Guilherme Leal e o BNDES

Do Valor

Aliado de Marina vê risco maior no BNDES

Ricardo Balthazar e Daniela Chiaretti, de São Paulo
25/03/2010

O fortalecimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foi decisivo para ajudar o Brasil a superar a crise internacional, mas a expansão de sua carteira de empréstimos expôs a instituição a riscos que deveriam ser acompanhados com atenção redobrada, na avaliação do empresário Guilherme Leal, co-presidente do conselho de administração da fabricante de cosméticos Natura.

“Precisa haver muita transparência nessas políticas e o tempo precisa mostrar que esses investimentos serão feitos com muito boa qualidade, para que o BNDES não crie casos de insucesso e de inadimplência”, disse o empresário numa longa entrevista ao Valor. “O BNDES precisa estar muito atento a essas escolhas, à maneira como tem feito a seleção dos seus investimentos.”

Leal acredita que o banco tem sido bem administrado, mas acha que o uso de grandes volumes de recursos públicos para capitalizá-lo tornou necessária maior transparência na maneira como suas decisões são tomadas. No ano passado, o BNDES aprovou R$ 104 milhões em empréstimos para investimentos da Natura, empresa que Leal ajudou a criar e onde tem 22% das ações.

Cotado para ser o companheiro de chapa da senadora Marina Silva (PV-AC) em sua campanha à Presidência da República, Leal sempre foi um empresário discretíssimo. Seu pensamento virou alvo de crescente curiosidade com a proximidade das eleições. Ele ainda não definiu se aceitará o convite de Marina para ser o seu candidato a vice-presidente. Mas Leal certamente será uma pessoa influente na campanha, mesmo se ficar fora do palanque.

O empresário diz que Marina “não fará aventuras” na gestão da economia se for eleita. Segundo Leal, ela está mais interessada em procurar uma estratégia para ajudar o país a crescer sem agravar seus desequilíbrios sociais e ambientais. “Temos que crescer qualificadamente e não crescer a qualquer custo”, diz Leal. A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida no início da semana no escritório que ele divide com os sócios em São Paulo.

Valor: Por que o senhor ainda hesita em assumir a candidatura a vice-presidente?

Guilherme Leal: Meu histórico não é de atuação na política partidária. É um passo difícil para quem militou no setor privado e no terceiro setor, sempre em organizações apartidárias. Mas uma eleição para presidente da República é uma oportunidade importante de discutir o futuro do país, que não pode ser desperdiçada. Quando Marina se propõe a fazer isso com sua candidatura, por mais que o ambiente seja estranho para mim, o bom senso diz que é uma oportunidade de elevar o nível do debate, de uma forma que não seria possível sem trazer para uma campanha.

Valor: O que falta para decidir?

Leal: A decisão está se aproximando. Não vejo muito como evitar. Venho me preparando, discutindo, avaliando, tomando providências devidas para entender quais são os riscos. Estamos numa etapa final de avaliação.

Valor: Que riscos o preocupam?

Leal: O Brasil infelizmente é muito mais violento do que nós gostaríamos que fosse, e esse é um dos grandes desafios com que precisamos lidar. Além disso, infelizmente já tivemos empresários que se aventuraram, ou melhor, que se enveredaram pela política, como Olavo Setubal e Antonio Ermirio de Moraes. Sabe-se à boca pequena que eles se retiraram da política com certo grau de frustração, por causa de um jogo não tão ético que foi feito com eles. Um tipo de assédio, pressões que eles e suas empresas acabaram sofrendo. Mas tenho confiança de que isso não aconteceria. O Brasil está evoluindo e está pronto para enfrentar isso.

Valor: O senhor tem medo de sequestro se houver uma exposição maior do seu patrimônio pessoal?

Leal: Não tenho nada a esconder. Não sou vestal, mas tenho uma vida bastante transparente. Sou um extraterrestre, de certa forma, na sociedade brasileira. Mas sempre fui muito discreto na vida pessoal. Nunca me expus, nunca fui frequentador de colunas sociais e nunca fiz demonstrações de riqueza. Sem fazer julgamento de terceiros, essa sempre foi minha opção. De repente ser obrigado por lei a fazer a apresentação do patrimônio cria um certo incômodo. Não tenho nada a esconder, mas não tenho vocação para celebridade. Esse grau de exposição me incomoda.

Valor: Se for candidato, o senhor pretende tomar medidas para separar seus negócios da campanha?

Leal: Assim que eu decidir, saio do conselho de administração da Natura. Não vou vender minha participação. Só vendo se eles me garantirem que eu tenho a valorização que o [recém-empossado presidente do Chile, Sebastián] Piñera teve [ao vender sua participação na LAN, a maior companhia aérea chilena]. Se eu tiver 400% de valorização, talvez eu até… (risos). Sairei de todos os conselhos de que participo hoje.

Valor: O senhor já sabe de que forma contribuirá financeiramente com a campanha de Marina e o PV?

Leal: Entendo pouco disso. Minha experiência política é muito pequena. Tenho disposição obviamente de contribuir, dentro dos limites que a própria política impõe. Meus limites são muito mais éticos do que econômicos. Não posso fazer algo que seja interpretado como uma influência indevida sobre o partido. Vou contribuir, mas também vamos buscar o grupo de simpatizantes que temos. Marina representa um espaço de renovação da política brasileira e conta com o apoio de pessoas que consideram esse arejamento necessário.

Valor: Nas suas conversas com outros empresários, que tipo de curiosidade eles manifestam sobre Marina e suas ideias econômicas?

Leal: Eles querem saber quem ela é. Sobre o Banco Central, todo mundo já sabe o que ela pensa. Está claro que Marina respeita muito os últimos 16 anos e por aí não vem uma grande ruptura. Aliás, não vem de ninguém. A sociedade brasileira evoluiu. Não há espaço para aventuras. Nem da parte de Dilma, nem da parte de Serra, nem da parte de ninguém. Marina não fará aventuras. Estamos num bom momento. O Lula não gosta de falar isso, mas ele não teve coragem e não fez ruptura, e essa foi uma grande virtude dele. Se tivesse feito ruptura, teria sido um desastre.

Valor: A deterioração recente das contas públicas o preocupa?

Leal: Existe um certo risco se quisermos manter os gastos públicos, os gastos das famílias e os investimentos, todos crescendo. Algum tipo de ajuste vai ter. Não há milagres a serem feitos. A expectativa é que, com o crescimento econômico, deve continuar existindo espaço para que esse ajuste dos gastos públicos possa ser feito de maneira gradual. Não há espaço para fazer grande redução da carga tributária, mas provavelmente terá que haver certa austeridade para conter o crescimento dos gastos.

Valor: Nos últimos anos milhões de brasileiros saíram da pobreza, entraram na classe média e passaram a consumir bens que antes não conseguiam comprar. Mas a expansão do consumo é uma ameaça para os recursos naturais do planeta. Como convencer essas pessoas de que não é possível crescer sem se preocupar com o desenvolvimento sustentável, a questão que ela definiu como eixo da sua campanha?

Leal: Incorporar a consciência de que o mundo enfrenta uma crise ambiental não significa absolutamente que vamos congelar a situação em que estamos. Temos uma das piores distribuições de renda do mundo e precisamos continuar reduzindo as diferenças e melhorando as condições de vida das pessoas. Isso implica em aumentar as possibilidades de consumo das classes D e E. Ninguém está dizendo que não temos que crescer. Mas temos que crescer qualificadamente e não crescer a qualquer custo.

Valor: Como isso será traduzido para o eleitor na campanha?

Leal: As pessoas das classes D e E podem não ter tido acesso a uma educação de qualidade, mas não são burras, não são desprovidas de inteligência. Elas logo perceberão, se já não perceberam, que comprar um carro, ainda que financiado em dez anos, para ficar parado no tráfego de uma cidade como São Paulo, e levar cinco horas para se deslocar de casa para o trabalho, não é qualidade de vida. Propor a continuidade de um crescimento que oferece este tipo de qualidade de vida é um engodo. É o fim da feira.

Valor: Qual é a alternativa?

Leal: Não estou dizendo que amanhã vamos avisar as pessoas que não podem comprar mais carros. Eu vou continuar com os três carros que eu tenho e você não vai comprar mais nenhum? Não é isso. Temos que transitar para outro estágio. Existe uma crise ambiental que se manifestará de maneira explosiva se não for encarada. Precisamos levar isso em consideração e não fingir que o problema não existe. Tem que planejar as cidades, evitar o desmatamento, pensar uma nova agricultura, outra matriz energética, a educação das crianças. É uma visão estratégica, de longo prazo. Fala-se muito em gestão hoje em dia. Mas quem está gerindo o hoje não está vendo o precipício que está ali na frente.

Valor: Quando Marina pretende articular esses conceitos com propostas de governo mais específicas?

Leal: Ela não tem a pretensão de ser a iluminada que vem e diz quais são as soluções. É um processo coletivo de criação. Não estou falando aqui como representante da campanha dizendo o que vamos fazer. É um processo. Um estadista, um visionário como Marina define um grande rumo e sabe que é um processo coletivo que vai elaborar as coisas. O [presidente dos Estados Unidos, Barack] Obama sabe que está frito se não reduzir sua dependência de combustíveis de origem fóssil. Ele não sabe qual é a solução. Mas sabe que se botar dinheiro em ciência e tecnologia para procurar a solução do problema, algum sucesso ele terá.

Valor: É uma iniciativa que poderia ser replicada no Brasil?

Leal: Obviamente não temos os recursos que os EUA têm. Mas qualquer governo que leve a sério essa transição que o Brasil precisa fazer tem que ter como eixo educação, ciência, tecnologia e inovação. Nosso patrimônio de recursos naturais é o grande diferencial comparativo que o Brasil tem hoje para ser uma das grandes lideranças do século 21.

Valor: O que o senhor acha da maneira como tem sido conduzido o debate sobre a exploração dos campos de petróleo da camada pré-sal?

Leal: A discussão sobre o uso desses recursos não parece suficientemente endereçada para gerar as tecnologias que serão predominantes na segunda metade deste século. O petróleo é um combustível que claramente está datado. Existem dúvidas sobre o ponto ótimo da curva de preços em que se deve investir na exploração desses campos. Mas temos que direcionar os recursos que forem gerados pelo pré-sal para a construção do futuro, da nova fronteira tecnológica. Se não nos prepararmos para isso, mais uma vez ficaremos para trás, como no século passado.

Valor: O BNDES assumiu nos últimos anos um papel decisivo na formação de grandes grupos empresariais que dominam alguns setores da economia do país. Que avaliação o senhor faz dessa política?

Leal: O BNDES é uma instituição respeitabilíssima e o Brasil deveria ter orgulho dele. É uma ilha de excelência dentro de um Estado cheio de deficiências. No enfrentamento da crise, ter um instrumento como o BNDES foi da maior valia. Houve uma capitalização muito significativa do banco com recursos do Tesouro. Estamos falando de mais de R$ 100 bilhões do Tesouro, que de certa forma é um dinheiro subsidiado. Acho que precisa haver muita transparência nessas políticas e o tempo precisa mostrar que esses investimentos serão feitos com muito boa qualidade, para que o BNDES não crie casos de insucesso e de inadimplência.

Valor: O senhor acha que o banco ficou exposto a riscos maiores?

Leal: Estou dizendo que ele precisa ser muito bem administrado. Precisa continuar a ser bem administrado. É um volume de dinheiro público muito sério, num país que tem escassez de recursos para investimento. O risco aumenta. E essa seleção precisa ser feita de maneira muito criteriosa e transparente. Estou dizendo que o BNDES é um instrumento super-relevante, que qualquer país precisa ter, para estimular políticas de desenvolvimento. Mas a responsabilidade pela transparência e pela qualidade dos investimentos aumenta proporcionalmente à relevância da sua atuação. O cuidado tem que ser redobrado. O BNDES precisa estar muito atento a essas escolhas, à maneira como tem feito a seleção dos seus investimentos.

Valor: Falta transparência na atuação do banco?

Leal: No caso recente que houve com os frigoríficos, revelou-se que alguns cuidados anteriores não haviam sido tomados pelo BNDES. O banco apoiou a consolidação de algumas empresas e logo em seguida veio a se revelar que elas tinham relação com desmatamento e outros problemas ambientais. A resposta foi bastante positiva, por parte do BNDES e por parte das empresas. Esse pode se tornar um caso exemplar de como dá para fazer isso direito. Se houver planejamento, estabelecendo melhor certas condições, no caso ambientais, do tipo de pecuária que se deseja fazer, dá para o BNDES ser um indutor muito forte na boa direção. Se essa política não está claramente estabelecida, às vezes a coisa desanda. Nesse caso houve uma correção bem rápida.

Valor: A discussão do novo Código Florestal, que tem oposto produtores rurais e ambientalistas no Congresso, pode não ser concluída este ano. Como o senhor acha que o problema deveria ser enfrentado?

Leal: Precisa prevalecer o bom senso. Há questões que precisam ser ajustadas na legislação atual, mas não pode existir uma tentativa de pura e simplesmente destruir uma legislação que vem sendo construída com a participação de toda a sociedade brasileira há mais de duas décadas. Temos que desideologizar esse diálogo. Há ajustes necessários para que os produtores possam produzir e gerar renda preservando o ambiente. Marina nunca foi contra a produção ou o produtor rural. Mas não podemos destruir as próprias bases da produção. Se a gente destrói a Amazônia, a gente vai ter uma modificação de clima absolutamente catastrófica para nossa produção agrícola.

Valor: E os produtores rurais não sabem disso?

Leal: Muitas lideranças do setor rural estão convencidas de que para ocupar espaço no mercado internacional com valor adicionado para as suas marcas, precisam adotar boas práticas. Isso está no interesse de todos, seja na perpetuação dos seus negócios, seja no valor dos seus produtos. Não existe essa figura do ambientalista contra o produtor. Existem algumas cabeças mais retrógradas que ainda querem defender uma coisa de produzir a qualquer custo, e existem alguns xiitas ambientalistas que não querem ceder, querem proteger a qualquer custo o ambiente. Precisa eliminar os extremismos e produzir um diálogo saudável com quem tem bom senso.

Valor: As grandes hidrelétricas que o atual governo quer construir na Amazônia têm sido muito criticadas pelos ambientalistas. O senhor concorda com essas críticas?

Leal: A energia hídrica é um bom recurso, mas há equívocos no planejamento da matriz energética. Parece ser fragmentado, obra a obra, usina a usina. Não se considera o futuro que se quer dar à bacia hidrográfica como um todo. Esta discussão não é suficientemente transparente. Não se debate claramente a demanda, o uso de fontes alternativas, as perdas nos linhões de transmissão de energia, as estratégias de conservação. Veja o investimento na usina de Belo Monte. Por um lado, ele é bom porque precisamos investir em geração de energia para evitar riscos lá na frente. Mas ele é muito ruim porque afeta quilômetros e quilômetros de rio e populações que estão ali há centenas de anos.

Valor: O governo tem um plano ambicioso para expandir o uso da energia nuclear no Brasil e instalar novas usinas em vários Estados. O senhor acha que é uma boa ideia?

Leal: A posição de Marina é clara: no Brasil não faz sentido, pelo custo. Ela é mais cara do que a energia eólica. A questão sobre a segurança das usinas ainda não foi resolvida, nem a da disposição dos resíduos radioativos.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora