Dilma e Levy formam dupla inesperada, por Thomas Traumman

 
Jornal GGN – Em artigo publicado hoje na Folha de S. Paulo, Thomas Traumann, jornalista e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, fala sobre a relação entre a presidente Dilma Rousseff e Joaquim Levy, ministro da Fazenda. Traumann diz que, quando Dilma decidiu convidar Levy para o Ministério, sabia que ele seria “um estranho no ninho, um burocrata”, alguém capaz de entender de Orçamento, mas não da necessidade e urgência de investimentos em saneamento.
 
Traumann diz que Levy nunca fingiu ser algo diferente disso, dizendo que nas reuniões de ministérios ele sempre encontrava uma maneira para lembrar aos demais ministros do rombo nas contas públicas. O jornalista também afirma que a presidente e o ministro formam uma dupla inesperada, já que um reconhece no outro as melhores intenções, mas discordam em todo o resto”
 
Da Folha
 
 
Thomas Traumann
 
Dilma e Levy formam uma dupla inesperada. Um reconhece no outro as melhores intenções, mas discordam em todo o resto
 
Dilma Rousseff contou a história tantas vezes que, quando a repetia, os assessores rapidamente se distraíam checando mensagens no celular. “Em 2005”, dizia Dilma, recordando seus tempos de ministra da Casa Civil, “um burocrata foi até o Palácio e me disse que tinha uma grande notícia: o FMI havia autorizado o governo federal a investir R$ 500 milhões no saneamento.”

 
Ao discursar, a presidente sempre sublinhava a palavra burocrata. Ela, então, levantava a voz e exclamava: “R$ 500 milhões! Veja só, isso hoje é o que investimos em saneamento numa só cidade e era o que o FMI autorizava a gente a destinar para o Brasil inteiro. Hoje não tem FMI para dizer onde a gente pode ou não pode investir”. O burocrata, nunca nominado, era Joaquim Levy, então secretário do Tesouro do Ministério da Fazenda.
 
Quase dez anos depois, quando convidou Levy para o Ministério da Fazenda em meio a uma abissal crise de credibilidade, a presidente sabia bem quem estava trazendo para a equipe. Levy sempre seria um estranho no ninho, uma concessão, um burocrata, o Joaquim Mãos de Tesoura, capaz de compreender de Orçamento, mas não da urgência de investimentos em saneamento.
 
Justiça seja feita, Levy nunca fingiu ser algo diferente. Nas reuniões ministeriais, nas quais costumeiramente só aparecia depois da presidente, ele sempre achava um momento para lembrar aos demais da profundidade do rombo nas contas públicas. Nas conversas privadas, era menos sutil.
 
Depois de ouvir a longa exposição de um colega sobre o Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) ter sido um dos pilares da campanha da reeleição e, por motivos simbólicos, ter de ser excluído dos cortes orçamentários, Levy respondia como se falasse com uma criança de cinco anos que chorasse por um sorvete: “É, mas não tem dinheiro”.
 
Noutra ocasião, um ministro falou da necessidade de o governo socorrer os clubes de futebol. Como Levy não se enternecia, o interlocutor apelou para o time do coração de Levy: “Sem essa medida, o Botafogo vai quebrar”, apelou o ministro. “Poxa, que pena”, retrucou Levy, sem alterar a voz.
 
Das características singulares do presidencialismo brasileiro, uma das mais delicadas é a relação entre o chefe do Executivo e o seu ministro da Fazenda. Emílio Garrastazu Médici está para Delfim Netto como Ernesto Geisel estava para Mário Henrique Simonsen. Itamar Franco só entrou para a história ao nomear Fernando Henrique como ministro e este, quando presidente, demitiu amigos para manter intacta a autoridade de Pedro Malan na política econômica.
 
O governo Lula pode ser descrito como antes e depois de Palocci e o primeiro mandato de Dilma não poderia ser descrito sem que seja relatada a sua intervenção constante nas atividades de Guido Mantega.
 
Por tudo isso, Dilma e Levy formam uma dupla tão inesperada. Um reconhece no outro as melhores intenções, mas ambos discordam de quase tudo o mais. Desde novembro, quando Levy foi anunciado ministro, o governo federal funciona na errática relação entre a presidente detentora de 54,5 milhões de votos e o ministro fiel depositário da confiança do mercado financeiro.
 
É a sístole e diástole da dinâmica de Dilma e Levy que explica a transformação de um Orçamento deficitário em agosto em um pacote que promete cortar R$ 26 bilhões em despesas correntes em setembro, dinâmica na qual os vazamentos à imprensa das insatisfações da chefe com o subordinado se pagam com o vazamento das frustrações do subordinado com a chefe.
 
São conhecidos os males que alimentam a ameaça de impeachment: articulação política inábil, comunicação desastrosa, paralisia administrativa e a sinalização mercurial dos rumos do governo. Porém, mais que o avanço das investigações da Operação Lava Jato, dos julgamentos do Tribunal de Contas da União e do Tribunal Superior Eleitoral e das idas e vindas do PMDB, o ritmo do processo do impeachment será dado pelo bolso do cidadão.
 
São os índices de desemprego, inflação e queda no consumo que podem derrubar o governo, que podem levar milhões às ruas, gerar pânico no mercado financeiro e esfarinhar de vez a base governista. Por ironia do destino, Dilma depende do sucesso do burocrata para chegar presidente a 2018.
 
THOMAS TRAUMANN, 48, jornalista, foi ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (governo Dilma)

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11 comentários

  1. Pas de deux

    Achei bobagem a saida de Thomas Traumann da Secom, mas ao mesmo tempo, parece que nenhum secretario de comunicação dos governos petistas consegue furar o bloqueio da midia e responder às sempre bombasticas matérias sobre o governo. Sera maldição 🙂  Dizem os franceses que ha uma maldição em Matignon, todos os primeiros ministros não conseguem se eleger presidente… 

    Quanto a Levy, ele deve comptente, mas muito cabeça de planilha.

  2. Pura dialética hegeliana.  
    .

    Pura dialética hegeliana.  

    . Dois homens lutam entre si. Um deles é pleno de coragem. Aceita arriscar sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, superior à sua vida. O outro, que não ousa arriscar a vida, é vencido. O vencedor não mata o prisioneiro, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo, o “servus”, aquele que, ao pé da letra, foi conservado.

    a) O senhor obriga o escravo, ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. O senhor não cultiva seu jardim, não faz cozer seus alimentos, não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. O senhor não conhece mais os rigores do mundo material, uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. O senhor, porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo, é livre, ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho, numa situação de submissão absoluta.

    b) Entretanto, essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo, que condiciona a sua. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Nesse sentido, ele é uma espécie de escravo de seu escravo.

    c) De fato, o escravo, que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu), vai encontrar uma nova forma de liberdade. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações, aprende a se afastar de todos os eventos exteriores, a libertar-se de tudo o que o oprime, desenvolvendo uma consciência pessoal. Mas, sobretudo, o escravo incessantemente ocupado com o trabalho, aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. Por uma conversão dialética exemplar, o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. Desse modo, o escravo, transformado pelas provações e pelo próprio trabalho, ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. Assim, a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão.

  3. Estes são os “Bons”,

    Estes são os “Bons”, prestigiados pelo Nassif, por serem todos “Técnicos”, “Discretos”, “Sem Aspirações Políticas”.

    E, Burocratas (e, “Fontes Confiáveis”, claro…).

    Traumann, Edinhos, e, agora os Rodrigos Almeidas…

    Alocam as Verbas de Mídia conforme a tal Mídia Técnica, por falta de Competência na Função.

    Nunca leram Goebbels.

    Não sabem o que é Comunicação Estratégica.

    No máximo querem gerir Verbas, “tecnicamente”, para não se comprometerem.

    Em entrevista do W. Olivetto à Rede TV, você morre de Saudades do Estrategista em Comunicação, aquele que entende a “Cabeça do Consumidor” (ou, do Eleitor).

    http://www.redetv.uol.com.br/jornalismo/enoticia/videos/todos-os-videos/washington-olivetto-socio-da-wmccann

    Pena que a Entrevista termina com a Pergunta:

    “Dilma?”

    “Honesta, mas com grandes Problemas de Comunicação…”.

    Como grande Comunicador, Olivetto deixa no ar que sabe qual a Solução para este Problema.

    Certamente, não deve ser contratando Burocratas da Comunicação como os Traumanns.

    • Desta vez discordo de você, pois penso como o Thomas Traumann

       

      Wong (quinta-feira, 24/09/2015 às 10:56),

      Ao contrário do que eu tenho dito a respeito de outros comentários seus aqui eu discordo completamente de você, salvo é claro a referência ao que diz Washington Olivetto sobre a presidenta Dilma Rousseff.

      Aliás o que o Thomas Traumman disse me surpreendeu, pois não saberia que ele tinha essa perspicácia. Chamo de perspicácia o que ele diz porque é o mesmo que eu venho dizendo de Joaquim Levy. Joaquim Levy foi escolhido porque é mão de tesoura e tem bom trânsito no PMDB do Rio de Janeiro. A idolatria que a Veja e Cristiano Romero fizeram dele é idolatria de amadores.

      Sobre isso indico meu comentário de quinta-feira, 08/01/2015 às 13:30, para Luis Nassif lá no post “Ajuste fiscal sem reformas é blefe” de quarta-feira, 07/01/2015 às 05:00, aqui no blog dele e de autoria dele e que pode ser visto no seguinte endereço:

      http://horia.com.br/noticia/ajuste-fiscal-sem-reformas-e-blefe

      Sobre a declaração de Washington Olivetto a respeito da presidenta Dilma Rousseff com a qual eu concordo ela não é tudo. Como bem diz Washington Olivetto, ele não gosta de fazer propaganda política. Na verdade ele não é do ramo, assim ele não teria como falar sobre a outra dificuldade da presidenta Dilma Rousseff não ser política.

      A esse respeito da presidenta Dilma Rousseff não ser política, eu recomendo o post “Para Aldo Rebelo, governo subestimou a política” de quinta-feira, 24/09/2015 às 10:40, aqui no blog de Luis Nassif contendo entrevista de Aldo Rebelo na Folha de São Paulo e que pode ser visto no seguinte endereço:

      https://jornalggn.com.br/noticia/para-aldo-rebelo-governo-subestimou-a-politica

      E ainda sobre a questão política, há um comentário de Marco Antonio Castello Branco que é um verdadeiro achado sobre a personalidade da presidenta Dilma Rousseff e que deveria ter sido transformado em post. O comentário de Marco Antonio Castello Branco foi enviado quinta-feira, 26/06/2014 às 01:45, junto ao post “Para entender o desgaste do governo Dilma” de segunda-feira, 16/06/2014 às 16:47, aqui no blog de Luis Nassif e de autoria dele e pode ser visto no seguinte endereço:

      https://jornalggn.com.br/noticia/para-entender-o-desgaste-do-governo-dilma

      Já transcrevi umas dez vezes o comentário de Marco Antonio Castello Branco e já o mencionei mais de 20, mas muito provavelmente poucos leram o comentário dele, até porque embora o post “Para entender o desgaste do governo Dilma” conte com 195 comentário tendo sido bastante frequentado, o comentário de Marco Antonio Castello Branco foi enviado cerca de 10 dias após o post ter sido publicado.

      E não consegui visualizar o motivo de sua crítica ao Thomas Traumman. Eu ficaria grato se você pudesse explicar qual é a parte do texto de Thomas Traumann que deu motivo para a sua crítica.

      Clever Mendes de Oliveira

      BH, 24/09/2015

  4. O Sr. Levy é uma força do

    O Sr. Levy é uma força do mal, inteligente, astuto, insensível. Dando amplos poderes a ele teremos reforma da previdência, arrocho, reforma trabalhista, mais arrocho, explosão da dívida pública, mais arrocho, ataque especulativo, mais arrocho, o Brasil virando Grécia no fim.

     

    Como disse, ele é um “anjo caído”, um ser dotado de imensa inteligência completamente voltado ao serviço da maldade do capital especulativo.

     

    A coisa é simples, ou ele sai ou o país quebra.

  5. Não que precise, basta ler o

    Não que precise, basta ler o texto. Mas faltou completar o curriculum de Taumann: Folha de São Paulo (especializado em PT), Veja (mais de 20 capas), Época, comunicações na construtora Andrade Gutierrez. E saiu do ministério de Dilma interpretando-a como “errática” e a seu governo como “caos político”.

    Talvez Taumann tenha sido, senão o principal, um dos mais importantes articuladores do golpe midiático contra o PT. Como ministro (e não mais como jornalista da Folha, Veja ou Época), cabia a ele o papel de comunicar uma visão positiva do governo. É difícil trabalhar com o futuro do pretérito, na base dos “se”, mas me arrisco: se estivesse à frente da SECOM alguém que não sabotasse o cargo, talvez o ódio fomentado nas almas “direitistas” hoje fosse menor. Uma das funções da SECOM é o trato com a imprensa.

    Todo governo, toda ação humana é sempre passível de crítica. Dilma e seu republicanismo, mania de achar que a “direita” pode contribuir com o projeto de consolidar a democracia, de espalhar e descentralizar poderes políticos e econômicos, saúde e educação universais, moradia e dignidade…
     

    Lembrei da fábula “O sapo e o escorpião”…

    • Eu sou um profeta

      Caro Renato, logo que vi esse cara nomeado para SECOM disse para amigos: mais um que logo, logo vai sair atirando contra o governo, o PT etc, inclusive aproveitando-se de suas relações privilegiadas com o poder.

      E isso não é nada. Vocês vão ver só quando esses que se aproveitaram durante anos do republicanismo ingênuo do PT começarem a escrever livros contando bastidores da era Lula/Dilma.

      E não se vexarão, usando a máxima de Nelson Rubens: “eu aumento, mas não invento”.

  6. Adorei a resposta dele sobre

    Adorei a resposta dele sobre a quebra do seu time do coração. Se há um setor da sociedade que não merecia um centavo de dinheiro público são os clubes de futebol. Conseguiram a proeza de estarem falidos num país em que o futebol praticamente é o esporte absoluto em termos de mídia e montante de dinheiro. 

  7. Orçamento e Receita.

    O articulista esteve no Governo até o fim de 2013.

    Levy se achava, só que não.

    A Dilma fez um ajuste no Levy. Delimitou o quadrado dele.

    Levy ficou com a parte da arrecadação (Ministro da Fazenda), e Barbosa com o orçamento e gestão (Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão). Os dois apareceram na coletiva do Orçamento, Barbosa falou dos cortes, Levy do fim das isenções e dos aumentos de tributos. Certo.

    E hoje. As tesouras estão com Barbosa. Cabe ao Levy passar a sacola. Hoje é Dilma, Barbosa (que tinha brigado com Dilma também no primeiro mandato) e Levy.

    Traumann está fora do tempo.

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