Advogado uruguaio intermediou contas na Suíça da Lava Jato

Da Carta Maior

 
A Justiça uruguaia já vem mirando os tentáculos do que o Brasil conhece como ‘Operação Lava-Jato’, e a relação de um escritório de advocacia com Cunha
 
Ricardo Scagliola, para o La Diaria, do Uruguai
 
Francis Bacon disse que é mais útil estudar a natureza quando ela entra em convulsão, porque aí ela se torna mais sincera. Com os estudos jurídicos uruguaios pode acontecer o mesmo. O escritório de advogados Posadas, Posadas y Vecino, um dos maiores do país, se encontra no olho do furacão do escândalo de corrupção na empresa brasileira Petrobras, depois que o diário Folha de São Paulo revelou que um dos seus advogados, Luis María Piñeyrúa Pittaluga, atuou como intermediário na abertura de duas contas na Suíça, para as quais foram transferidos grandes montantes de dinheiro de propina. Os valores foram pagos pela coreana Samsung Heavy Industries, provedora de plataformas de exploração petrolífera. A denúncia foi feita à Justiça brasileira por Julio Camargo e Fernando Baiano, dois lobistas que participaram na negociação de um contrato para o aluguel de navios-sonda. Ambos denunciaram que as propinas fluíram por intermédio de outra empresa, chamada Harvey SA, criada no dia 8 de dezembro de 2008 e registrada no endereço da sede central do escritório de Posadas, Posadas y Vecino, em Montevidéu: rua Juncal 1305, em plena Cidade Velha.

 
O dinheiro foi depositado em duas contas abertas na Suíça. Uma delas, em nome da Forbal Investments, corresponde ao ex-diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, que cumpre uma pena de 12 anos e três meses de prisão em Curitiba. A outra, Netherton Investments, pertence ao presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, Eduardo Cunha. A abertura das duas contas está relacionada com Piñeyrúa Pittaluga – o advogado do escritório Posadas, Posadas y Vecino figura como diretor da Forbal, e também aparece vinculado à Netherton, uma empresa criada sob a fachada da neozelandesa PVCI New Zeland Trust, cujo diretor também é Piñeyrúa.
 
As suspeitas já não se limitam à investigação do diário Folha de São Paulo. A lupa da Justiça uruguaia já vem mirando os tentáculos no país do que o Brasil conhece como “Operação Lava-Jato”. Segundo fontes dentro do Poder Judiciário uruguaio, a juíza Adriana de los Santos, especializada em crime organizado, convocará Piñeyrúa Pittaluga a declarar nos próximos dias, porque sua participação na criação das contas na Suíça demonstra que se trata de “fatos de aparência delitiva”. Na semana passada, a juíza determinou que o advogado não pode deixar o país. O diário uruguaio El Observador publicou no sábado que a juíza enviou informação sobre as contas bancárias e sociedades anônimas vinculadas a Piñeyrúa Pittaluga, Cerveró e Cunha, e recebeu em troca dados entregues pela Justiça brasileira.
 
A forma na que se apresenta o artigo do El Observador traz algumas novidades. Por exemplo: em nenhuma das passagens se cita o escritório jurídico ou o nome do advogado envolvido na trama dos subornos na Petrobras. Em vez disso, ele usa termos vagos como “operador”, “trabalhador uruguaio” e “escritório jurídico”. Embora apareça como coadjuvante do esquema na matéria da Folha, o grupo Posadas, Posadas y Vecino começa a se inquietar com a repercussão do escândalo que sacode a cena política brasileira. A citação de Piñeyrúa Pittaluga pode ser somente o começo de um longo trâmite judicial no Brasil e no Uruguai. Por enquanto a juíza uruguaia De los Santos acredita que nenhuma das transações realizadas através das contas suíças de Cerveró e Cunha poderiam ter sido feitas sem a assistência do advogado uruguaio.
 
O governo do Uruguai segue os movimentos da Justiça com atenção. Até o momento, o Poder Executivo mantém a advertência de que “não é conveniente” que os ministros se exponham em encontros de trabalho com pessoas vinculadas ao escritório Posadas, Posadas y Vecino. Foi o caso do ministro de Transportes e Obras Públicas, Víctor Rossi, que se encontrou, no final de abril, com Ignacio de Posadas, ex-ministro de Economia, membro do direitista Partido Nacional e um dos donos da consultora. Algo semelhante aconteceu com o chanceler Rodolfo Nin Novoa, no dia 7 de setembro, quando visitou a sede do grupo jurídico em Carrasco, para falar sobre temas relacionados à inserção internacional. A mudança de postura do governo, agora mais cauteloso, também é visível na reação do secretário-geral da Junta Nacional de Drogas, Milton Romani, que em entrevista ao programa Primera Vuelta, da TV Ciudad, criticou duramente a Posadas, Posadas y Vecino. “Quando falamos de delinquência, falamos de garotos que querem se fazer de malandros, mas também temos os escritórios jurídicos famosos, como Posadas, Posadas y Vecino. Esse tipo de criminalidade também faz parte do problema, e já tentamos solucionar isso com uma reforma tributária, mas logo apareceram novamente os escritórios vinculados aos mecanismos de lavagem de dinheiro, buscando novas brechas”. E arrematou dizendo: “eles podem me criticar, mas eu tenho direito de dizer, por conhecer as políticas antidrogas, que o maior problema que tivemos desde 2005 não foi a cocaína, e sim o fato de que o Uruguai era uma terra onde se lavava dinheiro a rodo, por intermédio das sociedades anônimas de investimento, algumas das quais eram fabricadas pela Posadas, Posadas y Vecino”. Na sede da rua Juncal, vários advogados da primeira linha da empresa se juntaram num processo contra Romani. Mas, obedientes, engoliram o ímpeto logo em seguida. Por enquanto, as ordens dos chefes são para evitar que o caso seja inflado, até que a situação esteja mais clara.
 
Tradução: Victor Farinelli

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