Cidadão armado não é segurança pública: General Santos Cruz na TV GGN

Ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência do Brasil comentou a gestão de Jair Bolsonaro em entrevista ao jornalista Luis Nassif

Jornal GGN – A decisão de Jair Bolsonaro (sem partido) sobre os decretos que facilitam o uso e a compra de armas de fogo foi criticada pelo general Carlos Alberto dos Santos Cruz, durante entrevista cedida ao jornalista Luis Nassif, exibida na TV GGN. Ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência do Brasil, ele afirmou que deixou o cargo justamente pela radicalização do mandatário nos últimos dois anos.

Publicados no Diário Oficial da União (DOU) em 15 de fevereiro, os decretos presenciais entram em vigor em 60 dias. Entre as novas normas, está o aumento de quatro para seis o número de armas de fogo que um cidadão comum pode comprar e a autorização para que pessoas com direito ao porte carreguem até duas armas de fogo ao mesmo tempo.

Além disso, agora profissionais com direito a porte de armas, como integrantes das Forças Armadas, das polícias, membros da magistratura e do Ministério Público, podem adquirir até seis armas de uso restrito, como rifles e submetralhadoras.

Para o general, que inclusive é a favor da comercialização das armas de fogo, a maneira como essa flexibilização vem sendo feita pelo governo de Bolsonaro é “inadmissível e sem embasamento”.

“É um absurdo considerar que a facilitação da aquisição de armamento melhora a segurança pública. Segurança pública não tem nada a ver com isso, segurança pública é uma obrigação do estado”, explicou. “Achar que cidadão armado é uma opção política também é absurdo. Regular a venda de armamento é uma questão de liberdade individual e o porte tem que continuar extremamente rigoroso”, completou.

Para ele, “não houve um conjunto racional para essa modificação”, disse. “Espero que o Congresso discuta isso de boa maneira e tenha bom senso”, uma vez que “uma sociedade dividida e extremista resulta em violência”.

A alta presença de militares no governo

O general também pontuou a forte presença de militares em cargos no governo federal. Segundo ele, a ação “não tem problema nenhum, só que isso promove um desequilíbrio na representação social”.

“O Exército vinculado ao governo não é uma verdade institucional, mas é essa a percepção da sociedade e talvez isso seja proposital para transferir o prestígio da corporação ao governo e isso é ruim, porque se o governo não tem um comportamento exemplar pagamos a conta”, disse.

Ao falar sobre a condução do Ministério da Saúde pelo general Eduardo Pazuello e atuação de Bolsonaro sobre a crise sanitária, Cruz afirmou que quando se associa  a falta de responsabilidade de um líder e um subordinado incapaz de produzir política de saúde pública, com a maneira absurda do comportamento psicopata na administração da pandemia: “não tem como acertar”.
Para ele, o que falta na gestão Bolsonaro é método de trabalho e capacidade de liderança. “Em toda situação você pode ter erros e acertos, nesse caso da pandemia a própria ciência tateou. Não adianta a gente avaliar a capacidade de acerto nesse caso, porque é uma coisa sem domínio, mas o mínimo é ter método, capacidade e coragem de assumir a responsabilidade”, explicou. “Ninguém quer o líder perfeito, mas uma pessoa normal e que fale a verdade. Isso [que Bolsonaro vem fazendo] é falta de responsabilidade e inconsequência”, completou o general.

Decepção com Bolsonaro

Ao ser questionado sobre a sua então proximidade com o governo Bolsonaro, o general resolveu se explicar e dizer que ninguém imaginava o que estava por vir.

“A política tem ciclos, onde o PT e outros partidos tiveram a oportunidade [de se aproximar dos militares], mas eles se perderam por demagogia e corrupção, onde a corrupção não foi só do PT, mas ele pagou a conta. Até que veio um candidato, o Bolsonaro, que enxergou o fim do PT e falou aquilo que todos queriam ouvir. Ele não disse como ia fazer [sua política] e até hoje ele não sabe como fazer, mas ele falou o que queriam ouvir: sobre Lava Jato e Sérgio Moro”, explicou.

De acordo com ele, no entanto, a campanha de Bolsonaro foi ideológica, de cartas de voto e sem nenhuma discussão qualitativa. “Não foi só o público militar que foi atraído por aquele discurso, mas a sociedade foi atraída e ele ganhou”. apontou. “Mas não tínhamos noção do grau de comprometimento [de Bolsonaro] com o extremismo”, uma vez que “todos estavam entusiasmados com o fim do PT, mas não tinha noção do que vinha pela frente”, disse.

“O Bolsonaro tinha todas as condições para fazer as mudanças necessárias na área da extinção de privilégios, mas nada disso aconteceu e ficamos permanente dentro de uma campanha política (…) Depois de ganhar, você tem que governar para todo mundo e isso não aconteceu. O agravamento da divisão social que foi feita a partir de uma demagogia socialista tinha que ser desmanchada e, ao contrário, ela foi aprofundada [com Bolsonaro]”, completou.
Assista a entrevista na íntegra: 

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