Boulos, o radical que queremos, por Paulo Brondi

Credencia-se ainda jovem como um líder popular, culto, bem instruído, com sensibilidade social.

Agência Brasil

Boulos, o radical que queremos

por Paulo Brondi

Recordo-me quando, na década de 90, Lula ainda era pintado como um radical, que, se eleito, tomaria a casa e as propriedades das gentes. Muitos do povo deixavam de votar no barba – votando no candidato da direita colorida, o “sociólogo” – por acreditar nessas fake news (sim, elas já existiam, com outro nome).

Por anos a fio, nossa elite atrasada convenceu a classe média, que convenceu o povo, de que Lula representava um risco iminente à normalidade social. Por conta disso, ele perdeu três eleições presidenciais seguidas, sem, contudo, nunca apelar ou pedir recontagem de votos ou falar em fraude.

Em 2002, mais bem vestido, barba alinhada, cabelo engomado, e após escrever a “Carta aos brasileiros”, prometendo aos banqueiros e ao baronato honrar os contratos, Lulinha Paz & Amor foi eleito.

Claro, Lula nunca foi um radical. Lula tem a alma do sindicalista, da negociação.

A direita mais podre e reacionária – esta que agora saiu do armário – ainda tentou pintá-lo radical, depois analfabeto, depois cachaceiro. Nada deu certo. Lula se tornou um dos maiores estadistas que este país e o século XXI já conheceram.

Então, depois de muito apanhar nas urnas, a direita mais decrépita conseguiu: pespegou-lhe a pecha de desonesto. E a tinta moral, forte que é, tocou profundamente a alma boçal num país pleno de boçais. Mas essa é outra história.

Agora, pretendem reviver em Guilherme Boulos a mesma estratégia de antes, com Lula. Boulos, porém, ao contrário do ex-presidente, é astuto, fala de modo escorreito, é militante e detém enorme capacidade teórica. Sagaz, tem sabido lidar com as fake news, algo que o PT nunca aprendeu bem como fazer. É irônico, por vezes, ácido.

Para além disso, o povo parece estar aos poucos se autoimunizando contra a demência coletiva das mentiras em massa. Não à toa, a campanha de Boulos em São Paulo tem crescido consistentemente. Particularmente, acho difícil que ele se torne prefeito nesta quadra. Importante pedaço da população paulistana continua suficientemente reacionária para dar nova vitória ao tucanato. A elite pútrida quatrocentona da cidade ainda tem força.

Mas, Boulos já venceu. Venceu porque reuniu em torno de si as melhores cabeças, intelectuais e artistas de escol, além da juventude que agora começa ir às urnas. Venceu, sobretudo, porque consegue com tenacidade espancar as inverdades fedorentas que lhe arremessam. Quem, a não ser um completo imbecil, vai acreditar, em pleno século XXI, que alguém eleito pelo povo irá, num átimo, tomar a casa das pessoas?

Sim, o MTST promove ocupações – e não “invasões” – em propriedades que há muito já deveriam ter sido, pelo poder público e com fundamento na lei, desapropriadas e destinadas à habitação da gente sem-teto. Ninguém ocupa tão somente porque quer, mas pela necessidade que todos temos de dormir sob um teto.

Boulos, filho de pais médicos de classe média alta, formado em Filosofia e professor, poderia ter tomado idêntico rumo. Teria vida fácil e boa riqueza. Preferiu, no entanto, militar ao lado do pé-descalço e do descamisado, do sem-teto.

Credencia-se ainda jovem como um líder popular, culto, bem instruído, com sensibilidade social.

Quanta diferença para um João Dória, um Luciano Huck, um Sérgio Moro…

Junto a Boulos, Manuela D´Ávila, Flávio Dino, Marcelo Freixo, Marília Arraes.

Desta vez, penso, a direita deverá redobrar esforços, as feitiçarias antigas já não fazem efeito. É que os tempos mudaram, e outros ventos e uma gente nova vêm por aí.

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