O CAMPEÃO DOS DEBATES

 

Direto da Redação

Não foi nenhum dos quatro que compareceram ao debate da Band esta semana. O campeão nessa modalidade é indiscutivelmente Luis Inácio Lula da Silva, o homem que  participou dos debates das últimas cinco eleições presidenciais no Brasil.  Perdeu três e ganhou duas.  Penso que é uma façanha que deveria figurar no livro dos recordes mundiais.

Por isso mesmo, na Colombia, onde está para a cerimônia de posse do novo presidente, Lula falou da tristeza de não estar presente no encontro da TV Bandeirantes.  “Fiquei sinceramente frustrado de não me ver ali de pé debatendo”. E lembrou que o nervosismo faz parte do debate, pela novidade e pelo clima que se cria em torno do evento.

De fato, e aqui vai um pouco de história recente do Brasil, sou testemunha desse nervosismo que toma conta dos candidatos nos momentos que antecedem um debate dessa importância.  Refiro-me à disputa entre Lula e Collor no segundo turno de 1989.  Uma eleição histórica, por ser a primeira pelo voto direto desde 1960,  uma vez que essa prática fora suprimida pelo regime militar.

Por tudo isso,  as quatro principais redes acordaram em promover em conjunto dois debates em rede nacional, o que chamam de pool de emissoras.  Convencionaram que seriam dois debates, o primeiro no Rio, na sede TV Manchete na Rua do Russel, e o segundo em São Paulo, na sede da TV Bandeirantes. Cada emissora teria um mediador e um comentarista, ambos com direito a perguntas aos dois candidatos Lula e Collor.

Fui escalado para representar a Rede Manchete – para onde tinha acabado de me mudar, em julho daquele ano – como mediador em ambos os debates. No do Rio, ao lado do comentarista Carlos Chagas, e no de São Paulo, ao lado de Villas Boas-Correa.

Entre o debate do Rio e o de São Paulo, um fato novo trazido pelos estrategistas do “caçador de marajás”, seu irmão Leopoldo à frente, mudou o panorama da campanha.  A enfermeira Mirian Cordeiro, com quem Lula teve um romance quando era ainda primeiro-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC foi levada ao programa eleitoral de Collor para declarar que Lula fez de tudo para que ela abortasse a criança que estava em seu ventre.  Se Lula foi a favor do aborto naquela ocasião, ninguém sabe.  O certo é que a criança nasceu,  Lula reconheceu a paternidade e deu-lhe o sobrenome:  Lurian Cordeiro da Silva. Depois se soube que Mirian recebeu dinheiro, casa e comida por um bom tempo para fazer aquela participação, que teve influência decisiva na fase final da campanha.

O depoimento de Mirian, no último programa eleitoral gratuito, a três dias do debate final,  explodiu como uma bomba no coração da campanha de Lula.  Apresentá-lo como um pai desalmado e defensor do aborto era tudo que não poderia acontecer naquele momento delicado da batalha pelos votos. 

Emocionalmente abalado.  Foi assim que o encontrei no debate da TV Bandeirantes, o tal que foi editado pela Globo.  Ao chegarem ao auditório da Band, os jornalistas já encontraram o candidato Collor colocado em seu púlpito,  impassível, sem esboçar um sorriso, em pose imperial.  Na frente dele, uma pilha de pastas que até hoje ninguém entendeu porque estavam ali.

Depois de alguns minutos de atraso, quando todos já estavam posicionados, o candidato Lula chega ao auditório da Band.  Cansado e abatido pela arrancada final da campanha e abalado pela revelação de seu caso com a enfermeira,  Lula pediu um tempo à direção do programa para ir ao banheiro. Alguma coisa que comera não lhe fizera bem,  explicou ele.

Quando o debate começou, Lula, o metalúrgico,  bom de gogó na frente dos companheiros do sindicato e na mesa de negociações com os patrões, fraquejou.  Nervoso, ele não rendeu o suficiente para ganhar.

A Globo efetivamente editou o debate para mostrar Collor como vencedor, fato já incorporado à História.  Mas não precisava.

 

 

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