem sido intensificada na ideologia neoliberal, (sim! O neoliberalismo é uma ideologia), Zygmunt Bauman já a descreve em sua obra “amor líquido” como o humano descartável se processa nas relações humanas, e consequentemente servirá a aceitação e conformação com o sistema imposto por uma pequena oligarquia a toda a humanidade.

Vimos na década de 90, e nas décadas subsequentes, a proliferação da cultura da autoajuda, na qual o indivíduo se basta, que vive por si só e depende única e, exclusivamente, do seu ser, pois como disse Marcuse, “o mercado irá satisfazê-lo em todas as suas necessidades”.

O sistema para se manter não pode ser questionado, principalmente, aquele que prega a exploração e escravização como algo natural, mas hoje essa falsa premissa não pode estar explicita, e assim ele cria subterfúgios e ideários para acobertar sua ideologia, e levar os incautos a total letargia e submissão.

É preciso dizer que todos estamos submetidos a introjeção de pensamentos e comportamentos que atendem a ideologia neoliberal, e a adotamos muitas vezes sem reflexão, pois somos bombardeados diariamente com esses ideais, como a “meritocracia”, os “amigos” das redes sociais, o “sucesso” que só é possível a partir do acúmulo financeiro e de mercadorias, o ser “amado” sem amar, a solidão como um bem e plenitude humana.

Somo seres sociáveis, e nos é apresentado a ideia de nos reduzirmos a um isolamento real, falseado por relações ilusórias nas redes sociais é um meio de nos encarceramos em nós mesmos, e, simplesmente, nos isolarmos e nos trazer para a conformidade do que nos apresentado como única alternativa de mundo e pensamento.

A crença na solidão como um bem, como algo natural da humanidade é útil ao neoliberalismo, pois enquanto estivermos introjetados em si mesmos, “satisfeitos” com o consumo proporcionado pelo mercado, tratando o outro como mercadoria a ser descartada, o sistema não será questionado, pois atuamos como ele.

Quanto mais isolados nos colocamos, mais individualista e crentes na possibilidade de vivermos sós, mais forte a ideologia neoliberal estará, pois os encontros, debates, questionamentos e construções, as quais só são possíveis a partir da união de humanos, estão cada mais vez escassos e a partilha de saberes e experiências rareadas. E, assim, o sistema mais uma vez se impõe contra o que o abastece, seres humanos, hoje não mais na escravização de corpos, mas das mentes e do vazio da solidão.

Giselle Mathias é advogada em Brasília e integra a ABJD/DF, a RENAP – Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares e #partidA/DF.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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