Bolsonaro ‘está fazendo o Brasil perder tempo’, diz Alckmin

'A questão da política externa... Uma ideologização. Precisa dizer para ele que o Muro de Berlim caiu faz quase 30 anos', destaca ex-presidente do PSDB ex-governador de São Paulo

Jornal GGN – Em entrevista à Folha de S.Paulo, o ex-governador Geraldo Alckmin avaliou o cenário político entendendo que a crise econômica e institucional do momento se deve à inépcia da atual equipe do Executivo.

“Quero dizer que não tenho nada contra o presidente [Jair Bolsonaro], pessoalmente. Até simpatizo pelo jeito simples, mas discordo totalmente da agenda do governo, acho que está fazendo o Brasil perder tempo”, disse.

“Temos 13,2 milhões de desempregados, cadê a agenda de produtividade? O Brasil não cresce, ficou caro para quem vive aqui, e tem dificuldade de exportação. Onde está essa agenda? Cadê a reforma tributária, fiscal? Eles não têm uma agenda e a única proposta é voltar com a CPMF, que é um imposto ruim, em cascata, que onera as cadeias produtivas”, destacou, completando ainda:

“A questão da política externa… Uma ideologização, que não é da velha, é da antiga, da antiquíssima política. Precisa dizer para ele que o Muro de Berlim caiu faz quase 30 anos”.

Quando perguntado se já tinha ouvido falar de Olavo de Carvalho, o guru de uma ala do governo. Alckmin respondeu que “nunca”.

“Aliás, é estranha essa eminência parda [do escritor]. Não mora no Brasil, não vive as questões do país, não foi eleito… Sobre pauta de comportamento, é preciso ouvir, dialogar. O contrário do que está sendo feito, que é ‘é do meu jeito e quem não quer é inimigo’”, refletiu.

Alckmin, que entregará a presidência do PSDB Nacional nos próximos dias para Bruno Araújo, aliado de Doria, e ficou em quarto lugar na última eleição presidencial, destacou que o país vive uma crise política institucional, isso para ele explica a atípicidade das últimas eleições que levaram Bolsonaro ao poder.

“Diria que, se tivesse tido um curso mais natural, o quadro seria diferente (…) E houve dois fatos importantes: o impeachment da Dilma [Rousseff] e a prisão do Lula. O PT se vitimizou. Depois veio a facada do Bolsonaro, [com quem] me solidarizei e reitero a solidariedade, mas teve impacto. No fim, foi um plebiscito sobre Lula e PT, e venceu o anti-PT. Como Bolsonaro estava na frente, o rio correu para o mar”.

O ex-governador de São Paulo entende que, apesar da crise política, os partidos e as instituições são fundamentais para a democracia no país, e criticou os ataques de Bolsonaro às instituições, chamando essa ação de “oportunista”.

“Tem muita gente boa na política. Conheci uma mulher admirável, a Ana Amélia [concorreu como vice dele no ano passado], que é do PP. [O ataque à política] É injusto, oportunista e acaba criando muitos problemas”, pontuou.

“Quero repetir que não tenho nada de pessoal contra ele, mas há um oportunismo de querer se aproveitar enfraquecendo as instituições. Temos é que melhorá-las. Não é estigmatizando que vai avançar. Veja, por exemplo, a educação. Enquanto se discute ideologização ninguém fala do Fundeb, que vai acabar no fim do ano. Como se financia a educação básica? Isso é que é o importante”, prosseguiu.

Alckmin é favorável ao parlamentarismo, não para ser implantando no momento atual brasileiro. Ele defende antes uma reforma partidária e eleitoral, sendo adapto ao modelo de eleições distrital misto.

“Não temos nem um sistema político-partidário digno desse nome [parlamentarista]. Mas, adiante, feita a reforma, é a opção. Para, como no sistema português, dar estabilidade ao que deve ser estável, o chefe de estado, e instabilidade ao que deve ser instável, o chefe de governo. A sorte é que o [Rodrigo] Maia [presidente da Câmara] defende as reformas”, pontuou.

Apesar da fragilidade da democracia no atual momento, Alckmin acha que o sistema democrático brasileiro já deu provas de resistência e pode voltar a se fortalecer com “uma ajudinha”.

“Nossa democracia já deu provas de muita resistência. Nós é que precisamos dar uma ajudinha [risos]. A melhor forma de fortalecê-la é com reformas, e a reforma política é parte importante. Temos um dos piores sistemas político-partidários”.

Alckmin apontou que, ao focar na reforma da Previdência como passo inicial de mudança no país, atravancando o jogo político no Congresso, “o governo, indiretamente, atrapalha. Para mudar a Constituição precisa de maioria qualificada, deve-se buscar consenso. Se você cria confrontos —alguns injustos, inclusive…”, completou.

Ele ainda aponta como contrassenso o fato de, enquanto o Brasil vive uma crise fiscal, o governo assinar decretos de liberação de armas. “Veja a segurança: se há um consenso entre os especialistas é o de que quanto mais arma, mais crime. Arma tem que estar na mão da polícia, que é preparadíssima. Não na das pessoas”.

Quando questionado se é um conservador, o ex-governador e presidente do PSDB interrompe o jornalista antes de concluir a pergunta dizendo:

“Não. Sou reformista. Aliás, fica essa coisa de que o PSDB não tem posição, vive no muro. Não é verdade. O PT ganhou a eleição e manteve a política econômica do FHC. Eles mudaram, nós não. Bolsonaro era contra a reforma da Previdência, hoje defende. Tem muito populismo, incoerência. O que nós não somos é extremistas”. Para ler a entrevista na íntegra, na Folha de S.Paulo, clique aqui.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora