GGN

Ditadura, história e amizade: Nassif entrevista Fernando Morais

O escritor Fernando Morais. Foto: wikipedia

Jornal GGN – O jornalista Luis Nassif conversou com o escritor Fernando Morais, autor da biografia do ex-presidente Lula, lançada recentemente pela Companhia das Letras, na TV GGN 20 horas desta quarta-feira (24/11).

Antes, Nassif realizou uma rápida análise da pandemia de covid-19: no mundo, a média de sete dias dos casos ficou em 666.666, alta de 12,4% em sete dias e de 25,9% em 14 dias.

O Brasil representou 1,2% do acumulado da semana global – “em outros tempos, chegamos a registrar 10%”, afirma Nassif, destacando o avanço de casos na maioria dos países da Europa – 28 países com alta de casos, e 17 em queda.

No Brasil, a queda de casos tem sido consistente. Nesta quarta-feira, foram 12.930 casos registrados – queda de 4,3% ante sete dias e de 11% em relação a 14 dias. A média semanal está em 9.350 casos, bem abaixo do pico de 77 mil casos.

Quanto ao total de óbitos, 546 pessoas perderam a vida nesta quarta-feira, enquanto a média diária está em 213 registros, o que representa estabilidade após a queda expressiva vista em outubro.

Soberania nacional deixada de lado

Nassif e Fernando Moraes conversam sobre jornalismo, amizade e a fundação do PT, da data de fundação do partido até mesmo sobre militantes antes desacreditados, mas que estão no quadro de fundadores do partido desde o primeiro dia.

Para Moraes, a tensão existente em torno da prisão de Lula não fica devendo em nada ao que ocorria na ditadura. “Embora a ditadura tivesse métodos de brutalidade física muito maior (…) A ditadura não fazia o que esse regime está fazendo”.

“Eu nem vou falar da questão da soberania nacional (…)”, afirma Morais. “Eu acho que o último general que tinha preocupação com a questão do Brasil, da soberania nacional, da riqueza brasileira, era o Geisel. Com todos os pecados dos quais ele deve estar pagando”.

“Mesmo depois dele (Geisel) ter sido transformado em um general, enfim, mais liberal, ele depois de morto a CIA desenterrou pedaços do cadáver dele que mostravam que ele, em um determinado momento dizia ‘Mata! Se é inimigo da ditadura, mata!'”, afirma Moraes.

“Com todas essas mazelas, que das quais eles jamais vão se penitenciar, nós por uma responsabilidade com a história, nós não podemos negar que o Médici, que foi provavelmente o símbolo da maior brutalidade que aconteceu (…) o Médici foi um sujeito que fez o mar de 200 milhas, que garantiu que o Brasil fosse dono do pré-sal”.

“Quando o Movimento Popular de Libertação de Angola ganhou a Guerra de Angola, um movimento marxista, o primeiro país a reconhecer o governo do MPLA foi o governo brasileiro. Antes de Cuba, que tinha 250 mil soldados lá dentro”, diz Fernando Morais.

O escritor ressalta que as coisas não são brancas ou pretas, e que elas possuem nuances. “Não tem mais um general que segure, esses caras estão cagando nas calças diante do que estão fazendo com o pré-sal”, afirma Morais. “Quem abriu, quem arrebentou a porta para entregar o pré-sal para os estrangeiros foi o José Serra. Não se esqueçam disso”

Fernando Morais também conta sobre a entrevista que fez com Julien Assange em 2016, quando o ativista estava asilado na embaixada do Equador em Londres. “O Assange conta que o Michel Temer está comprometido até o bigode com a entrega do pré-sal para os gringos”

A íntegra da entrevista de Fernando Morais com Julien Assange pode ser vista no blog Nocaute, mantido pelo escritor até hoje. Clique aqui.

O surgimento de Lula como liderança

Sobre o papel de Lula como liderança carismática, Morais diz que “essa lenda se criou sozinha. O Lula não é um sujeito que é fruto de nenhum instrumento poderoso. O Lula era um peão (…)”

Embora considere tal declaração muito prematura, Morais acredita que “o Lula, para os seus netinhos, para as minhas netinhas, para os filhos dos meus e dos seus netinhos, o Lula vai ser a figura mais importante da história do Brasil (…)”.

Um dos pontos de partida para tal afirmação é o fato de Lula ter aprendido na prática. “Chegou o momento que me deu uma zica na biografia que era a seguinte: quem descobriu o Lula primeiro, a polícia ou o Partidão (PCB, Partido Comunista do Brasil)?”, comenta Morais.

Depois de muita pesquisa, Morais descobriu que, pela mão de Frei Chico, “o Partidão destacou um quadro da mais alta importância do partido (…) para vir a São Bernardo cooptar o Lula. E o Lula ficou puto da vida quando ele percebeu do que se tratava, e chamou o Frei Chico e lhe deu um esporro (…)”, diz Morais.

“Ele disse o seguinte: ô Frei Chico, na hora que esses filhos da puta do Partidão quiserem falar comigo, vão no sindicato. O meu lugar de conversar com as pessoas, seja do Partidão, seja da Convergência (…) O meu lugar de conversar com essa gente é no sindicato, eu não converso em banco de jardim’”

“O Lula é um sujeito que se fez ali, vendo a tragédia, testemunhando a tragédia do trabalhador brasileiro. Ele sabia, e não porque ele leu – ele aprendeu vendo a cachorrada sofrendo na mão do patrão”, afirma Morais.

“Ele trabalhava com um dos melhores patrões do Brasil, que era o Paulo Villares, que era um patrão civilizado (…) O Paulo Villares me contou coisas deliciosas, e conversa vai, conversa vem, e me contou histórias do Lula e do Geisel”, diz Morais.

Um pedido de ajuda – e intercepção dos militares

Morais destaca uma passagem em que Dom Paulo Evaristo Arns, ex-arcebispo da cidade de São Paulo, no auge da greve das montadoras, faz um telegrama em alemão para o que seria equivalente à Curia Religiosa da Alemanha.

“(Dom Paulo enviou o telegrama) dizendo ‘as empresas alemãs estão fazendo uma barbaridade – basicamente a Volks e a Mercedes – com os trabalhadores. Eles se recusam a negociar. Então, eu faço um apelo à igreja alemã para que pressione as empresas”, diz o escritor.

“E a igreja alemã tinha um poder muito grande não só por ser igreja, mas porque tem ainda pela legislação alemã participação no Parlamento”, afirma Morais. “E a igreja alemã pressiona a Volks e a Mercedes para negociar com os trabalhadores – não era nem ceder, nem negociar”.

“A Marinha pega o telegrama do dom Paulo, subtrai, traduz, manda o original para a Alemanha e dá a tradução porque eles precisavam dar uma arma para o Figueiredo dar de cara do Dom Paulo – mas não podiam reconhecer que tinha sido um crime que é a interceptação de correspondência”.

“O que eles fazem: eles dão para o Estado de S.Paulo, passam para o Estadão e o que dá ao Figueiredo o direito de dar, em manchete no Estadão, uma dedada na cara do Dom Paulo dizendo que quem estava financiando as greves no ABC é o cardeal Dom Paulo”

“Qualquer repórter perguntaria para o Figueiredo de onde ele descobriu tudo isso. Se ele dissesse que interceptou correspondência, ele teria que reconhecer um crime. Então, ele passa para o Estadão, e o Estadão dá em manchete no dia seguinte”, diz Fernando Morais.

“Fui lá à Alemanha buscar o destinatário e bateu. Tá lá no livro, traduzido, com a assinatura do Dom Paulo (…)”, diz Fernando Morais.

Essas e outras histórias do período sindical de Lula, tema do primeiro volume da biografia do ex-presidente escrita por Fernando Morais, podem ser vistas logo a seguir, na íntegra do programa.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Sair da versão mobile