Um rega-bofe indigesto, por Aracy P. S. Balbani

Um rega-bofe indigesto

por Aracy P. S. Balbani

Um dos assuntos polêmicos da semana passada foi o jantar de empresários em torno de Jair Bolsonaro e comitiva na capital paulista.

Como qualquer reunião de poderosos, endinheirados e famosos, ainda que possa haver um ou outro endividado entre eles, o jantar alimentou expectativas e rumores, amplificados pelo agravamento da pandemia e pelos antecedentes de alguns dos cotados para comparecer ao evento.

Na ocasião em que o Brasil superou 350.000 mortes por COVID-19, as UTIs seguem lotadas, mesmo em hospitais privados de ponta, e a vacinação contra o coronavírus acontece aos trancos e barrancos, é desafiador para qualquer cerimonial organizar um evento (beneficente?) de forma a não causar aglomeração. Além do protocolo sanitário rigoroso – talvez, até, com testagem prévia para coronavírus em todos os ingressantes no local -, há que se estar preparado, mais do que nunca, para impedir a entrada de bicões, beijoqueiros de celebridades e paparazzi.

Alguns detalhes são sutis, mas cruciais. O cardápio não deve incluir farofa, para reduzir o risco de engasgo, tosse e eliminação explosiva de perdigotos à mesa. Afinal, “Amor e tosse, impossível ocultá-los”, já dizia o poeta e sacerdote galês George Herbert nos idos de 1600.

Também precisam ser banidas do menu sobremesas com leite condensado. A precaução é para não remeter as papilas gustativas dos comensais a falas nada protocolares sobre “enfiar a lata de leite condensado” em algum orifício corporal. Dada a revelação recente de um episódio de cusparada filial em família, não seria exagero providenciar protetores faciais aos convidados e uma ambulância na porta. O dia seguinte não deve ser menos árduo para os anfitriões e sua equipe de serviçais: limpeza e desinfecção dos ambientes, louça, talheres e demais utensílios.

Antes de, literalmente, perder a cabeça, a Rainha Maria Antonieta – aquela que mandou o povo francês sem pão ir comer brioches – pagou os tubos à pintora Elisabeth Vigée-LeBrun para ser retratada dezenas de vezes para a posteridade. Intriga que, no século 21, empresários reunidos em torno de causa tão nobre – vacinação contra a COVID-19 – não tenham imortalizado o momento numa foto digital.

Na falta da divulgação de um manifesto e da foto oficial dos participantes do evento, a sociedade brasileira deu asas à imaginação. Circulam informações sobre gente arroz-de-festa que teria ficado ofendida por não ter sido convidada, gente que jurou de pés juntos que não estava lá, conviva que teria reclamado da campanha por boicote às empresas dos cidadãos que prestigiaram o evento, etc., etc., etc. Permanecem no ar as perguntas: o encontro foi em benefício de quem? Quais os resultados práticos?

Os fatos são: a miséria e a fome assolam milhões de brasileiros; um número cada vez maior de famílias é afligido pela dor de perder entes queridos sem conseguir vaga de UTI; a ciência vem sendo sistematicamente desprezada por várias autoridades.

Nessa calamidade pública, na qual o Presidente vem sendo apontado, no Brasil e no exterior, como genocida, soa como acinte a notícia de um encontro privado com o mandatário em torno de uma mesa opulenta sob o pretexto da pandemia.

Aos que tencionam usar dinheiro e poder para conseguir vacinas e tratamentos eficazes de forma privilegiada, ficam os pensamentos do psicanalista José Ângelo Gaiarsa: “A riqueza não é proteção eficaz contra a doença, a morte, o acidente, a perturbação emocional, a infelicidade familiar”. “O opressor não respira melhor que o oprimido”.

Se alguém tossiu no jantar, não sabemos. Mas, como o amor não pode ser ocultado, o rega-bofe paulistano da semana passada foi um luxuoso abraço de afogados, impossível de ser digerido pelos brasileiros de carne e osso. Estes guardam luto na pandemia e lutam por vida digna para todos.

Aracy P. S. Balbani

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