Como entender e discutir Lula, por Luis Nassif

Estadistas não podem ser analisados da ótica do homem comum. Em suma, gostar ou odiar Lula é fácil. Explicá-lo é complicado

Andei participando de um grupo de WhatsApp, com membros de diversas linhas políticas. Dentre eles, os que atacam Lula de maneira superficial. Mandei esse texto, que ajuda a entender um pouco a natureza de Lula.

Lula merecia uma discussão mais aprofundada de um grupo tão seleto. Ortega y Gasset dividia os governantes em três níveis: o intelectual, o pusilânime e o Estadista. Estadista são os megalomaníacos, que pretendem modificar um país. Dizia ele que o intelectual é bom para desenvolver argumentos para justificar a não-ação. Vale para FHC. Pusilânime é aquele que se aproxima do homem normal. Itamar. 

Estadista é o sujeito que pretender mudar um país. É megalomaníaco – Napoleão queria ser Napoleão, ironiza ele -, busca todos os meios para atingir seu objetivo e sua grande ambição é conseguir a mudança. Justamente por isso eles têm grandes virtudes e grandes defeitos. Dizia Ortega: sua único compromisso é com a mudança do país. De certo modo, Collor se encaixava nisso.

Estadistas não podem ser analisados da ótica do homem comum. Sua dimensão é tão desproporcional em relação ao chamado homem comum que, muitas vezes, para analisá-los, se recorre às formas de julgamento dos homens comuns: é bêbado, é malandro, é desonesto, é populista. Afinal, homens comuns tem ambição de enriquecimento pessoal, carreira etc, enquanto estadistas ambicionam algo muito amor: transformar países.

Lula conseguiu feitos inéditos: tornou-se o mandatário brasileiro de maior projeção internacional da história, teve papel ativo na diplomacia comercial e, depois, nas articulação ante a crise de 2008, reduziu a pobreza social e regional, montou políticas sociais vitoriosas, venceu a grande crise de 2008. Por outro lado, permitiu abusos enormes na diretoria da Petrobras, não atacou em nenhum momento as disparidades fiscais brasileiras, não tocou nas políticas monetária e fiscal, não deu soluções para a questão fiscal, permitiu a desindustrialização, aceitou favores depois que saiu do governo – embora nenhum dos favores implicasse em enriquecimento pessoal. 

Em suma, gostar ou odiar Lula é fácil. Explicá-lo é complicado.

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6 comentários

  1. Nassif, há uns anos você escreveu um texto, respondendo a um comentário jocoso e bastante tolo do Noblat, sobre Lula, explicando com bem mais profundidade a diferença entre um estadista e o homem comum. Considero aquele um de seus textos mais brilhantes, eu o tenho guardado até hoje. Falo sobre isso porque nesse texto de hoje, apesar de serem justas suas críticas à trajetória do Lula-estadista, falta uma pequena ressalva, ironicamente, feita há tempos por um dos maiores detratores de Lula hoje em dia: Ciro Gomes.
    Numa entrevista, certa vez, Ciro afirmou que todos no Brasil sabiam que o PMDB era uma espécie de “saco de gatos”. Mas que o Brasil seria INGOVERNÁVEL sem o apoio do PMDB, óbvio, eles dominavam, literalmente, o Congresso Nacional. E que Lula não teve escolha, era abraçar o PMDB ou morrer politicamente. Portanto, seja na Petrobras ou outros órgãos públicos, Lula, como seus antecessores, obviamente suspeitavam das indicações do PMDB, ou de um DEM, ou de um PP, esses partidos eminentmente corruptos, com ética ZERO. Mas todos os presidentes eram/são reféns desses partidos, não sei se foi o caso de Lula “permitir” essa corrupção, afinal, ninguém mais do quele dotou o MPF e a PF de tecnologia, bons salários, aumento nos quadros de pessoal, treinamentos, etc., para que a corrupção fosse combatida. Fico com a opinião do Ciro de antigamente, que Lula fez o que tinha que fazer para o bem maior de tirar os 40 milhões de brasileiros da miséria e ajudar sabe Deus quantos milhões a ascenderem profissionalmente através de Escolas Técnicas e acesso às Universidades, submetendo-se ao único caminho viável: o famigerado sistema de coalisão política – que até as pedras, como diria Mino Carta, sabiam do que se tratava. Os favores que aceitou foram de tão pequena monta que nem merecem comentários. Abraço!!!

  2. Os governos do PT foram obrigados a se submeter à camisa de força fiscal da LRF. Para se desvencilhar das amarras teriam que gastar toda energia que tinham, não poderiam criar as coisas boas que efetivamente fizeram. Mesmo assim foram capazes de grandes avanços, até mesmo na área fiscal. A redução de dívida pública interna conseguida e a inversão da dívida externa para crédito externo também foram sucessos absolutos de política econômica.
    O PT foi derrubado no momento em que já se tinha condição de mostrar um programa econômico de longo prazo, mudando a lógica de metas anuais para horizontes mais amplos. Imagino que este sucesso de condução da política econômico explica muito melhor a virulência do poder econômico contra o PT.

  3. Lula foi, durante seus dois mandatos, tolerado pela elite; os motivos, fora aqueles que saltam mais aos olhos, só serão totalmente desvendados mais tarde. A despeito de movimentações que, grosso modo, podem ser consideradas pontuais (mensalão, etc.), e que visavam não a ele, Lula, mas a estrutura do PT, essa tolerância pode ser, de certa forma, atribuída ao fato de que Lula não chegou perto, sequer, de atacar a estrutura do domínio da elite, cujos pontos principais o Nassif nomeia: só lamento a inclusão, nessa lista, dos tais favores pessoais. Equivale a aceitar o ponto de vista da lavajato, de que Lula teria sido recompensado por seus “atos indeterminados” com a reforma de um triplex fubeco que nunca foi dele, e com pedalinhos, enquanto os seus “capangas” na maior organização criminosa da história da humanidade (apud Dallagnol) até hoje estão em suas mansões à beira-mar e cheios de contas na Suíça.
    Lula não é estadista, é um ex-sindicalista de resultados, social-democrata e reformista. A prova disso é ter indicado Dilma, uma mulher íntegra, honesta, digna, mas politicamente inábil. A desarticulação, via mensalão, da cúpula do PT a deixou sem pai nem mãe, e isso, somado à inegável misoginia do poder no Brasil, selou seu destino. A nomeação de Lula à Casa Civil poderia ter sido sua bóia de salvação; e aí, nesse preciso instante, a tolerância da elite terminou.
    Pode ser que o desastre imensurável do governo Bolsonaro abra uma brecha para a reconstrução do país, através da conciliação que Lula promoverá, caso seja eleito. Não esqueçamos que os processos contra ele estão todos aí, à espera de que um aventureiro lance mão; nem nos esqueçamos dos militares, e seu ódio inquebrantável por tudo que cheire a povo.

  4. É esta postura de ESTADISTA, esta sabedoria política e este talento inato para unir pessoas diferentes, sejam elas divergentes ou convergentes, em torno de um objetivo comum, é que faz de LULA, a única pessoa capaz de promover o restabe-(10.) lecimento, o fortalecimento e a devolução da nossa frágil Democracia a quem de direito, O POVO BRASILEIRO. 2022, LULA LÁ!

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