A proposta indecorosa de legalizar o jogo

Não se sabe quem foi o craque que tirou da garrafa o gênio da legalização do jogo, como forma de completar o ajuste fiscal.

É bem possível que tudo não passe de um balão de ensaio inconsequente. Mas, se alguém pretende levar a proposta a sério, é bom se debruçar sobre o histórico do jogo no país.

As máfias do jogo estão por de trás dos maiores escândalos políticos das últimas décadas. E não apenas no varejo do bingo, do bicho e dos cassinos clandestinos.

Na área federal, foram responsáveis por grandes escândalos, desvendados ou encobertos, desde a redemocratização.

A própria Caixa Econômica Federal foi vítima de quadrilhas que surgiram no governo Itamar e desapareceram apenas no governo Lula, após o episódio Waldomiro Diniz – filmado achacando Carlinhos Cachoeira, enquanto assessorava a governadora Benedita da Silva, do Rio, mas com o escândalo estourando no colo de José Dirceu, que o chamou para assessor na Casa Civil.

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O envolvimento da CEF com o jogo começou na gestão Danilo de Castro, no governo Itamar Franco. Danilo afastou a estatal Datamec e contratou os serviços da Racimec, empresa nacional mas que já tinha, por trás, a norte-americana Gtech.

A Gtech dominava o jogo em Las Vegas e começara a se internacionalizar. Seu prestígio podia ser medido pela influência do seus lobistas, dentre os quais Rick Davis, gerente da campanha de John McCain, Candidato republicano à presidência dos Estados Unidos.

O contrato da Racimec passou pelo governo Itamar e se consolidou no governo Fernando Henrique Cardoso, graças às benesses garantidas pelo novo presidente da CEF Sérgio Cutollo, mesmo contra pareceres técnicos desaconselhando o novo contrato.

Cachoeira associou-se a grupos espanhóis e tentou fincar o pé no Rio para, a partir daí, avançar sobre a Gtech.

Desde o início, contou com a parceria da revista Veja – que o livrou de uma CPI da Assembleia Legislativa detonando o deputado que a propôs. E depois se tornaria sua parceira preferencial em um semnumero de escândalos visando afastar competidores de Cachoeira.

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O escândalo Waldomiro explodiu no rastro dessa disputa.

No récem-eleito governo Lula, Cachoeira fechou um acordo com a Gtech. Receberia a praça do Rio em troca da ajuda para renovar o contrato com a CEF. Para tanto, além de Waldomiro Diniz contava com Rogério  Buratti, integrante da chamada República de Ribeirão, de Antonio Palocci.

A manobra não deu certo, provavelmente bloqueada pelo novo presidente da CEF, Jorge Matoso – posteriormente sacrificado injustamente no episódio em que Palocci conseguiu quebrar o sigilo do caseiro da tal república de Ribeirão.

Cachoeira perdeu uma quantia calculada em R$ 50 milhões. Em represália, divulgou o vídeo com Waldomiro, primeira trinca grave na imagem do governo Lula.

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O potencial de corrupção do jogo não deixou instituição alguma de pé, policia, justiça, políticos, clubes de futebol e a mídia, com parcerias firmadas com duas das principais revistas semanais do país. Tudo isso sem contar o potencial nocivo do jogo em relação à saúde pública.

Por todo esse histórico, qualquer tentativa de legalizar o jogo seria um desastre de proporções incalculáveis que atrairia sobre o Brasil os olhos das máfias de todos os quadrantes.

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