Lições do debate dos presidenciáveis

A não ser em casos de vitória por nocaute, debates de presidenciáveis não mudam o voto de ninguém. Servem para os torcedores dizerem que seu time ganhou ou empatou, apenas.

Vitória por nocaute significa um dos contendores ficar sem resposta, mudo, enquanto é fustigado pelo adversário.

Isso quase nunca ocorre porque pessoas que chegam a candidato a presidente têm bagagem. Além disso, o modelo do debate facilita as mudanças de tema: começa falando A, pula para B, volta para A, independentemente do tema que esteja sendo abordado no momento. Por isso mesmo, o debate de ontem, na TC Bandeirantes, terá pouquíssimo efeito sobre os eleitores.

Mesmo assim, contem lições a serem aprendidas pelos candidatos.

Há duas maneiras de se abordar os temas nacionais. A primeira, jogando com os grandes números. Essa é ideal para platéias mais preparadas. Governos são realidades complexas, das quais se podem tirar mil detalhes. O que interessa são os grandes números, que reflitam o resultado final.

Mas, para o público leigo – maioria dos telespectadores – o detalhe impressiona mais. Apontar fatos específicos, que envolvam personagens específicos – pessoas ou grupo vulneráveis -, impressiona mais, causa mais comoção.

Nesse sentido, a estratégia de José Serra foi mais eficiente. Dilma falou no Luz para Todos. Não descreveu o que muda na vida de uma pessoa que, antes, não tinha luz, geladeira, televisão – algo que Lula descreveu com maestria algumas vezes. Não mostrou o que significa poder guardar alimentos, poder chegar à noite e ter um fogão para esquentar para a família. Para a maioria dos telespectadores, Luz para Todos é um nome apenas, sem maiores significados.

Já Serra apontou um problema concreto: o caso das APAEs (Associação Pais e Amigos de Excepcionais), que, segundo ele, teriam perdido o direito a ônibus de graça, fornecido pelo MEC.

Pegou a candidata desprevenida. No turbilhão de informações de um governo, como saber de todos os detalhes de todos os Ministérios?

Pela primeira vez, a campanha de Serra desenvolveu uma estratégia eficiente.

Dilma poderia ter rebatido se tivesse feito o mesmo levantamento em São Paulo, encontrado grupos vulneráveis vítimas de algum descuido de governo.

O mesmo ocorreu com nomeações políticas. Serra aproveitou bem o episódio recente dos Correios para uma crítica ao loteamento político.

Dilma mencionou genericamente alguns políticos que fazem parte de Conselhos de empresas. Ora, um dos principais organizadores da caixa de José Serra, Márcio Fortes – que, aliás, foi um belo presidente do BNDES nos anos 80 – ganhou cargo público em uma autarquia paulista. Subprefeituras foram loteadas para ex-prefeitos aliados de Serra. Tem inúmeros outros exemplos que poderiam ter sido levantados.

A estratégia da candidata Dilma poderia ser mais objetiva. Serra se comportou como estiliingue, mas também é vitrine – já que governou prefeitura e governo do estado por seis anos. Basta mapear todas as acusações que poderão ser feitas ao governo federal e contrapor com atitudes similares adotadas pelo governo paulista. Os vícios são similares.

Lembro que, quando começou o festival de factóides da mídia, anos atrás, cada vez que escandalizavam um problema, ficava-se sabendo que já existia ou no governo FHC ou no governo estadual. É o caso dos cartões corporativos. No auge da escandalização, constatou-se que em São Paulo ocorria o mesmo. E nem Serra sabia disso.

A campanha refluiu como uma onde no mar, depois da ressaca braba.

Em debates, a eficácia está em fatos específicos, não nos agregados. 

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