Criptomoeda, será revolução?, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

A revolta contra as moedas fiduciárias, cujo lastro é a confiança somente, levou à invenção de um lastro virtual cuja mineração depende de um algoritmo.

Criptomoeda, será revolução?

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

                Qual a diferença entre a espada de Jedi e a do Rei Arthur? Só a época, posto que ambas são espadas e conferem poderes sobrenaturais ao portador. O que pode parecer revolucionário à primeira vista, não passa do pensamento reacionário levado às últimas consequências. Bruno Latour[1], disse que “Jamais Fomos Modernos”. É verdade. Até quando se encena uma revolução tecnológica, lança-se mão do passado, como se fosse possível revivê-lo.

                As criptomoedas são um exemplo cabal de que o que se diz moderno, na verdade, usa a tecnologia para voltar ao passado. A revolta contra as moedas fiduciárias, cujo lastro é a confiança somente, levou à invenção de um lastro virtual cuja mineração depende de um algoritmo. Essa tentativa de recriar uma moeda que carregue em si o seu lastro parece o mesmo que cunhar moedas de ouro virtual. Não existe nada mais dependente de crença do que um lastro virtual criado por um, igualmente virtual, Satoshi Nakamoto[2]. Ao contrário do que se imaginou, criou-se a mais fiduciária entre as moedas, pois depende da confiança no nada.

                Dois grupos deliciaram-se com a ideia, os anarco-capitalistas e os especuladores, que já vinham apostando em jogatina baseada em valores, como o Forex. O primeiro grupo aderiu por motivos ideológicos, pois pretendia-se expulsar o estado da emissão de moeda, o segundo foi seduzido pela possibilidade de encontrar mais um ativo com que negociar.

                Cabe analisar os motivos não factuais que levaram ao abandono do padrão-ouro. Aconteceu que a economia mundial começou a crescer mais rapidamente do que a produção de ouro, o que se agravou com a demanda industrial pelo metal. O avanço da eletrônica fez com que o ouro migrasse das joias e moedas para as peças que requeressem alta condutividade e resistência à oxidação. O acordo de Bretton Woods exacerbou o movimento porque tornou mais barato retirar o ouro do Fort Knox do que procurar na Natureza, apesar de os anarco-capitalistas atribuírem a uma sabotagem de De Gaulle.  A partir do momento em que o uso industrial superou por larga margem a necessidade de reservas de ouro monetário, sua exploração passou a seguir as regras aplicáveis a qualquer metal, hora reciclando, hora minerando, consoante o custo de reciclagem ou de mineração. Já não havia espaço para a conversibilidade em qualquer metal precioso como irídio ou tântalo.

                O fato de o número total de bitcoins ser finito e conhecido fará inexoravelmente seu preço ser crescente, posto que a economia mundial cresce e a quantidade de bitcoins não. Isso cria a perspectiva de valorização constante, o que  fará com que a criptomoeda seja usada como reserva de valor e não como meio de troca. É que um satoshi poderá valer, por si mesmo, mais do que aquilo que se espera que ele compre. Ninguém seria maluco a ponto de vender um satoshi[3] para comprar um sorvete se, guardado, ele valer um automóvel.

                Essa perspectiva de valorização enseja a concorrência, o que já se apresenta, pois, desde a criação do bitcoin, já surgiram mais de duas mil moedas virtuais, atraindo governos a lançarem as suas que, além do curso livre, contam com curso legal, o que torna assimétrica a concorrência entre elas.

                É finitude do estoque das commodities que enseja os derivativos, sempre em quantidade maior do que a oferta física. As criptomoedas, por terem estoque fixo e predefinido promoverão contratos capazes de multiplicar sua quantidade fiduciária até o insustentável, resultando em bolhas especulativas capazes de levar muitos à miséria.


[1] Filósofo francês que escreveu livros como “Vida de Laboratório” e “Nunca fomos Modernos”.

[2] Pseudônimo do anônimo programador japonês que publicou o artigo que lançou o bitcoin em dezembro de 2008.

[3]Um centésimo milionésimo de bitcoin, sua menor fração

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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1 comentário

  1. Não há revolta contra a moeda fiduciária. Há o desejo de poder emitir moeda fiduciária. Fé é um passivo universal; praticamente todos os seres humanos a possuem, em maior ou menor grau, e dela se valem para obter um ganho no futuro, seja esse ganho juros ou um lugar no céu. E Deus – aqui também conhecido como Banco Central – segura o ativo nas mãos, o suado dinheirinho ou a alma, propriamente dita, dos fiéis investidores.
    O bitcoin é uma aplicação eletrônica, não-física, com promessa de retorno, em juros, no futuro. Igualzinho à alma, que lhe garante vida – estabilidade financeira – e um prêmio, o resgate do paraíso.
    Igualzinho aos derivativos, aos títulos de dívida pública, e a todas essas excrescências – sempre com nomes bonitos e sedutores – que formam o cassino financeiro em que vivemos. Pelo menos enquanto existirem commodities e bugigangas para consumir.
    Quem não tem dinheiro para consumir, nem fé para acreditar na recompensa da vida eterna, fica aqui, odiando em silêncio toda essa maquinaria, esperando a hora de ser imolado.
    O bitcoin é um deus que finalmente encontrou seus profetas e seu povo. Por quanto tempo, sabe-se lá.

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