Ao mestre Wanderley Guilherme dos Santos

Nesses tempos de turbulência, de profundo corte na política, na mídia e nas formas de organização, mais que nunca é fundamental o papel dos cientistas políticos. E, dentre eles, o mais ilustre, Wanderley Guilherme dos Santos.

No entanto, seu artigo “O futuro do atual levante niilista” permite reparos. Alguns muito bem colocados no artigo “Os problemas inerentes à democracia representativa” por alguém que assina como “ex-aluno de Wanderley” e se mostra à altura do mestre.

No seu artigo, Wanderley investe contra as manifestações de rua, como se constituíssem em um caos articulado (perdão pelo paradoxo) contra a ordem democrática tradicional. “Sob cartolinas e vocalizações caricaturais não se abrigam senão balbucios, gagueira argumentativa e proclamações irracionais”. Ironiza os “semicultos” que pretendem enxergar um novo Ágora ateniense. E garante que “das ideias, táticas e projetos que difundem não surgirá uma, uma só, instituição política decente, democrática ou justa”.

Deles, claro que não. De Wanderley, certamente que sim, assim que aceitar o ativismo online como um dado da realidade, irreversível, e o caos atual como a desordem que precede a nova ordem, uma realidade que surgiu com o advento das novas tecnologias e com as quais se terá que conviver, disciplinar e institucionalizar. E esse processo civilizatório será pavimentado pelo conhecimento, sabedoria e engenho dos verdadeiramente cultos, como Wanderley.

Civilizando as demandas políticas

Recentemente, o mestre participou de um Brasilianas defendendo a atual pulverização partidária. Ensinou ele que, graças a essa multiplicidade de partidos, nos mais distantes rincões a selvageria política é canalizada para formas institucionais e civilizadas de luta política.

Esse mesmo processo civilizatório precisa ser aplicado ao universo amplo das redes sociais, para a constituição da futura democracia digital, criando um novo modelo institucional que dê conta do fenômeno.

Onde Wanderley enxerga cartolinas e palavras balbuciantes, existe o caos que precede a nova ordem, com os seguintes elementos:

1. A mídia como elemento de pressão sobre as políticas públicas.

Na democracia representativa, os meios de comunicação se constituem no instrumento mais eficiente de influenciar políticas econômicas. Os  grandes grupos midiáticos sempre responderam às demandas dos grandes anunciantes e grandes grupos econômicos, estabelecendo uma não isonomia com outros setores.

Por exemplo, dois dos principais preços da economia – câmbio e juros – são manipulados por meia dúzia de consultorias influenciando dois ou três jornais.

No passado, foi o poder da mídia (em um país quase totalmente de analfabetos) que legitimou os gastos públicos das políticas cafeeiras e demonizou gastos em outras regiões.

O simples fato do modelo convencional ter implodido muda o cenário de políticas públicas – gostando-se ou não do novo modelo.

2. As instituições capilares como meio de arregimentação política

Os principais agentes da política brasileira são os partidos tradicionais, sindicatos, igrejas e interesses difusos influenciados pela mídia. Todos com capilaridade garantindo massa crítica de votos.

Com as redes sociais, muda o modelo. É importante notar que grande parte da visibilidade conquistada por movimentos sociais deve-se ao uso pioneiro da Internet.

3. O novo Ágora

Wanderley não gostou da comparação das redes sociais com o Ágora grego. Mostrou que o Ágora grego legislava sobre pontos muitos específicos das cidades gregas e obedecia a regras claras de participação.

Não é esse o ponto em comum das redes sociais com o Ágora, mas o fato de que toda discussão pública se dá dentro de uma mesma plataforma tecnológica.

Quando  éramos jovens, fora da mídia o campo de difusão do discurso eram as assembleias e os mimeógrafos. Agora, todos – movimentos sociais, militantes de esquerda e direita etc – atuam sobre a mesma plataforma tecnológica. Um comentário bem posto de um blog é capaz de derrubar a matéria do maior jornal brasileiro pelo simples efeito viral. Há implicações radicais sobre o jogo de pressões democrático.

4. A rapidez do ativismo digital e o ritmo da democracia.

Democracias embutem processos inevitavelmente lentos, seja de incorporação de novos atores ou aceitação de novos conceitos. O ativismo digital trouxe um componente de urgência incompatível com os ritos democráticos tradicionais. Não se trata de gostar ou não: são dados da realidade. O desafio consistirá em aceitar a nova realidade e debruçar-se sobre as formas capazes de dar organicidade e disciplina a essas demandas.

A democracia digital

No modelo convencional, partidos políticos, sindicatos, associações são  dominados por militantes com maior disponibilidade de tempo e vontade para participar. E a cooptação ocorre a partir de reuniões presenciais, assembleias que garantem o tiro de partida para os passos seguintes, de conquista do eleitorado e da hegemonia do setor.

Agora, a participação pode-se dar a partir da casa do sujeito. E não se trata de mera militância digital porque – e as manifestações estão aí para provar – seu poder de mobilização transcende o computador e a rede social.

Mais que isso: o mundo digital permitiu a ascensão de novos tipos de influência e de lideranças, perfis de redes sociais que jamais teriam visibilidade nos sistemas tradicionais de exposição.

Por outro lado, não é possível supor que o sistema de decisões seja submetido aos movimentos radicais de manada, que ganharam uma dinâmica inédita com as redes sociais. É necessária a montagem de uma nova estrutura institucional, com a definição das informações estruturadas necessárias para a tomada de consciência; o desenho de um novo sistema de instâncias decisórias; a rediscussão dos sistemas de freios e contrapesos.

Enfim, um desafio ciclópico, à altura de mestres como Wanderley Guilherme dos Santos, assim que ele perder a implicância com o mundo digital.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

1 comentário

  1. carilha……………coisas de dois analistas brilhantes

    agora tenho novidades e variáveis reconhecidas pelos que entendem realmente do fenômeno rede social para serem introduzidas no caos particular de cada um dos que acreditam que é impossível sair de um determinado nível de relacão social para um nível superior e bem melhor, mas ainda restrito aos mesmo conflitos………….

     

    quem não se lembra do marco zero da comunicação em rede e cujo objetivo principal era troca de conhecimentos e não de informações que, como acontece atualmente, fogem completamente da questão principal?

     

    que se foda o que os carinhas das redes sociais pensam, porque eles não pensam, só querem aparecer

     

    são repetidores de uma mesma e qualquer babaquice

     

     

    vou tentar introduzir no caos que imagino para daqui a no máximo uma década para ver se há campo favorável às mudanças que muitos fingem querer

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome