As condenações da iraniana

Estive vendo essa história da “mulher condenada à morte por apedrejamento por adultério”, à qual não tinha dado muita atenção. Que o regime dos mulás tem fortes traços de barbaridade é sabido, e deplorável, mas não é mais bárbaro nem mais deplorável que outros regimes baseados na lei corânica (e outros muito cristãos, e até budistas, como o Tibete nos tempos do santo Lama), e dar um tratamento privilegiado às escabrosidades iranianas em detrimento das demais é levar água ao moinho daqueles cujos interesses em hostilizar o Irã têm pouco ou nada a ver – ou até muito pelo contrário – com direitos humanos.

Contudo, a meu ver desastradamente, o Brasil acabou se envolvendo na questão, de modo que cabia um olhar mais detido sobre ela. E esse olhar detido revela algumas coisas.

– A hipótese de ela ser apedrejada já está afastada desde início de julho, e há no Majlis, o parlamento iraniano, um projeto de lei que abole o apedrejamento como forma de execução (restando apenas o enforcamento – por guindaste, uma inovação introduzida pelo queridinho do Ocidente, o Moussavi, durante os massacres de 87/88).

Ela– Ela ainda corre o risco de ser enforcada, pena a que já havia sido condenada por assassinar o marido, depois de cometer adultério. Se é de fato culpada pelas duas acusações é outra história, mas a verdade é que foi condenada pelas duas, e os juízes escolheram a forma mais drástica de execução, o apedrejamento (por outro lado, nem sei se é assim tão mais drástica: o enforcamento por guindaste não mata quebrando o pescoço, como as forcas “modernas”, mas por asfixia – o infeliz é levantado do chão, lentamente, por uma corda atada ao pescoço, e morre bem devagarinho, como morriam os condenados ao “garrote vil” na Espanha franquista). 

Sem sequer entrar em considerações sobre a barbaridade da pena de morte em si – por apedrejamento ou injeção letal –, a verdade é que, desta vez, o Lula meteu os pés pelas mãos, e em um arranque emocional desinformado (como disseram hoje os iranianos), rompeu a tradição brasileira de não se meter nos assuntos internos alheios. Era mais ou menos óbvio que os iranianos não iam dar muita bola pra ele neste assunto, e nem podiam, porque a Sakineh Mohammadi Ashtiani foi condenada segundo as leis do Irã, e não consta que tenha sido alvo de nenhuma perseguição especial que tornasse suspeito o julgamento, confirmado pela Suprema Corte. Nenhum presidente da República, em nenhum lugar do mundo, cede a pressões internacionais para dar anistia a condenados a morte (e por assassinato!), ainda menos o de um país que já é alvo de pressões muito piores e aprendeu a resistir a elas. O apelo à “amizade” foi ainda pior, porque o Ahmadinejad não tem voz nesta questão: pelas leis iranianas, só o “líder supremo” Ali Khamenei tem o poder de perdoar condenados; e, apesar de terem batido um bom papo no dia 16 de maio passado, não me parece que se possa dizer que o Lula e o Khamenei sejam “amigos”.

O Lula, açulado por sabe-se lá quem, falou o que não devia, sem saber do que falava. Dizem agora que a intervenção dele contribuiu para livrar a condenada do apedrejamento, mas este já estava fora de questão há quase um mês(desde 9 de julho), apesar de continuar sendo marota e mentirosamente apregoada pela imprensa internacional todos os dias.

Não se trata, obviamente, de defender o “direito” dos iranianos a apedrejarem ou enforcarem quem bem entenderem, nem muito menos de afirmar que a Sakineh Mohammadi Ashtiani “merece” ser condenada. A questão écombater a pena de morte onde quer que ela exista, sem permitir que a pressão da propaganda internacional interfira nas relações soberanas entre dois Estados. 

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