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EUA voltam-se à Ásia

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Do Wall Street Journal

Depois do Iraque, EUA voltam-se à Ásia

Por GERALD F. SEIB

O dilúvio de comentários que se seguiu ao anúncio pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de que os soldados americanos vão deixar o Iraque até o fim do ano passou longe da consequência estratégica mais importante: a retirada das guerras no Iraque e Afeganistão abre o caminho para os EUA voltarem seu foco para a Ásia, em particular para a China, a região do mundo que provavelmente é a que mais importa no longo prazo.

Sejam quais forem os méritos dos conflitos no Iraque e Afeganistão, uma de suas consequências foi desviar o olhar dos EUA da direção para a qual ele devia apontar — rumo à região da Ásia e Oceania e sua crescente força econômica. Seria insanidade, é claro, pensar que isso significa que Iraque e Afeganistão podem agora ser esquecidos; o espectro de um Irã com potencial capacidade nuclear poder preencher o vácuo que se criaria e é suficiente para exigir um envolvimento americano constante.

Mas não há dúvida de que pressões econômicas por si só vão gerar uma mudança a caminho do Oriente. Na segunda-feira, aliás, o secretário de Defesa, Leon Panetta, estava visitando a Ásia, afirmando que os EUA agora estão “num momento de virada” que permitirá ao país manter, e talvez até aumentar, sua presença militar na região como um sinal de seu compromisso com a Ásia e seu desejo de equilibrar a força chinesa.

Do mesmo modo, a secretária de Estado, Hillary Clinton, vem dizendo nos últimos dias que tal mudança está acontecendo. Num discurso em Nova York sobre a necessidade de usar a força diplomática para enfrentar os problemas econômicos dos EUA, ela declarou que na sequência do Iraque e Afeganistão, “o centro de gravidade estratégico e econômico do mundo está se mudando para o leste, e que [os EUA] estão se focando mais na região da Ásia e Oceania”.

Num novo artigo na revista “Foreign Policy”, ela defendeu “um investimento — diplomático, econômico, estratégico e de outros tipos — substancialmente elevado na região da Ásia e Oceania”.

Ela definiu a região de uma maneira que incluiu Índia e Indonésia, mas o foco maior estará na China e seu complicado relacionamento comercial com os EUA. É seguro dizer que muitos americanos temem o crescente poderio econômico da China, temendo que seu país esteja, ou perdendo terreno para o poder industrial chinês, ou, pior ainda, se tornando subserviente a Pequim por causa de sua dependência de investimentos chineses para financiar o déficit público americano.

Mas uma das oportunidades na futura mudança de foco para o Oriente é a chance de os líderes políticos — e candidatos — americanos explicarem aos cidadãos do país que na verdade a China não é tão assustadora assim. A China enfrenta seus próprios problemas econômicos consideráveis, uma constatação que pode pelo menos suavizar a atmosfera de ansiedade e medo econômico que tomou conta dos EUA.

Na verdade, está emergindo um grupo totalmente novo de céticos quanto à China, que acham que o potencial econômico do país está sendo exagerado e os problemas do país, minimizados. Num comentário distribuído semana passada, Jerry Jasinowski, um economista e ex-presidente da Associação Nacional da Indústria dos EUA, declarou que “há evidências cada vez maiores de que a concorrência chinesa à indústria americana atingiu o auge e sua vantagem competitiva está em declínio”.

Jasinowski citou especialmente um relatório recente da Boston Consulting Group afirmando que o custo de produzir na China está crescendo devido à escalada local nos salários, do preço das matérias-primas e do combustível. Ao mesmo tempo, escreveu Jasinowski, os fabricantes americanos ficaram mais competitivos por conta do doloroso ajuste econômico em curso atualmente. Com o tempo, argumentou ele, quando levado em conta o custo de transportar produtos da China, produzir e comprar nos EUA voltará a ser mais atraente.

Se o cenário competitivo está ficando mais equilibrado, uma meta que os líderes americanos devem adotar é pressionar mais a China a respeitar todas as regras econômicas internacionais.

Isso significa especialmente uma pressão contínua para encerrar a manipulação do valor de sua moeda e proteger mais as patentes da pirataria. A verdadeira meta da diplomacia americana é convencer a China de que um sistema internacional justo é do seu interesse no longo prazo. “Se um país grande como a China não obedece às regras, o sistema mundial será prejudicado e, no fim das contas, a China também, já que depende muito dele”, diz o subsecretário de Estado dos EUA, Robert Hormats.

E isso insere a questão na campanha presidencial nascente nos EUA. Já ocorreu bastante demonização da China nesse campo, em boa parte graças ao candidato de oposição Mitt Romney, que promete adotar uma linha mais dura contra aquele país. Ele propôs impor tarifas de importação à China em retaliação direta à manipulação cambial e à pirataria de propriedade intelectual, e foi até aplaudido num debate na semana passada quando sugeriu que a China deveria ser pressionada de alguma maneira a assumir o custo da ajuda internacional que os EUA fornecem atualmente a países pobres.

Mas existem outros meios de fazer valer os interesses americanos, como se unir aos países asiáticos e latino-americanos que se sentem amedrontados pelos chineses. Na realidade, o melhor debate mesmo pode ser descobrir como concorrer melhor com a China, e não como puni-la.

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