Guerra é guerra, por Rui Daher

Por Rui Daher

Quando na oposição, em textos e discussões políticas, sempre respeitei o presidente então em exercício, Fernando Henrique Cardoso. Havia lido muito do que ele escrevera, via inteligência em sua visão do capitalismo e dos limites do socialismo e, mais, admirava a professora Ruth Cardoso, de quem participara de seminários impecáveis na Ciências Sociais (USP).

Lembro-me da invasão de sua (?) fazenda em Buritis (MG). Condenei. Da inclusão de seu filho, Paulo “Disney” Cardoso, em vários escândalos de corrupção. Soube, mas esperei provas. Conhecedor de seu envolvimento extraconjugal com jornalista da TV Globo, silenciei, em respeito a Dona Ruth. Apesar de sempre ter declarado voto em candidatos do PT, fui contra a postura do partido em relação ao Plano Real e algumas iniciativas boas e republicanas, principalmente em seu primeiro mandato. Da mesma forma, seria burro desqualificar certos membros de sua equipe econômica.

Claro que percebia um neoliberalismo equivocado mandando forte, esquecido das plataformas sociais e sendo enganado por efeitos da globalização, deslumbrados que estavam.

Continuava na oposição, a mais à esquerda que fosse minimamente viável, mas dentro do respeito à Constituição e ao Judiciário. Sabia da dificuldade que foi voltar à democracia, e reconhecia nisso o papel do PSDB. Nunca bradei ou fui a favor do “Fora FHC”. No futuro, ele poderia atentar para a desigualdade social. Cultura política tinha.

Confesso nenhum arrependimento. Estávamos em período de transição para a democracia e a minha postura combinava com as minhas índole, paciência e equilíbrio.

Além do que, trabalhava diariamente empregado do capital e com a mesma frequência pensava no aviltamento dos direitos dos trabalhadores. Situação incômoda, para mim, porém, dicotomia fácil de contornar, pois nunca escondida de qualquer patrão, todos de direita.

Passaram-se 20 anos. Não sou imbecil. Aos 70 anos, sou capaz de entender o ódio de classes que se instalou no País. Algo de se prever qualquer fosse e de onde partisse a tentativa de desviar o curso do acordo secular de elites aqui perpetuado.

Daí aproveitar observações feitas por Luís Nassif, em dois artigos para o GGN, “FHC, sem medo do ridículo” e “Os ataques a familiares como estratégia jurídica”.

Quanto ao primeiro, volto a desculpar FHC da forma mais mundana possível. A vaidade do apaixonado que precisa do ócio para reservar maior tempo para o amor. Mas a quem ele ama mais, sua namorada ou a si próprio? É dúbio. Procurado pela imprensa, tolo não é, nem mesmo se envergonha de figurar na capa da revista Veja e aceitar o slogan comercial: “nunca na história deste país se sentiu tanta falta de um ex-presidente”.

Pode ser mais ridículo? Será que a vaidade o faz acreditar?

Vão longe os anos em que viveu o francês, Michel de Montaigne, 1533 a 1592. Há cinco séculos, em um de seus Ensaios que tratava da vaidade, já entendia Fernando Henrique Cardoso:

“Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem (…) Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o quanto é ele para o conhecimento público. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”.

Serei mais chulo: lembram-se de como fazíamos quando na bicicleta sob os olhares de nossas mães? “Olha, mãe, sem as duas mãos”. É FHC, hoje em dia, declarando ao Estadão que Dilma, para recuperar a credibilidade, deve barganhar os ajustes econômicos por sua renúncia?

No segundo texto de meu landlord neste GGN, um trecho esclarece que, mais uma vez, abandonamos a democracia:

“Mas quando existe um alvo comum – para Procuradores, Delegados e mídia -, esses limites são facilmente contornados e o clima da guerra santa se sobrepõe a tudo”.

Foi assim com Getúlio Vargas e o “mar de lama”; com João Goulart e a ameaça comunista; com Dilma e a Lava Jato.

Faz-me lembrar a justificativa que se dá a genocídios e estupros: “Guerra é guerra”.

No Brasil, estamos numa. Com apenas um invasor.

ATENÇÃO: “O DOMINÓ DE BOTEQUIM” continua em reforma. DESCULPEM O INCÔMODO

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