O círculo de poder de Mubarak

25/02/2011 – 10h02
Círculo de Mubarak fica exposto

Por Cam McGrath, da IPS

Cairo, Egito, 25/2/2011 – Os funcionários que gravitavam em torno de Hosni Mubarak foram intocáveis durante anos, mas a queda do mandatário os deixou sem proteção. Agora, são investigados por graves acusações de corrupção, e muitos no Egito esperam que, finalmente, seja feita justiça. “É um tempo auspicioso para todos os egípcios”, disse Sherif El Sharkawy, dono de um pequeno negócio no Cairo. “Vimos durante anos como esses homens roubavam nosso país impunemente”, acrescentou.

Ativistas anticorrupção acusam Mubarak e seu grupo de tratar o Egito como se este fosse seu Estado particular, saqueando seus recursos e acumulando riquezas que escondiam em contas no exterior. Afirmam que um pequeno grupo de funcionários do governo e grandes empresários com estreitos vínculos com Mubarak recebiam tratamento preferencial em negócios com terras, e vendiam bens públicos para enriquecer.

As suspeitas de corrupção sempre existiram, mas nunca foi fácil prová-las. A evidência entregue a promotores e agências anticorrupção era rotineiramente ignorada, afirmam ativistas. Denunciantes e jornalistas que escreveram sobre esses casos foram alvo de ataques, multados ou presos.

Ahmed Sakr Ashour, professor de Administração de Negócios na Universidade de Alexandria, disse que as agências anticorrupção egípcias se tornaram ineficazes devido a uma legislação que as submeteu ao controle do presidente. Só se prosseguia com as denúncias quando havia autorização do mandatário. Embora a queda de Mubarak, no dia 11, tenha dado a essas agências maior independência, a má coordenação delas, quase meia dezena, e a presença de gente leal ao antigo regime entre suas fileiras pode prejudicar as investigações.

Também é preciso ver até onde os militares, que governam transitoriamente o país, estão dispostos a permitir que seja investigada uma rede de corrupção na qual eles mesmos podem estar envolvidos. “Há muitos conflitos de interesses que podem afetar as investigações”, disse Ashour as IPS.

Analistas afirmam que os próximos julgamentos de quatro altos funcionários do regime de Mubarak poderão servir de termômetro para constatar a disposição dos militares de levar aos tribunais o antigo regime. Os quatro homens, entre eles ex-ministros de gabinete e um ex-líder do Partido Nacional Democrata (PND), de Hosni Mubarak, foram enviados esta semana para um tribunal penal do Cairo, acusados de corrupção.

O ex-ministro do Interior, Habib el Adly – sob investigação à parte por seu papel na organização da mortal repressão contra os manifestantes opositores –, foi acusado de lavagem de dinheiro e extorsão. A justiça congelou as contas de Adly depois que um banco notificou as agências investigadoras que um cliente privado havia transferido US$ 750 mil para seu cofre pessoal. “Não consigo ver nenhuma razão para um funcionário policial, ou qualquer funcionário público, receber tal quantia de dinheiro em sua conta pessoal”, disse Sharkawy.

O ex-ministro do Turismo, Zoheir Garranah, também foi acusado de corrupção. Os promotores dizem que utilizou sua posição para dar tratamento preferencial a amigos e sócios, vendendo-lhes terras públicas por uma fração de seu valor real. Também foi acusado de bloquear licenças para seus competidores operarem, apesar das dezenas de ordens judiciais obrigando-o a se retratar.

Acusações semelhantes foram apresentadas contra Ahmed El Maghrabi, ex-ministro da Habitação. Registros públicos mostram que destinou vários terrenos públicos para a Palm Hills Development (PHD), firma da qual era sócio. Algumas dessas transações foram denunciadas em um tribunal, e pelo menos em uma instância o próprio Mubarak anulou a venda. No entanto, Maghrabi sempre se saiu bem dos escândalos. “Não serei um bode expiatório. Sou inocente”, gritou desde a cela do tribunal quando começou a sessão.

Muitos egípcios sentem especial desprezo por Ahmed Ezz, ex-membro do PND e amigo íntimo e confidente de Mubarak. Seus detratores dizem que utilizou suas ligações políticas para monopolizar a indústria de aço do país, ganhando controle de mais de 60% do mercado. E foi Ezz – afirmam – quem desenhou a fraude das eleições parlamentares do ano passado.

“Ezz administrava a maior companhia de aço no Egito e foi amplamente visto como alguém corrupto”, disse Alia El Mahdi, decano da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas na Universidade do Cairo. “Entretanto, nenhuma das acusações contra ele foi em frente”, ressaltou. O magnata foi acusado de corrupção relacionada com sua polêmica aquisição de autorizações para abrir duas fábricas de aço no Sul do canal de Suez.

Por outro lado, as autoridades egípcias congelaram as contas de dezenas de outros empresários, ex-ministros e funcionários do PND e emitiram proibições de viagem contra eles para impedir que abandonem o país. Os promotores também pediram ajuda internacional para encontrar e repatriar as contas estrangeiras desses acusados.

A organização anticorrupção Global Financial Integrity, com sede em Washington, estima que US$ 57 bilhões obtidos ilegalmente por funcionários egípcios foram tirados do país entre 2000 e 2008. “O grau de corrupção durante o regime de Mubarak foi assombroso. O que se sabe até agora é apenas a ponta o iceberg”, disse Ashour. Envolverde/IPS

(IPS/Envolverde)

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=87327&edt=1

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