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O impacto da Justiça de Transição no bolsonarismo militar: Juliana Dal Piva na TV GGN

Foto: Marcos Corrêa/PR

Jornal GGN – A ascensão das polícias ao bolsonarismo tem se materializado aos olhos da sociedade nos últimos tempos. Seria esse ‘fenômeno’ uma herança dos anos de chumbo? O fato é que a deficiência da nossa Justiça de Transição contribuiu para essa atmosfera autoritária que se mostra cada vez mais densa desde 2018. A jornalista e colunista do portal UOL, Juliana Dal Piva, falou sobre o tema em entrevista ao Cai na Roda, programa tocado pela redação de mulheres do GGN, que foi ao ar no último dia 14, na TV GGN.

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O nome de Juliana está no centro da conjuntura política nos últimos tempos, em consequência do Podcast “UOL Investiga: A vida secreta de Jair“, que tem quatro episódios e está disponível gratuitamente no Spotify. Mas além do grande trabalho investigativo envolvendo a família presidencial, a jornalista tem uma trajetória envolvendo trabalhos sobre a ditadura militar e direitos humanos na América Latina.

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Hoje, muitos se perguntam como chegamos neste cenário democratico em ruínas, com um líder autoritário. O fato é que Jair Bolsonaro (sem partido) já encarava suas inspirações políticas em 2016, por exemplo, quando dedicou seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff à memória do coronel Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), uma divisão de repressão da ditadura, entre 1970 e 1974.

Agora, vemos as nossas polícias ao redor do país irem contra o próprio rendimento e manifestarem seus apreços políticos, de natureza ditatorial. Capitães, coronéis e tenentes são vistos convocando seus colegas para atos antidemocráticos, inclusive, os que devem ocorrer no próximo dia 7 de setembro.

A movimentação não deve espantar os leitores deste Jornal. Há um mês, o jornalista Luis Nassif vem analisando com mais profundidade a questão do Partido Militar e a sua adesão ao bolsonarismo. Na TV GGN 20h, exibida em 27 de julho, o ex-chefe do Exército, o Coronel da reserva Marcelo Pimentel, explicou como a figura de Bolsonaro vem sendo implantada dentro das Forças Armadas desde 2014.

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Para Juliana, todos esses aspectos, que colocam à prova o nosso Estado Democrático de Direito, são consequências das falhas da nossa Justiça de Transição, ao não discutir o que significa os crimes contra a humanidade.

“As pessoas têm dificuldade em parar, olhar para o Brasil e verificar a gravidade das coisas que aconteceram na ditadura, porque os crimes que aconteceram não foram só contra as pessoas que morreram ou desapareceram, tudo o que aconteceu atingiu a sociedade brasileira inteira naquela época e as gerações posteriores”, disse.

Segundo ela, “quando não se olha para esse passado, isso acaba sendo uma licença para os vários abusos que acontecem nas nossas polícias”.  

“Muito se discute sobre a questão da polícia [brasileira] ser militar, e do quanto essa herança militar influi na violência policial. Foi muito ruim para o nosso processo democrático de construção posterior à Constituição de [19]88, o tempo que o Brasil levou, por exemplo, para [instaurar] uma Comissão [Nacional] da Verdade [CNV], acho que o mais importante pra gente quanto sociedade era um processo de educação [sobre esse período]”, continua.

A jornalista, que tem uma importante pesquisa sobre o período da ditadura, ainda deu um exemplo – entre muitos – sobre como os militares atuantes na época passaram adiante suas heranças.

“Alguns desses militares que participaram da repressão política, do núcleo central de inteligência da ditadura, levaram seus conhecimentos, por exemplo, para o ‘jogo do bicho’ no Rio de Janeiro. Eles montaram um grupo de máfia, capaz de criar suas próprias leis, de uma violência extrema, inclusive ensinando aqueles métodos de tortura e desaparecimento adiante”, contou. “Então, nós passamos por um processo de trazer [esses aspectos] para dentro da sociedade, para conviver, como se nada tivesse acontecido”, completou.

A história da ‘Casa da Morte’

Juliana agora se prepara para finalizar um livro sobre a história da fatídica ‘Casa da Morte’, que ficava em Petrópolis, na região serrana do Rio. Esse foi espaço montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE) para torturar e matar guerrilheiros no período mais sombrio dos anos de chumbo. Apenas uma vítima sobreviveu ao terror do local, Inês Etienne Romeu (1942-2015), com quem Juliana conversou diversas vezes entre 2021 e 2015 para a construção da obra, que deve ser lançada em breve, e também conta com o depoimento de militares.

Assista sobre a questão da Justiça de Transição partir de 27:58

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