A política paulista: transição ou crise?

Atualizado às 11:10

A questão paulista, problema, solução ou fase de transição?

A questão é que, para o bem e para o mal de São Paulo tanto PT como PSDB foram, e são até hoje, em grande parte, fortemente paulistas. E esses dois partidos têm dirigido o Brasil nas duas últimas décadas.

Assim seus políticos têm já de início a esfera federal como alvo e não a construção de uma carreira local para depois alçar postos nacionais.

Foi assim que se construiu a política na redemocratização e pricipalmente após a morte de Tancredo.

A morte de Tancredo tirou Minas, sempre tão influente, do jogo político federal trágica e inesperadamente. Itamar não conta, é café-com-leite. E aqui, esse café-com-leite não é designativo de alguma simpatia dele com São Paulo; me permiti uma pequena maldade com o homem de topete.

O poder político e o econômico estvam em São Paulo naquele momento.

Ulisses, Montoro, Fernando Henrique, Mario Covas, Almino Afonso, Severo Gomes e Lula. Note-se que estou aqui citando de memória e que nem foi preciso citar o Jânio – sua renúncia já era história escrita em pedra. Todos paulistas.

Isso para não citar a intelectualidade da USP, UNICAMP, Dom Paulo e a comunidade eclesial de base, o movimento sindical e uma enorme efervessência cultural que ia do punk à vanguarda paulista. Há que se notar a poderosa presença de publicações de peso, como os jornais poderosos  Folha e o Estadãoe a revista Veja. Trinta anos após, essa publicações guardam pouca relação com o que eram na época, mas é o contexto dos anos 80 que deve ser entendido aqui. 

Fora desse contexto essencialmente paulista estava o nordeste com um Sarney completamente perdido na presidência, ACM poderoso localmente, mas identificado demais com o regime anterior para tentar qualquer vôo em escala nacional e Arraes, um  mito, mas também um político com curta autonomia de vôo. Entre os gauchos, sempre tão atuantes, Pedro Simon e Paulo Brossard grandes homens do plenário, do legislatvo não do executivo e, ele o fantástico Brizzola, esse sim um nome a nível federal, mas que, paradoxalmente, não tinha penetração em São Paulo e Minas e, aí todo do Brasil restante acabou-lhe sendo pouco.

O momento era paulista; 50 anos após 32, era novamente São Paulo.

O último político fora da esfera paulista foi Collor, mas este, então, era um ser artificial, um holograma criado pelo Doutor Roberto Marinho, segundo Dona Lily, e apoiado ou tolerado de nariz tapado pelo conservadorismo nacional como forma de conter Lula e Brizola. Sua derrocada abriu as porta para a u,a temporária hegemonia paulista na política brasileira.

Agora, depois dessa longa contextualização histórica, vamos ao que São Paulo é hoje politicamente. Um Estado sem novos nomes, sem novos quadros políticos, é isso.

Seus grandes nomes estão no pasado recente ou foram prematuramente desgastados. Ulisses, Covas e Montoro mortos, quem são seus herdeiros? Alckimin? Um sobrevivente da tragédia fernandina-serrista que o PSDB se auto-impôs, sem dúvida. Mas ainda está para provar que é um nome nacional e não uma exótica produção da culinária paulista- o picolé de chuchu.

Para FHC e Serra basta re-escrever no passado os doloridos versos de uma belíssima canção da Alcione ” você se ama, e em sua própria chama há de se consumir”.

Lula cumpriu seu papel na nossa história, ainda que mais nada faça estará junto com Getúlio e Jucelino no plano político nacional. Mas com uma história política calcada na democracia, o que Getúlio não tem e com uma história pessoal que faz de Jucelino um homem comum, com todo o respeito a nós, homens comuns e a Jucelino.

No entanto, sua sucessora não saiu do núcleo paulista.  Por quê? Porque não havia e não há nomes paulistas para sucedê-lo. Nem para, neste momento suceder Dilma. 

Eduardo Suplicy e Erundina estarão lá, sempre presentes quando precisarmos de reserva moral.

Mercadante, parece que não consegue coordenar o seu tempo com o espaço político. Marta não se recuperou ou não entendeu as lições da sua derrota para o 2º mandato na prefeitura. cada vez mais estridente, continua uma “petista-bourbon”, parafraseando Paul Krugman.

Genoino, João Paulo e Zé Dirceu, Palocci, justa ou injustamente têm seus esqueletos no armário. Ora lhes atiram contra acarreira política um mensalão, ou um extrato bancário vazado ou, se nanda mais restar, uma lata de massa de tomate com ervilhas.

Celso Daniel, Toninho do PT não estão mais entre nós, são hoje casos ainda a serem esclarecidos.

No espectro da direita, alguém aposta um real no futuro de Kassab como um político de expressão nacional?

Do outrora poderoso e influente movimento sindical quem surgiu para a esfera política? 

Vicentinho, Paulinho da Força, Luiz Marinho? Nem para governador, na minha opinião.

Da academia, das artes da imprensa ou da dita sociedade organizada, ONG´s e que tais, sairá alguém? 

Nas ruas, das praças vemos alguém?

Ainda existe aqui em São Paulo algo que podemos denominar  de movimento popular, ou tomamo-nos todos burgueses conservadores e reacionários prisioneiros de nossos automóveis, fretados, condomínios e shopping centers.   

Ainda somos, os paulistas,  seres políticos reais ou digladiadores radicalizados da internet?

Enfim, parece que vivemos o fim de mais uma etapa. O eixo  de gravidade da política parece que se desloca,  ainda que lentamente, para fora de São Paulo.

A política paulista é neste momento, pelo menos, no meu entender, um passáro na muda.

Por Moacir Telles Maracaci

Uma análise bastante densa do momento político. Densa e um tanto corajosa. Difícil dizer (seria prematuro de minha parte) se concordo ou não, no todo ou em parte. Melhor encarar esse texto como valioso subsídio para aprofundamento de uma questão histórica muito séria, pois se trata de dizer que São Paulo, a um longo ou médio prazo não “mandará” mais na política brasileira. Pode não ser uma tese forte do autor, mas que essa ideia está implícita no texto, isso está! Para minha modesta contribuição, entendo que o PT, ao qual sou filiado há 25 anos está menos paulista do que nos seus primórdios. Nos anos 80, quando o partido surgiu, dizia-se que o “povo de São Paulo” era o mais politizado do Brasil. Hoje, quase não se houve mais falar isso, pois mudou muito o espectro da luta política, menos sindical, que se dá na esteira de uma elitização do que se convencionou chamar de “classe operária”. Robôs não fazem greve e os que os comandam não são exatamente “operários”, mas sim profissionais qualificados que não tem, digamos, “DNA” de proletário.

m, o que há de liderança paulista no PT é o que foi herdado da antiga inspiração sindical/socialista que animou a construção do partido. Tempos depois, se vê que a liderança do PT “envelheceu” na idade de seus membros e na falta de renovação de seus quadros. Não é de estranhar, que o tucanato está há 20 anos governando São Paulo, pois o PT e a oposição simplesmente não tem opções que empolguem um eleitorado que dizem ser conservador, mas que na minha opinião apenas tem a tendência em eleger o que há de “menos pior” no momento. Se o eleitorado paulista fosse conservador votaria em bons candidatos que tivemos, como Eduardo Suplicy, Marta, Mercadante, Zé Dirceu. Não podemos esquecer que o PSDB nasceu na mesma base de lutas democráticas que o PT, com a diferença de que esse partido surgiu por conta de alguns líderes políticos oposicionistas mais “esclarecidos”, como Covas, Montoro, FHC…O PSDB foi uma ideia luminosa desses confrades que citei. Assim, acho até que concordando com Sérgio Saraiva, que teve coragem de sair da mesmice das análises do momento político, parece que a liderança política sai mesmo de São Paulo, hoje significando cada vez mais Dilma Roussef. Mérito pessoal de Lula? Certamente, mas não só isso. É que São Paulo precisa de um choque de brasilidade, aliás, todo povo paulista. Lula nasceu políticamente em São Paulo, seu carisma e sua liderança foram forjados aqui, mas jamais deixou de ser um autêntico brasileiro e o primeiro líder dos tempos democráticos. 

Por Dulce Maria Pereira

São Paulo não tem participado  com  o necessário vigor político para que a democracia se aprofunde no Brasil . Apesar da imensa contribuição de atores relevantes, a começar por Lula, é fato que esfacelaram-se  os coletivos articulados que pensavam o Brasil, a governança e a governabilidade, com perspectiva geopolítica.  Não há nostalgia em meu comentário, apenas constatação. A cada tempo sua realidade histórica….

Apesar da consolidação pontual de alguns jovens líderes, como o deputado  João Paulo Rillo, no interior do estado, além do envelhecimento do PT e dos partidos de esquerda, as lideranças de base foram amordaçadas no processo de construção dos governos federal e locais e se voltaram para seus umbigos. E, com ocorre em  tais  processos,  acabam por se recolherem à arrogância míope do bairrismo, mesmo porque a perspectiva transformadora e inclusiva  fica fora do horizonte. Ainda, não há qualquer investimento em formação política, que foi realizada para estruturar os partidos e formar seus quadros e não as pessoas para o exercício da cidadania política.  

Esta realidade não é exatamente a mesma nas demais regiões. A despeito da falta de vigor, há consolidação de setores e lideranças, adequadas aos moldes de se fazer política nestes tempos, que se articulam pelas bocas de rios, encontros de jovens ambientalistas, em coletivos da comunidade escolar. Aldo Rebelo, eleito por São Paulo,  encaminhou   lamentável  proposta para o Código Florestal. Não obstante, há jovens estudantes indígenas nas universidades federais, que ingressaram pelo sistema de cotas,  escrevendo, em seus exercícios e monografias, versões do código  pelo qual vão lutar daqui há uns 5 ou 10 anos, com legitimidade acadêmica . Se as lideranças negras paulistas  foram desarticuladas, ou cairam nas redes da incompetência política, a mobilidade individualizada e o genocídio  têm sido matéria de pequisa e tema de articulação de negros em diversas áreas de atuação no país. As áreas de risco em diversas áreas do Brasil e os refugiados  dos acidentes climáticos que dependem da defesa civil, as reações ao crime organizado e ao narcotráfico no Rio que começam a motivar o debate em outras da muitas partes do país que sofrem ausência de Estado ou  a sua presença corrupta, fatos como a extração de petróleo em áreas interioranas, como ocorre na Bahia,  refugiados do Haiti albergados em estádios ou igrejas notivam debates comunitários sobre a política externa. Há isoladas, mas consistentes reflexões de gênero acontecendo em espaços acadêmicos diversificados, em áreas de formação em tecnologias e ciências exatas lideradas por mulheres jovens, com participação tímida, mas consistente de homens estudantes. São processos pulverizados e de naturezas diversas, mas que formam lideranças com características diversas das conhecidas e formadas, em sua maioria,  com proximidade com  cultura digital, mesmo que oriundas da pobreza absoluta. 

Em transição ou em crise, como tão bem intitulado por Luis Nassif ( certamente mais em crise do que em transição) a política paulista está na contra-mão das necessidades e possibilidades do Brasil.


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