Serra admite não ser “pai dos genéricos”

Toda boa iniciativa tem dois responsáveis: quem teve a idéia e quem a implementou. Partindo dessa premissa, José Serra poderia, sim, se vangloriar de ter dado apoio aos genéricos e à campanha anti-aids.

Ele assumiu o Ministério da Saúde sem nada entender de saúde. Sei disso porque, às pressas, me pediu uma série de artigos que tinha escrito sobre o tema – a partir da colaboração de especialistas que atenderam minha convocação de enviar ideias por email – e me convidou para dois ou três jantares para passar fontes relevantes e para ajudá-lo a se definir se aceitava ou não o convite. Além de ter solicitado ajuda para o discurso de posse (clique aqui para ler algumas das matérias da série que publiquei em janeiro de 1998).

Aliás, a ideia que passei – a partir do exemplo da Belgo Mineira em Minas – foi a de convocar empresas ligadas à qualidade para participar diretamente da administração dos hospitais públicos, implantando programas de qualidade com seus próprios recursos e ajudando diretamente no aprimoramento da gestão. Ele incluiu o tema no discurso. Quase ao final de sua gestão como Ministro da Saúde, me ligou: como era aquela ideia mesmo? Nem sabia qual era mais.

Assumiu o Ministério, identificou algumas boas iniciativas que vinham acontecendo e deu gás a elas. Como não sabe gerenciar, focou em ambas e se isolou das demais iniciativas do Ministério. Mas tem mérito inegável na consolidação de dois momentos importantes na saúde.

O problema do Serra é sua total incapacidade de dar o menor reconhecimento a quem quer que seja. É de um egocentrismo sem paralelo na política brasileira. O movimento pela saúde é antigo, tem seus heróis respeitados, porém pouco reconhecidos, pessoas que deram toda sua energia pela causa por uma única retribuição: reconhecimento da história. Serra jamais foi capaz de reconhecer nada. Preferiu se apropriar do mérito exclusivo de várias obras coletivas.

No Ministério da Saúde teve predecessores dos mais relevantes, que ajudaram a dar consistência à estrutura da saúde e do SUS:  Jamil Haddad, Adib Jatene, Henrique Santillo, o excepcional gaúcho Carlos Albuquerque, pouquíssimo reconhecido, que deixou a máquina azeitada. Duvido que alguém levante um discurso sequer do Serra dando o devido reconhecimento a qualquer um.

E não apenas na saúde. Qualquer projeto relevante que tenha passado a menos de um quilômetro dele é apropriado como obra sua, mesmo que tenha dado apenas um visto em algum papel nos seus tempos de Ministro do Planejamento ou participado de alguma votação, nos seu tempo de parlamento.

Há exemplos abundantes nessa campanha, dele falando de sua importância para obras no nordeste, para as escolas técnicas etc.

Agora, em vez de colher o mérito de ter ajudado a consolidar os genéricos e a campanha anti-aids, paga o mico de admitir que o filho tem vários pais. Mas como acontece com o padrão Serra de egocentrismo, nem nessa hora é capaz de dar o devido reconhecimento aos heróis da saúde. Em vez de mencionar Jamil Haddad como pai de ideia, diz que quem lhe passou a dica foi Ronaldo César Coelho, um banqueiro.

Por Rubem

O vento sopra, a biruta gira:

Do Ultimo Segundo

Não fui eu que inventei os genéricos, diz Serra

Tucano participou de festa oferecida a ele pela senadora Kátia Abreu (DEM) em Palmas, Tocantins

Adriano Ceolin, enviado a Palmas | 27/07/2010 23:52

O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, afirmou na noite desta terça-feira que não foi o idealizador do remédio genérico. Nas últimas semanas, o PT tem tentado retirar de Serra a paternidade da quebra de patentes dos medicamentos.

O presidenciável afirmou que a proposta de se criar os medicamentos genéricos foi apresentada a ele pelo então deputado federal Ronaldo Cézar Coelho (PSDB-RJ), que é ex-banqueiro e nesta eleição é candidato a primeira suplente na chapa de Cesar Maia (DEM).”Não fui que inventei [os medicamentos] genéricos. O genérico já existia como ideia. Eu nem sabia quando assumi o Ministério da Saúde”, disse o tucano ao discursar de festa oferecida para ele na casa da senadora Kátia Abreu (DEM), coordenadora da campanha de Serra no Tocantins.

Serra também disse que não idealizou o programa de combate à Aids, uma das bandeiras da gestão frente à pasta da Saúde entre 1998 e 2002. “Eu toquei o programa da Aids para acontecer na prática, mas não foi ideia minha”, disse.

“Truques e mentiras”

No mesmo discurso, Serra acusou o PT de espalhar “mentiras” a seu respeito. Citou como exemplo mais recente o boato de que privatizaria a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo).

“[Espalham] mentiras que vai fechar isso, vai fechar aquilo. Nunca tive essa ideia [de privatizar a Ceagesp]. Até porque aquilo lá já é privado. Só a administração é pública. É o tempo inteiro esse tipo de coisa”, disse. “É mentira, truque e insulto”.

Em seguida, Serra citou que o PT faz “espionagem” e lembrou o caso da violação do sigilo fiscal do vice-presidente executivo do PSDB, Eduardo Jorge. “Tem um jogo aí e não se debate ideias”, afirmou.
Serra citou Dilma ao lembrar participação em palestra em São Paulo que a petista teria dito que a carga tributária no Brasil é boa. “Ela falou. Está declarado. Eu disse não concordo. Não posso comparar o Brasil com a Suécia”, completou.

O tucano também fez provocações ao senador Aloízio Mercadante (PT), seu adversário na campanha para o governo do Estado de São Paulo. “Ganhei com um pé nas costas. Até porque o candidato era fraco, sem credibilidade”, disse Serra, que venceu a disputa no primeiro turno.

Cerca de 2 mil pessoas participaram da festa promovida na casa da senadora Kátia Abreu para Serra e para o candidato ao governo do Tocantins pelo PSDB, Siqueria Campos. Entre os presentes, estava o prefeito de Almas, Leonardo Cintra, que liberou do trabalho alguns secretários para participar de uma caminhada com Serra em Palmas. 

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