Crime em Curitiba: exemplo da sociedade que Bolsonaro quer, por Marcelo Auler

O caso em si e a maneira como repercutiu mostram os riscos do clima de beligerância que o próprio presidente prega dia a dia e coloca em risco toda a sociedade.

Momento dos assassinatos captado pela câmera de segurança da loja (Reprodução)

Crime em Curitiba: exemplo da sociedade que Bolsonaro quer

por Marcelo Auler

em seu blog

Momento dos assassinatos captado pela câmera de segurança da loja (Reprodução)

Curitiba, que nos últimos anos se caracterizou como palco da perseguição política que o país assistiu a partir das arbitrariedades da Força Tarefa da Lava Jato, agora parece se converter no retrato perfeito do Brasil que a família Bolsonaro deseja implantar ao insistir na liberação da venda de armas e munições sem maiores controles, pregar a violência dissimulada em nome de uma autodefesa e manter a nação em constante estado de beligerância.

Na quinta-feira (11/06), feriado em que os católicos comemoram o sacramento que transforma pão e vinho no corpo e sangue de Cristo – Corpus Christi – os curitibanos assistiram dois corpos tombarem, no pior estilo faroeste.

Ocorreu em uma loja de conveniência, em um posto de gasolina, em pleno bairro Batel, quase centro da capital paranaense. Um dos endereços mais caros da cidade, onde residem famílias abastadas desde sempre, como a do prefeito Rafael Greca. Região na qual, em tempos de pandemia, há a preocupação singular de especial higienização das ruas arborizadas, em busca da segurança da saúde de seus moradores privilegiados.

Não foi crime cometido no calor dos acontecimentos, fruto de discussão acalorada, ou mesmo de algum excesso de bebida. Mas algo aparentemente premeditado, resultado de emboscada, na qual as vítimas – o advogado Igor Martinho Kalluf, de 40 anos, e seu acompanhante, o garçom desempregado Henrique Mendes Neto, de 38 anos – não foi dada nenhuma possibilidade de defesa, até mesmo pelo fator surpresa.

Henrique, ex-garçom e ex-auxiliar de cozinha levado ao desemprego pela crise econômica, teve a infelicidade de ali estar por que estava em busca de uma oportunidade de trabalho. Acompanhou Kalluf, após acertarem seu trabalho como motoboy no Restaurante Al Dunia, de propriedade do advogado.

Pistoleiro sequer escondeu o rosto. Certeza da impunidade? (Reprodução)

Beligerância alimentada pelo presidente

O tamanho absurdo de pistoleiros – um deles sem nem mesmo esconder o rosto – descarregarem mais de dez tiros, durante um pacato final de tarde (18h04), em local como aquele, fez os mais afoitos buscarem explicações para o crime no pesado clima político de perseguições, provocações e embates que o presidente da República alimenta insistentemente no dia a dia do país.

Clima já refletido, na manhã daquele dia, a 850 quilômetros de distância da capital paranaense, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Deu-se quando o engenheiro Henrique da Cunha Osório, extremado defensor do bolsonarismo, sentiu-se no direito de desfazer o protesto organizado pela ONG Rio de Paz na areia de uma das praias mais famosas, a de Copacabana. Um protesto silencioso, mas simbólico. No qual escavaram-se cerca de 100 covas na areia para relembrar as, hoje, mais de 41 mil vidas ceifadas pela pandemia. Relembrar e, ao mesmo tempo, cobrar dos governos maior atenção em prol da população.

Beligerância que, naquela mesma noite voltou a ser defendida pelo presidente ao, de forma irresponsável e possivelmente criminosa, por meio das redes sociais, incentivar populares a invadirem hospitais. Recomendação que começou a ser seguida, ao pé da letra, no Rio de Janeiro (RJ) e tentada em Fortaleza (CE) já no dia seguinte (sexta-feira – 12/06).

Com todo esse clima belicoso que os Bolsonaros provocam, para alguns mais afoitos, soou verossímil que as mortes ocorridas no bairro do Batel resultavam também de disputas políticas. Afinal, antes mesmo que os investigadores da polícia pudessem afirmar que o duplo homicídio qualificado foi motivado por mera negociação de dívida, em algumas redes houve quem relacionasse o crime a supostas questões políticas, dando vazão a fake news – com milhares de compartilhamentos.

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