A fala de Nassif em Natal e o papel das universidades no Projeto Nacional, por Ion de Andrade

A fala de Nassif em Natal e o papel das universidades no Projeto Nacional

por Ion de Andrade

No dia 12 de maio tivemos, no auditório da reitoria da UFRN em Natal, palestra de Luis Nassif sobre o momento atual e os riscos para a democracia no Brasil. O evento foi promovido pela Associação de Docentes da UFRN, a ADURN/Sindicato. O auditório estava lotado e se fizeram presentes, dentre muitos outros, a Senadora Fátima Bezerra, a deputada federal Zenaide Maia, o deputado estadual Fernando Mineiro, dentre inúmeras outras lideranças e autoridades atestando a importância da formulação de Nassif no contexto nacional e do GGN como grande fórum para a retomada da democracia no Brasil.

Com uma visão rica e abrangente, Nassif apontou inicialmente para a estratégia do assassinato de reputações como método de destruição da viabilidade política das lideranças da esquerda mundo a fora e dos líderes que encarnam projetos nacionais, proscritos da globalização e hoje esmagados e submetidos à governança do capitalismo global. Citou diversas lideranças internacionais que passaram pelo mesmo calvário de perseguição político-judiciária que hoje morde Lula.

Adentrou pelo entendimento de que a forma pela qual as reformas estão ocorrendo e a unilateralidade da mídia tornam esse fenômeno autoritário possivelmente curto, utilizando a expressão de que “estão com os dias contados”, pois não têm nenhuma isenção, nem de aparência.

Especificamente sobre a Globo considera que a sua unilateralidade compromete os interesses futuros da própria empresa e que, na volta à normalidade política, será prioridade, para quem quer que seja, a redução do seu poder.

Concluiu sinalizando a necessidade de um Projeto Nacional para sairmos da crise, sublinhou que a esquerda, dada a correlação de forças atual, deverá saber “conciliar muito” no contexto de um possível governo de união nacional e informou que o GGN criou uma colaboração com as universidades para a ajudar na elaboração desse projeto. Considerou ainda que Lula e Ciro se movem alinhados com essa ideia do Projeto Nacional.

É sobre o papel das universidades na elaboração desse Projeto Nacional que teria algumas considerações a fazer, por entender que não reúnem as condições de, sozinhas, fazê-lo no aspecto mais relevante que pode ter: o de incorporar as nossas periferias e zonas rurais à contemporaneidade.

Antes disso porém, quero ressaltar a importância de que essa ideia de frente ampla em torno de um Projeto Nacional tenha sido trazida a debate ontem à esquerda potiguar, pois há ainda viva a ideia de que agora a saída é o the end da dita “conciliação de classes”, como se o próprio Estado de direito, ao qual não temos alternativa, não fosse ele próprio a expressão de um compromisso entre classes antagônicas.  

A questão que quero agregar aqui e que subjaz ao papel contemporâneo das nossas universidades, e é o que me parece ter sempre sido uma das razões de insucesso das aventuras sociais brasileiras, que ajuda a entender o que precedeu a crise atual e que ensombrece o alcance desse novo Projeto Nacional é o fato de que somos  uma nação, como diria Darcy Ribeiro, bipartida, ou como diria Gilberto Freyre dividida entre uma Casa Grande e uma Senzala.

É nesse sentido aliás, que vejo as universidades, apesar de toda boa vontade e do compromisso de tantos e de tão bons, como inteiramente incapazes de produzir um Projeto Nacional que dê conta de uma sociedade que ela não enxerga, pois o nosso componente social senzala, e não por maldade voluntária, existe para a nossa intelectualidade universitária como algo mais distante do que os “mundos exteriores” de Orwel.

Essa anatomia nacional monstruosa tem também dificultado profundamente à nossa esquerda (egressa das nossas universidades) de entender onde a sua atuação é mais relevante e raros são os movimentos políticos e sociais enraizados nas nossas “distantes” periferias sociais, como é o caso do MST.

Ilustra isso o fato de que os treze anos de governo trabalhista mudaram a vida dos mais pobres no quesito renda e no acesso a instituições de educação situadas fisicamente fora das periferias e zonas rurais, mas não foram capazes de mudar o cotidiano dessas senzalas que persistiram abandonadas pelo Poder Público e continuam sendo presa fácil do crime e de toda sorte de precariedades locais e onde continuou e continua sendo mais fácil comprar um revolver do que um violão. A violência, aliás, piorou com a receita formada por mais renda e persistente e continuada ausência do Estado. Fartos indicadores mensais deram conta disso ao longo do tempo.

Onde estavam as universidades nesse processo se a elas os governos trabalhistas tanto recorreram para a produção e análise das políticas sociais e como fonte de quadros para os governos?

Na área da saúde, por exemplo, o Programa Mais Médicos, para ser criado, precisou que 3 milhões de brasileiros descessem às ruas, movimento aliás bem cedo manipulado pela direita. Um programa obviamente estratégico que nem mesmo o atual governo consegue desconstruir de vez. Esse espasmo tardio, prova a distância abissal existente entre os palácios de uma então Casa Grande bem-intencionada  e  as nossas periferias e zonas rurais. Na verdade, programa similar ao Mais Médicos deveria ter sido instalado no dia seguinte ao primeiro governo Lula. Se isso não ocorreu, a responsabilidade maior recai sobre a esquerda partidária (e eu omito as siglas por desnecessidade), sobre o governo, mas também sobre os departamentos de Saúde Pública das nossas universidades. De lá vieram os quadros que não conseguiram enxergar a tempo, ou com a devida prioridade, a trágica e gritante realidade da desassistência de milhões e milhões e milhões e milhões… de brasileiros. O Programa Mais Médicos para ser criado teve que ter a coragem de desrespeitar a arquitetura do SUS, pois a Atenção Básica é responsabilidade do município e ele emergiu como um programa federal para a Atenção Básica focado nos excluídos. Reconheçamos, a bem da verdade, que a multidão que saiu às ruas ameaçando a continuidade do governo, (que depois foi derrubado) é que foi o maior motivador político da coragem para a criação do programa e não, lamentavelmente, a doença sem diagnóstico e o sofrimento secular de dezenas de milhões. Talvez parte de algum trabalho acadêmico isolado a proposta do Mais Médicos nunca esteve presente na pauta principal de reinvindicações da Saúde Pública.

Responsabilidade estadual, a Segurança Pública não foi alvo de nenhum projeto federal estruturante e continua produzindo inenarráveis realidades.

Se, obviamente não seria justo responsabilizar isoladamente as universidades por tomadas de decisões de governo por serem tardias ou inexistentes em áreas cruciais para o Brasil, numa articulação de poder da qual tomavam parte, seria incorreto e contraproducente nesse momento de autocrítica a que estamos obrigados, isentá-las.

Duas verdades, para além do golpe, se exprimiram naqueles movimentos manipuláveis e manipulados (1) As periferias e zonas rurais devem galgar autonomia e protagonismo próprio se quiserem ser ouvidas em suas justas e emergenciais aspirações pela esquerda político-partidária que deveria representa-las e pelas universidades, pois (2) nem as esquerdas e nem as universidades as veem. A cegueira não é pecado, mas se for pilotar um Boeing…

Dito isso sugiro que essa colaboração para a formulação de um Projeto Nacional pelo GGN, rompa desde já com a invisibilidade das nossas periferias e zonas rurais e convide para fazer parte dela os movimentos que atuam nessas “lonjuras” sociais. Acho até que eles deveriam ser convidados a fazer a crítica da produção universitária, não para constranger as universidades, mas para assegurar que essa produção não esteja permeada e enviesada pelo pecado original que fundou a nossa nacionalidade bipartida e que reverbera na Casa Grande e nas Senzalas até hoje.

O próximo ciclo civilizatório do Brasil, afinal o âmago de qualquer Projeto Nacional que se respeite, deverá ser a revolução das periferias ou não será. A democracia e a emancipação das periferias, aliás, devem ser a nossa agenda no pacto que nos devolverá à normalidade política.

É a inclusão daqueles milhões não somente ao mercado consumidor, mas também à contemporaneidade em todos os seus aspectos, que converterá o Brasil num país desenvolvido, capaz de enfrentar com protagonismo popular os desafios do futuro.

Então, com todo o respeito à academia que cresceu muito na produção científica, no acesso do povo, no número de mestrados e doutorados, dentre outras conquistas durante os governos trabalhistas que sugiro ao GGN: nessa colaboração, Nassif, convide os movimentos organizados das periferias para que tenham protagonismo na elaboração da proposta de Projeto Nacional – há gente corajosa, desapegada, idealista e inteligente nesse front – e subordine a produção universitária à leitura deles.

Carlos Nelson Coutinho dizia mais ou menos que com a ampliação da democracia, que ousou enxergar como um valor universal, de alguma forma as “peças” deveriam ir migrando para os seus lugares. Nesse Projeto, que com sorte deveremos levar ao mundo real, coloque essa peça universidade no seu lugar, a serviço do povo. É sua única razão de ser, e é digníssima

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