A Luis Inácio lhe falta um bom alfinete, por Letícia Sallorenzo

Ou por que o discurso de Lula tentou mas não furou a bolha da esquerda

A Luis Inácio lhe falta um bom alfinete

por Letícia Sallorenzo

Em nome de são George (Lakoff) guerreiro, vou mostrar aqui, na prática, o que é um sanduíche de frames. Primeiro, a gente apresenta ideias positivas. A seguir, entrega todas as ideias negativas e conclui com proposições – que, óbvio, serão positivas.

1) Frames positivos:

Lula falou como o estadista que sempre foi, e que levou este país a ser respeitado e admirado em todo o planeta.

No discurso de ontem, não faltaram temas relevantes e importantes para um líder que pretende, de fato e de direito, pensar e solucionar o Brasil.

Lula falou de economia, política externa, questões sociais, defendeu o trabalhador, e não deixou de falar em Amazônia, meio ambiente e pautas identitárias, inclusive situando essas pautas em contexto mundial (vidas negras importam nos Estados Unidos, no Brasil e no mundo inteiro). Todos foram lembrados, todos mencionados, todos tiveram relevância no discurso de Lula.

O discurso de 7 de setembro do maior presidente do país mostrou ao país que é possível haver liderança, é possível pensar o Brasil.

Muita coisa funcionou no discurso de Lula.

2) Frames negativos

Agora que eu já falei bem, vamos apontar tudo o que não funcionou, porque como eu disse pra Lourdes et al no Cai na Roda de duas semanas atrás (jura que já tem tudo isso?), ou a gente se emenda ou a gente vai tomar uma tunda bonita em 2022.

Se o Lula falou pra você ou pra mim, então o discurso de ontem de Lula funcionou maravilhosamente. Mas eu não preciso ser seduzida pelo discurso de Lula. E se você é eleitor do PT ou da esquerda, também não precisa ser seduzido por um discurso minimamente sensato e racional. Nós somos os 30% que estamos sempre fechados com Lula, chova ou faça sol.

E vamos combinar: Se Lula gastou estúdio, teleprompter e hora em ilha de edição (além de uma maquiagem tão maravilhosa que o deixou com o rosto lisinho e perfeitamente rosado, não é ironia: eu quero saber que base é aquela! Preciso, inclusive!) pra falar conosco, não precisava disso tudo. Então, temos que Lula queria falar para fora da nossa bolha. Com os 70% do lado de lá (inclusive com os 40% flutuantes que ora votam no PT, ora no fascismo).

Será que conseguiu? Spoiler: não. E não estou tirando essa opiniões de buracos de frequência duvidosa. O discurso de Lula não repercutiu para além de nossa bolha. Faltou o alfinete pra furar a bolha.

E posso dizer com segurança que o problema teve muito a ver com a redação e a estruturação do texto: começou apresentando de forma negativa a condução da pandemia de Covid-19 por parte do governo brasileiro. Além de abrir com mensagem negativa, o texto tinha a árdua missão de “discutir” com esta imagem:

(FOTO: EDUARDO MATYSIAK)

Ou seja, a luta é inglória. A abordagem continuou negativa ao se falar de economia, e só houve fala positiva ao se trabalhar a relação entre soberania, independência, autonomia e liberdade – e ainda assim foi muito rápido (vou falar mais desse ponto no item 3, pode deixar), e intercalado de forma positiva e negativa.

A seguir, o texto volta a falar de economia, depois fala em tom amargo sobre o tanto que o PT fez o país evoluir e que esse trabalho culminou com o golpe de 2016. Houve ainda defesa dos setores identitários, feita de forma corajosa (“quantos George Floyd há no Brasil?”). O discurso de longos 23 minutos se encerra oferecendo Lula em sacrifício para o bem da nação em tom meio apocalíptico, com o que a meu ver foi um erro estratégico abissal: o fim do teto de gastos. O teto de gastos tem que acabar, isso é indiscutível. Mas deixa o Bolsonaro falar isso sozinho. No momento em que Bolsonaro e Lula falam coisas parecidas, a velha imprensa corre pra “mostrar” como os dois são iguais.

Outra coisa: quem escreveu o texto não pensou um momento algum que as palavras estavam rebuscadas demais (eu estou até agora tentando entender por que mencionar que na Amazônia tem que ter antropólogo. Com tanta coisa a se fazer na Amazônia, por que diabos enfiar especificamente um antropólogo naqueles cantos, por Tutátis? Qual o motivo da prioridade?). Por que falar em “profetas de Wall Street e da city de Londres”, nesses termos? Com quem Lula falava? Essa citação foi eficaz?

Mais um detalhe esquecido: o texto a ser falado e enunciado tem tratamento diferente de um texto a ser lido em silêncio, com os olhos. Se a pessoa que escreve o texto a ser falado pensar e vislumbrar quem vai falar o texto, e como vai falar, melhor ainda. Isto posto, me irritou horrores ver que o final do texto quase não saía direito da boca do Lula. A impressão que tive é que o texto foi escrito para derrubar, mesmo. (são coisas que só eu reparo, mas eu sou chata, me deixem.)

Em suma, o texto foi e voltou várias vezes em temas conexos, de forma mais negativa que positiva. Ficou perdido. Deveria ter aberto exaltando a força, a garra e a batalha diária do povo brasileiro pelo pão de cada dia, concentrava no meio do discurso todas as críticas negativas ao governo, economia, etcetcetc e fechava o texto de forma positiva, com as propostas do PT para a reconstrução do Brasil. Mas nem as propostas do PT foram apresentadas de forma positiva. Assim fica muito difícil, gente!

3) Frames positivos

Isto posto, há que se destacar que, mesmo sem furar a bolha, o discurso de Lula foi ouvido por quem tinha que ouvir o discurso: os que Lula enquadrou como “aqueles que se julgam donos do Brasil”, a elite financeira, empresarial e política do país. E a esse pessoal, Lula mandou a letra:

– o país precisa voltar a funcionar com a união de todos, em paz,  harmonia e igualdade, com respeito à natureza.

– a reconstrução do país se dará com lastro (alô, banqueiros! Era com vocês que Lula falava!) no voto. Traduzindo: golpe nem pensar.

– a reconstrução do país se dará a partir de um novo contrato social entre todos os brasileiros, e esse contrato social deve defender os direitos e a renda dos trabalhadores.

– No que depender dele, Lula, o Brasil voltará a ter um estado de bem-estar social justo, igualitário e independente.

– Lula não apoia solução (inferências: já há quem queira costurar um acordo com Lula, e esteja negociando as bases desse acordo) sem a participação dos trabalhadores.

O discurso de Lula poderia ter articulado melhor a mistura das ideias de independência, soberania e liberdade dos trabalhadores. Mas foi muito feliz em dois momentos:

– “É do inferno dos pobres que é feito o paraíso dos ricos” (nem precisava ter citado Victor Hugo, isso é marca de bolsa cara, gente!)

– “O povo não quer comprar revólver, o povo quer comprar comida”.

***

Espero ter deixado bem claro como o discurso deveria ter se estruturado. Também espero ter deixado clara a natureza construtiva de minha crítica.

Finda a análise com o que Lakoff chamou de sanduíche de frames, deixo uma última dica diretamente ao Lula: presidente, quem deixou o governo com mais de 80% de aprovação só pode começar a se sentir satisfeito com pelo menos 15 milhões de views (de mais de 3 segundos, por favor!) nos vídeos. Menos que isso é migalha. Já existem mais usuários de whatsapp do que espectadores da Rede Globo, então muito gente tem acesso ao vídeo!

E pelo amor de Deus, apague os comentários negativos de robôs, isso não é democracia, é frame negativo!

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