As guerras do Paraguai e a ameaça imperialista no continente

As guerras do Paraguai

É muito mais fácil, muito mais cômodo e muito mais barato, não exige derramamento de sangue, controlar a opinião pública através dos seus órgãos de divulgação, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupação – João Calmon, deputado federal, em 13 de abril de 1966, em depoimento à CPI que investigou o caso Globo/Time-Life

Muitas são as formas de dominar uma região, e talvez a mais antiga delas seja provocar a divisão de países vizinhos. Um bom exemplo foi a Guerra do Paraguai, maior conflito armado internacional no continente, que entre 1864 e 1870 colocou este país em disputa com Brasil, Argentina e Uruguai – a Tríplice Aliança. Há diversas versões para as origens dessa guerra. Uma delas dá conta de que o Paraguai havia invadido a então província de Mato Grosso; outra afirma que a causa é anterior a este fato, e seu estopim seria a intervenção brasileira no Uruguai, em 1863, para pôr fim à guerra civil naquele país e substituir o governo, o que contrariou os interesses paraguaios.

Seja como for, o fato é que no meio da guerra o Brasil estava com dificuldades na organização de suas tropas, faltavam alimentos, a comunicação não funcionava a contento e epidemias causavam baixas no Exército. Um fato determinante na Guerra do Paraguai foi o apoio ostensivo prestado pela Inglaterra aos países da Tríplice Aliança: dinheiro e apoio militar não seriam mais problema.

Para os ingleses era importante enfraquecer o Paraguai, que à época era o país mais próspero da região. Independente das potências européias e com a economia mais avançada da região, o Paraguai era um exemplo que a Inglaterra não gostaria que fosse seguido. O resultado da guerra foi tenebroso para os paraguaios. Nada menos que 75% da população foi exterminada, sobretudo os homens. Estima-se que 606 mil pessoas foram mortas, de um total de 800 mil. A economia ficou em frangalhos, voltando a ser centrada na agricultura. Até hoje o país não se recuperou.

Cento e quarenta anos após o fim da Guerra do Paraguai, estamos diante de outro episódio que busca dividir os países sul-americanos. E justamente na Copa do Mundo de futebol, que deveria servir para fomentar a união dos povos. Para além do preconceito de narradores de mente colonizada, que torcem descaradamente para as seleções européias contra as latinas, houve um fato gravíssimo de racismo e preconceito. Uma “reportagem” veiculada pelo canal SporTV, das Organizações Globo, zombou dos hábitos e costumes do Paraguai. Logo no início o locutor afirma: “O Paraguai é um paraíso obscuro do mundo”. Entrecortado por cenas da seleção paraguaia e da modelo Larissa Riquelme, um dos trechos exibe cenas de paisagens devastadas com textos como “um lindo lugar para se gozar as férias”. O Paraguai e seus habitantes, mais uma vez, foram bombardeados por uma instituição brasileira.

O jornal paraguaio La Nación protestou. Em texto editorial, afirma que a emissora “ironiza nossas comidas e nossos costumes” e comemora a derrota da seleção brasileira: “A laranja mecânica se encarregou de fazer justiça e mandou pra casa quem tem no coração uma raiva desnecessária contra uma nação pobre, mas digna”.

O incidente diplomático – que se soma à provocação de propagandas de cervejas ou da TV Globo ao povo argentino – ocorre num momento ímpar para as relações do Brasil com seus vizinhos latino-americanos. No último encontro da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão das Nações Unidas, realizado no início de junho, em Brasília, o presidente Lula foi recebido como o grande líder da região. Alicia Bárcena, secretária executiva da Cepal, declarou: “a liderança de Lula tem sido uma inspiração para nossa instituição”.

O tema do discurso de Lula foi justamente a igualdade entre os povos latino-americanos. O presidente brasileiro destacou que hoje existe um novo conceito de integração, que busca um mundo multipolar e sem confrontos. “A democracia está instalada no continente e o motor são os setores pobres, as classes historicamente excluídas”. O encontro da Cepal foi solenemente ignorado pelas corporações brasileiras de mídia.

Dados da Organização Mundial do Comércio mostram que o comércio sul-sul cresceu aproximadamente 50% entre 2000 e 2007. E não foi um aumento apenas quantitativo, mas também qualitativo. Entre 2005 e 2007, mais de um terço dos produtos negociados possuíam valor agregado, como eletro-eletrônicos, maquinaria e componentes mecânicos. Em 1995 os produtos com valor agregado comercializados na região correspondiam a 8% do total.

O atual presidente paraguaio, Fernando Lugo, vem causando desconforto às classes dominantes ao adotar um modelo de governo alinhado aos países que hoje encarnam o projeto de esquerda no continente.

Ao estimular preconceitos entre países da região, a Rede Globo nos faz lembrar a história de seu nascimento. Um acordo com o grupo estadunidense Time-Life permitiu o aporte financeiro necessário para que a Globo desbancasse a TV Tupi e se constituísse como a maior rede de comunicação do país. O caso virou CPI, já que na época, início da década de 1960, a constituição Federal não permitia a participação de grupos estrangeiros na mídia brasileira. Mas para o escritor Roméro Machado, que foi controller da Fundação Roberto Marinho, o caso vai além. Em artigo publicado na Tribuna da Imprensa, ele afirma:

– O escândalo Globo/Time Life não é meramente um caso de um sócio brasileiro (Roberto Marinho) que aceita como sócio uma empresa estrangeira (Grupo Time-Life), contra todas as leis do país. O escândalo Globo/Time-Life é mais do que isso. É antes de mais nada um suporte de mídia que visava apoiar, dar base, sustentação e consolidar a ditadura no Brasil, apoiada e supervisionada pela CIA, por exigência dos Estados Unidos, comandado por terroristas da CIA, como Vernon Walters e Joe Walach, sendo este último com emprego fixo na Globo, como “representante” do grupo Time-Life.

O desenvolvimento da tecnologia da comunicação, a alta concentração que o setor experimenta no Brasil e o elevado índice de analfabetismo no país fazem com que as emissoras de televisão adquiram um poder extremamente elevado, sem parâmetros de comparação com outros países. Sabemos que a mídia é, hoje, a instituição com maior poder de produzir e reproduzir subjetividades – ou seja, de determinar formas de sentir, pensar, agir e viver. Há outras instituições, como Igreja, Família, Escola, Universidade, Forças Armadas, entre outras. Mas a mídia é a única que atravessa todas elas, alcançando a sociedade como um todo.

Cento e quarenta anos após a Guerra do Paraguai, é preciso estar atento. As potências imperialistas que lucram com a divisão do continente têm representantes poderosos em nossa América.

Marcelo Salles, jornalista, é colaborador do jornal Fazendo Media (www.fazendomedia.com) e da revista Caros Amigos, da qual foi correspondente em La Paz entre 2008 e 2009. No twitter, é @MarceloSallesJ

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