Comandante do Exército delira e fala de tudo, menos da função profissional do Exército

Segundo Jeferson Miola, os comandantes militares ilegalmente dedicam tempo, energia e orçamento público para interferirem e conspirarem na política

Reprodução

por Jeferson Miola           

No primeiro discurso como novo comandante do Exército, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira anunciou que percorrerá, “no tempo certoos 8 comandos militares de área do Brasil e os estabelecimentos de ensino da Força para estreitar laços de comando, acompanhar o ensino e a instrução militar, bem como o adestramento da tropa” [vídeo].

A despeito da condução desastrosa do Exército no enfrentamento da pandemia por meio da liderança irresponsável e criminosa do general da ativa Eduardo Pazuello, o novo comandante do Exército se permitiu fazer um discurso laudatório – para não dizer delirante; absurdamente disparatado da realidade.

Adepto do modismo do léxico ultraliberal como seus colegas ultraliberais de farda, o general Paulo Sérgio citou como supostas “entregas à sociedade brasileira” as “incontáveis ações de toda ordem que temos desencadeado em apoio aos nossos irmãos brasileiros, em todos os rincões deste país continental” [sic].

Ele então recitou a imaginária “atuação heróica e épica” do Exército para preservar vidas, abastecer hemocentros de todas regiões do país, apoiar “irrestritamente a vacinação”, transportar e entregar insumos de saúde e cestas básicas, montar instalações de campanha, confeccionar equipamentos de proteção individual, atuar na desinfecção de espaços públicos e no controle sanitário nas fronteiras.

Nem pareceria fantasia não tivesse o Brasil em meio a um genocídio com quase 400 mil mortes – ¾ delas evitáveis –, e enfrentando uma catástrofe sanitária e humanitária que faz do país uma ameaça planetária.

O comandante nonsense prosseguiu na prédica fantasiosa e disse que o Exército continuará estendendo a “Mão Amiga” [do “Braço Forte”] para atender demandas como o combate aos crimes transfronteiriços e ambientais; o apoio às comunidades ribeirinhas e indígenas; a ajuda humanitária aos venezuelanos, às populações carentes do semi-árido, às localidades da faixa de fronteira e pequenas cidades do interior e, pasme, às periferias das grandes cidades.

Enfim, é o “Exército sempre junto ao povo brasileiro”, delirou o general.

Além de concitar “todos integrantes do Exército [para] que sigamos evidenciando união e visão de futuro, estreitando ainda mais laços de lealdade e camaradagem”, o general estranhamente conclamou “nossa Reserva Ativa, briosos veteranos e militares temporários que deixaram o serviço ativo, mas não despiram a farda verde-oliva; vocês são muito importantes para a Força – nossa reserva mobilizável; mantenhamo-nos unidos!!”.

Numa interpretação no mínimo elástica, para não dizer desonesta e conspirativa da CF, o comandante proclamou que, “sob a estrita observância da ordem constitucional vigente, devemos continuar a representar vigoroso vetor de estabilidade e de garantia da ordem e da paz social”. Como assim, cara pálida?!?!

Alheio à completa desmoralização das Forças Armadas pela catástrofe e devastação do país, o general defendeu que “todos nós, integrantes do Exército de Caxias, instituição que desfruta dos mais altos índices de credibilidade junto ao povo brasileiro, possamos servir, pelo exemplo, de inspiração para aqueles que almejam um futuro de paz, justiça, liberdade e progresso para nosso amado Brasil”.

As frases finais do discurso do general Paulo Sérgio entrariam para o anedotário das grandes bizarrices, não fossem trágicas. Disse ele: “Que o todo poderoso Deus dos Exércitos nos ilumine e proteja. Fé na missão!”, terminando com o lema da campanha eleitoral do Bolsonaro “Brasil, acima de tudo!”. Deus [aquele acima de todos], como se viu, ele já havia citado antes.

No 1º discurso como comandante do Exército, o general Paulo Sérgio delirou e falou de tudo, menos da única e exclusiva função profissional do Exército, que é a de garantir a integridade territorial e a defesa da soberania do Brasil contra eventual agressão estrangeira.

As Forças Armadas brasileiras, em especial o Exército, não estão estruturadas e sequer preparadas para defender o país, mas sim para defender os interesses das oligarquias dominantes – nacionais e estrangeiras – contra o que eles consideram os “inimigos internos”: o próprio povo brasileiro.

É sintomático, por isso, que no discurso inaugural do mandato do novo comandante do Exército, ele não tenha feito nenhuma – absolutamente nenhuma – menção à palavra “defesa”.

A razão para isso é notória: na guerra de pilhagem e saqueio das riquezas nacionais, o Exército atua como força de ocupação que garante a devastação do país pelos capitais e oligarquias nacionais e estrangeiras.

Em matéria de defesa, as Forças Armadas brasileiras, de tão despreparadas, desqualificadas e incompetentes, seriam derrotadas até mesmo pela inexistente marinha da Bolívia. 

Os comandantes militares ilegalmente dedicam tempo, energia e orçamento público para interferirem e conspirarem na política, ao invés de priorizarem a organização profissional de instituições que deveriam ser de Estado, mas atuam como partidos políticos.

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