Geração da internet milita por resultados

Do Valor

Geração da internet milita por resultados

Vandson Lima, de São Paulo
29/03/2010

Um em cada cinco eleitores no Brasil tem menos de 25 anos. Sua decisão de voto é mais volátil; estão menos suscetíveis à comparação entre os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, governo do qual têm escassa memória; cultivam valores pragmáticos e conservadores como a preferência por organizações religiosas. Na corrida eleitoral, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), está à frente na preferência dessa faixa etária, enquanto a ministra Dilma Rousseff (PT) vence entre seus pais.

Presidente estadual da Juventude do DEM e subprefeito da Casa Verde, Walter Abrahão Filho já ultrapassou em cinco anos a faixa do eleitorado que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) calcula ter 23,5 milhões de votos. Mas fala como porta-voz da geração. Walter, que se considera centro-esquerda, diz que é preciso superar a ideia de que a privatização é necessariamente ruim. “A Petrobras mesmo, é um caso a avaliar. Um monte de licitação mal explicada, cargos na mão de políticos e gasolina a quase R$ 3! O que estamos ganhando com isso?” Fã do prefeito Gilberto Kassab (DEM) – “mais do que admirador, fã mesmo”, diz – , dá palestras sobre cidadania desde os 16 anos, admira políticos com perfil austero e fama de gestores. Considera Serra um administrador “impecável”.

Numa disputa em que os principais pré-candidatos à Presidência militaram em organizações de esquerda na juventude, a ordem é pragmatismo. “Para fisgar esse eleitor o candidato terá que se mostrar capaz de resolver suas demandas imediatas”, diz o diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

Em 2008, o instituto levantou o perfil dessa geração com 1.541 entrevistas em 168 municípios. “Realização profissional e material são a busca dessa geração, bastante conservadora no que diz respeito a questões morais. Tanto que 24% dos pesquisados declaram-se evangélicos. A participação em organizações religiosas é muito maior do que nas políticas”, diz Paulino.

Questionados sobre sua posição política, a maioria se situa entre o centro e a direita. Na faixa entre 16 e 17 anos, o percentual de jovens que se coloca à direita e à esquerda se iguala. O cenário muda entre os entrevistados do sexo masculino de 18 a 21 anos: 40% declaram-se de direita e 28%, de esquerda. Entre os entrevistados do sexo feminino, a situação se inverte: quanto maior a idade, maiores são os percentuais das que se declaram de esquerda e menores os das que se dizem de direita.

Uma olhada na evolução da avaliação do governo Lula explicita esse pragmatismo. Em 2003, 47% dos entrevistados entre 16 e 24 anos consideravam o governo Lula bom/ótimo. Este número subiu para 71% em 2010. Nesse período ampliaram-se as políticas de concessão de crédito. Apenas três em cada dez jovens entrevistados pelo Datafolha não se consideram consumistas.

Até as lideranças jovens de partidos de esquerda admitem remar contra a maré. “As ideias socialistas não encontram reverberação na sociedade hoje. Talvez, por culpa nossa também, pois há um desgaste no discurso da esquerda. É preciso novo conteúdo e forma”, diz o secretário da Executiva estadual do P-SOL em São Paulo e pré-candidato a deputado federal, Helton Bastos, 26 anos.

Entre os tucanos, a juventude militante tem a denominação de “PSDB Júnior”. Seu presidente, Antonio Carlos Freitas Júnior, diz nunca ter se encantado com teses marxistas, considera-se centro-esquerda e reservou uma fatia no partido para quem se coloca à sua esquerda. “Temos uma ala da juventude pessedebista chamada ´esquerda pra valer'”, diz o Antonio Carlos. “As juventudes partidárias são a vanguarda dos partidos na mobilização via internet. Lançamos as ideias. Esse negócio de só servir para agitar bandeira na eleição e não decidir nada é passado”.

Antonio entrou no PSDB em 2003, com apenas 16 anos, após ler uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “FHC dizia que aquela era a hora de aderir ao partido, após a derrota de Serra para Lula nas eleições. Foi como se dissesse que precisavam de gente como eu. Deu aquele estalo”, diz. Um mês depois, já ocupava a presidência da juventude municipal de Santo André. “Sempre acompanhei a política nacional. Com 11 anos, gostava de assistir à TV Senado”, conta.

Sem políticos profissionais na família -“Meu pai era malufista, achava que na época da Arena tudo era melhor” – Antonio Carlos, estudante de Direito na Universidade de São Paulo (USP) também é o coordenador-geral da juventude do governo Kassab, mesmo tendo feito campanha para Geraldo Alckmin em 2008. Discorda da avaliação corrente de que o governo Lula tenha sido mais bem sucedido que o de Fernando Henrique: “Se eu acreditasse nisso, sairia do PSDB”.

Há aqueles que fizeram na militância o caminho para a vida profissional. No PMDB, Thiago Ferrari , 35 anos – “no limite da juventude”, conta, aos risos – é presidente estadual da Juventude do PMDB e considerado um dos nomes com potencial futuro no partido. Vereador em Campinas, carismático, conseguiu o improvável: goza da simpatia tanto do ex-governador de São Paulo Orestes Quércia quanto do deputado federal Michel Temer, que divergem radicalmente sobre os rumos que o partido deve tomar. Thiago conta que a juventude pemedebista passa por um momento de reestruturação. A parte mais à esquerda do partido foi para o Partido da Pátria Livre (PPL), legenda fundada recentemente por integrantes do histórico Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), que fez parte do PMDB por mais de 30 anos. Além de ficar à mercê do conflito interno que divide a sigla: “Nossa juventude tende a apoiar Dilma, mas se sente em dívida com Quércia, que sempre deu a maior força para que tivéssemos voz no partido”, avalia Thiago.

Vereador de Jaboticabal, em seu segundo mandato pelo PV, Murilo Gaspardo, de 27 anos, é outro que sempre desejou a vida política. Aderiu ao PV influenciado por professores do colégio onde estudou, filiados à sigla. O núcleo da juventude no partido tem três anos. Em São Paulo, o partido divide-se de acordo com as 21 bacias hidrográficas do Estado.

Dalmo Viana, 28 anos, secretário de Finanças do PSB-SP, ex-presidente da juventude e hoje assessor do deputado federal Márcio França, foi demitido da Eletropaulo por incitar paralisação de funcionários, que exigiam a saída de um dos diretores da empresa. Conseguiu emprego em uma editora, que deixou para se dedicar à direção estadual do partido. À época, ficou sem dinheiro e teve de largar a faculdade. Tudo para se dedicar à sigla, na qual ingressou depois de conhecer, em um acampamento numa chácara em Santa Isabel, São Paulo, integrantes da Juventude do PSB ligados a Miguel Arraes e Luiza Erundina.

A direção das juventudes partidárias é, na maioria das siglas, um cargo eletivo e por vezes, remunerado, como nos casos do PT e PCdoB, onde os secretários de juventude são funcionários do partido. Alessandra Dadona, 28 anos, secretária estadual da Juventude do PT, diz que a prioridade dos jovens petistas é, em caso de vitória de Dilma, emplacar um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) voltado para os jovens: “Formaríamos uma força-tarefa dos ministérios, com uma ação integrada entre eles. Não adianta pensar em emprego, cultura, lazer para jovens isoladamente”. Alessandra, há 12 anos no partido, socióloga por formação, aponta o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, que militou na juventude petista, como exemplo inspirador aos jovens do partido.

O PCdoB é um caso clássico de partido que se apoia na boa aceitação que tem entre os jovens para se manter forte nas urnas. Segundo Ricardo Abreu, secretário nacional de Juventude do PCdoB, 35% de seus 103 mil filiados têm menos de 29 anos. Todo jovem que integre o PCdoB é orientado a também fazer parte da União da Juventude Socialista (UJS), que conta com filiados de outras siglas. Desde 1991, o partido está no comando da União Nacional dos Estudantes (UNE). Um terço dos diretores da UNE é do PCdoB.

Conseguir cavar espaços na UNE é um objetivo de todas as juventudes partidárias, do P-SOL ao PSDB. Neste ponto, as críticas convergem: “Lá (na UNE) não há democracia interna”, acredita o tucano Antonio Carlos. Fábio Nassif, do P-SOL, acredita que dependência, em especial a financeira, da UNE em relação ao governo federal dificulta o debate. “Houve instrumentalização dos movimentos estudantis”, diz.

Outro polo de disputas dos partidos é pelo controle dos Diretórios Centrais de Estudantes (DCEs) das universidades. Na Universidade de São Paulo (USP), as eleições para o DCE em 2010 foram cercadas de acusações de fraude e movimentos partidários por todas as partes envolvidas. Três chapas se destacaram na disputa: ‘Nada Será Como Antes’, ligada ao PSTU e que buscava a reeleição; ‘Transformar o Tédio em Melodia’, com integrantes do P-SOL; e a ‘Reconquista’, dita apartidária. Pouco cotada no início, esta última foi ganhando simpatizantes com um discurso que se aproveitava dos recentes conflitos ocorridos na USP, como greves, entrada da polícia no campus e acusações de que a atual gestão, em vez de defender os alunos, articulava em prol de seus interesses partidários apenas.

Nesse cenário, a ‘Reconquista’ pregava a não participação partidária de seus integrantes (quem se filiasse a partido político seria expulso). Realizaram piquetes, que foram chamados de “greve da greve”, pedindo a volta das aulas. Ganharam apoio na Escola Politécnica (Poli) e na Faculdade de Economia e Administração (FEA) e ainda conseguiram espaço na grande imprensa.

Na hora do voto, veio a certeza dos integrantes da ‘Reconquista’ e até adversários de que haviam passado de azarões a favoritos. A credibilidade da apuração foi posta à prova pela suspeita de fraude em três urnas. No fim, uma foi impugnada, na FEA, onde a ‘Reconquista’ esperava ganhar pelo menos 80 dos cerca de 110 votos lá contidos.

A chapa ‘Transformar o Tédio em Melodia’ venceu, com 2,5 mil votos, contra 2.455 da Reconquista. Esta, soube-se depois, teve apoio da Juventude do PSDB, que aconselhou seus integrantes alunos da USP a votarem na chapa, inclusive com mensagens via e-mail, às vésperas da eleição, como lembrete, informação confirmada por jovens tucanos.

A troca de mensagens de filiados e simpatizantes dos partidos em comunidades, na web, é um amálgama de opiniões correntes nesses grupos. Na página da juventude partidária e no site de relacionamentos orkut, os jovens petistas perdem o pudor em dizer o que acharam da saída da ex-ministra Marina Silva do partido: em pesquisa postada na página, 47% disseram que Marina “já vai tarde”, enquanto 26% se manifestavam pela permanência da senadora.

Na página da Juventude do DEM, uma das mais organizadas e ativas no orkut, com 3.994 membros, uma das enquetes de maior sucesso na comunidade é a que pergunta qual a posição dos demistas no movimento estudantil: 31% responderam “Sou oposição”. Outros 31% disseram “Não faço nada! Participar de movimento estudantil é coisa de comunista”.

O PSDB diversificou sua atuação na rede, com páginas administradas por simpatizantes diversos. Há portais, como o tucano.org, que posta desde vídeos com gente famosa falando mal do governo e uma “tucanopédia”, com breve histórico dos filiados e link para seus respectivos blogs, até sites dedicados a falar mal do governo federal, como o “gente que mente”, cuja missão é desmentir estatísticas e realizações apresentadas por Lula e Dilma. “Para convencer o jovem, é preciso mostrar que você também domina o universo dele. Em Estados como São Paulo, onde o acesso à internet é muito difundido, isso pode definir uma eleição”, acredita Felipe Gomes, secretário-geral da juventude tucana em São Paulo. No Estado, serão quase 5 milhões de eleitores entre 16 e 24 anos nas eleições de 2010.

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