O enigma de Ruanda

Que tal refletirmos um pouco a respeito de Ruanda? Não é uma democracia, mas tampouco é uma ditadura sanguinária e corrupta. Aqui de longe, me parece um país que sabiamente percebeu que, neste momento, uma democracia nos moldes ocidentais significaria a volta inevitável das lutas étnicas que cobriram o país de sangue há poucos anos. 

É por isso que vale a pena refletir a respeito de Ruanda. O país é uma espécie de desafio à “ideologia democratista” que se espalhou pelo mundo, e que nada tem a ver com a defesa sincera da democracia em países, como o nosso, nos quais ela tem condições efetivas de acomodar e resolver conflitos sociais latentes. A “ideologia democratista”, como toda ideologia, é uma mentira interessada. Instrumentaliza a defesa da democracia para simplesmente atacar políticas de esquerda, mecanicamente identificadas com os “regimes totalitários” dos tempos da Guerra Fria. 

Não conheço a situação de Ruanda em detalhes, mas me interesso pelo país. Sempre que sai uma matéria nas grandes revistas, procuro ler e me informar, pois me parece um caso interessante do ponto de vista filosófico. É um país que representa um desafio insuperável para essa “ideologia democratista” que infestou o mundo. Tenho para mim que quem realmente se importa com a democracia será capaz de reconhecer em Paul Kagame um homem que luta com todas as forças para que seu país possa alcançar um estado no qual a convivência democrática torne-se finalmente uma opção viável. Isso é ser um autêntico democrata, e não vomitar regrinhas prontas que seriam válidas para qualquer país em quaisquer circunstâncias.

“Nós estamos longe de esgotar nosso potencial”, diz o presidente de RuandaDer  Spiegel

  • O presidente de Ruanda, Paul Kagame, em cerimônia de comemoração  aos 16 anos do fim do genocídio, na capital Kigali

    O presidente de Ruanda, Paul Kagame, em cerimônia de comemoração aos 16 anos do fim do genocídio, na capital Kigali

Em uma entrevista para a “Spiegel”, o presidente de Ruanda, Paul Kagame, 52 anos, discute os fracassos da elite africana, o problema com a ajuda para desenvolvimento que vem do Ocidente e os problemas de reconciliação enfrentados por seu país após o genocídio de 1994.

Spiegel: Sr. presidente, no momento está em andamento a Copa do Mundo de futebol e o mundo está olhando para a África de uma forma raramente vista antes. Por que, 50 anos após a independência, tantos países africanos ainda estão tão atrasados?

Kagame: É verdade, nós estamos atrasados. Infelizmente. Há vários motivos para isso – históricos, culturais e, principalmente, motivos que nós mesmos causamos. Nós estamos longe de esgotar nosso potencial e recursos.

Spiegel: Por que estadistas que não são corruptos e não interessados em encher seus próprios bolsos ainda são exceção na África?

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Kagame: Eu reconheço que isso é um problema. Mas não posso absolver completamente o Ocidente de culpa. Havia líderes corruptos e o Ocidente não apenas os apoiava firmemente, como também às vezes encorajava ainda mais a corrupção.

Spiegel: A China, que de lá para cá se transformou em uma potência industrial, agora parece estar ampliando um papel na África que antes era exercido pelo Ocidente. Os chineses têm um interesse mais honesto na África?

Kagame: Para mim não se trata de se é a China ou o Ocidente que tem um interesse mais honesto em nós. Trata-se de outra coisa. Por que não falamos sobre como andarmos com nossas próprias pernas? Nós não queremos ser sempre as vítimas e servir como campo de batalha para interesses estrangeiros.

Spiegel: Seu continente há muito se mostra à vontade no papel de dependente.

Kagame: Isso é verdade. Nós nos queixamos dos chineses, que levam nossos recursos naturais, poluem o meio ambiente e não deixam nada para trás. Ou do Ocidente, que apesar de não poluir o meio ambiente, também não deixa nada para trás. Nós precisamos avaliar nosso potencial e recursos e então considerar como queremos usá-los nós mesmos – e também como podemos realizar negócios com a China e o Ocidente sem sermos explorados.

Spiegel: Grande parte de seus colegas presidentes na África estão satisfeitos com os bilhões de euros do Ocidente que ingressam no continente. Em Ruanda, o senhor impôs duras restrições aos doadores ocidentais. O que o senhor tem contra a ajuda do exterior?

Kagame: Os casos de ajuda que criticamos são aqueles em que ela cria dependência. A ajuda torna a si mesmo supérflua quando funciona bem. A boa ajuda cuida de fornecer estruturas funcionais e bom treinamento que permite que o país recebedor posteriormente não precise de ajuda estrangeira. Caso contrário é uma ajuda ruim…

Spiegel: …que infelizmente se transformou na norma na África.

Kagame: Sim, porque o Ocidente é tudo menos altruísta. Eu frequentemente me pergunto por que o Ocidente está mais interessado em fornecer ajuda do que comércio justo, por exemplo. Um comércio justo de produtos colocaria muito mais dinheiro nas mãos das pessoas afetadas do que as operações de ajuda humanitária. Eu não quero ser cínico, mas se os países em desenvolvimento forem mantidos atrasados, ouvindo repetidas vezes que são pobres e que esse é realmente seu lugar, então nada mudará.

Spiegel: Algum país serve como modelo para seu caminho para se transformar em um Estado modelo?

Kagame: Há coisas que admiro, por exemplo, a respeito da Coreia do Sul e Cingapura. Eu admiro a história deles, seu desenvolvimento e quão intensamente investiram em sua população e tecnologia. Há não muito tempo eles se encontravam no mesmo patamar de desenvolvimento que nós estamos. Hoje, eles estão muito à frente de nós.

Spiegel: Há eleições livres e honestas na Coreia do Sul. Em seu caso, entretanto, a líder de oposição Victoire Ingabire está sob prisão domiciliar, os jornais são proibidos e não são permitidos partidos. Isso não parece ser uma democracia.

Kagame: O Alto Conselho de Mídia de Ruanda é responsável pela proibição dos dois jornais. E é uma instituição independente. Um dos jornais me comparou a Adolf Hitler, o outro espalhou fofocas falsas. Para ser honesto, eu teria proibido os jornais há muito tempo. Por acaso, editores também são demitidos na Europa quando publicam mentiras.

Spiegel: Mas nenhum jornal impopular é proibido. E em Ruanda, os principais políticos de oposição são aprisionados.

Kagame: O vice de Victoire Ingabire, que voltou do exílio para Ruanda em janeiro, esteve ativamente envolvido no genocídio dos tutsis…

Spiegel: …pelo menos 800 mil tutsis foram mortos em 1994 por membros da maioria hutu.

Kagame: Ele estava viajando com nome falso, ele já reconheceu seu envolvimento no genocídio e um tribunal o condenou. Mas a imprensa internacional ainda escreve, como antes, que líderes de oposição estão sendo presos em Ruanda.

Spiegel: O senhor colocou sua adversária mais perigosa, Victoire Ingabire, sob prisão domiciliar.

Kagame: Nós agora sabemos que ela apoiou as milícias hutus de Ruanda, que agora estão lutando no leste do Congo e são considerados grupos terroristas pela ONU. Nós temos evidência de que ela esteve lá e que transferiu dinheiro para eles.

Spiegel: O senhor espera ser reeleito no início de agosto. O senhor não tem mais nenhum adversário sério.

Kagame: Eu não sou responsável por uma oposição forte. Afinal, nós temos um passado especial: quase 1 milhão de vítimas em uma centena de dias de genocídio. Nós queremos recolocar o país em pé. E temos uma forma diferente de lidar com isso do que os outros.

Spiegel: Quanto progresso o senhor conseguiu com a reconstrução?

Kagame: A Ruanda de hoje é um país diferente daquele de 16 anos atrás –em quase todos os aspectos. As pessoas têm o suficiente para comer, há atendimento de saúde e escolas. Antes, nós tínhamos 800 mil estudantes, mas hoje 2,3 milhões de crianças frequentam o ensino primário, gratuitamente. O setor privado está crescendo. Muito aconteceu. Nós demos empregos e alimentos para as pessoas, o que também lhes dá um senso de dignidade. Se não houvesse nada para comer, então a democracia não significaria nada para elas. A democracia tem pouco apelo para pessoas que estão lutando para sobreviver.

Spiegel: Com esses argumentos, o senhor abre a porta para o abuso de poder. Muitos potentados africanos usaram os mesmos argumentos para justificar suas ditaduras.

Kagame: Por que a noção ocidental de democracia também precisa ser a certa para nós? A diferença é que o Ocidente possui instituições que podem punir a conduta imprópria dos indivíduos. O que levou Ruanda e a África ao declínio foi a falta de prestação de contas por certas pessoas. Quando buscamos fazer com que autoridades ou prefeitos corruptos respondam à Justiça, as pessoas dizem imediatamente que somos repressores. Mas devemos permitir que essas pessoas escapem impunes?

Spiegel: Mesmo hoje, seu país não parece ter completamente se reconciliado após a tragédia de 1994.

Kagame: Reconciliação leva tempo. Às vezes muitas décadas, como mostra o exemplo da Europa. É um trabalho difícil. Como lidar, por exemplo, com pessoas que ainda circulam livremente apesar do fato de que deveriam ser punidas? Das quatro categorias de criminosos que apresentamos em 1994, de apoiadores a instigadores e mentores do genocídio, nós já eliminamos as duas categorias mais danosas – nós não queremos continuar perseguindo essas pessoas. É claro, é difícil para as famílias das vítimas do genocídio aceitarem isso.

Spiegel: O senhor também está lidando com sua própria história pessoal por meio de suas políticas?

Kagame: Minha história é de sofrimento e resistência. Eu tinha três anos e meio quando tivemos que fugir devido aos massacres contra os tutsis de Ruanda. Eu cresci em um campo de refugiados em Uganda e vivi lá por 30 anos. Isso molda o caráter de alguém. Eu perguntava constantemente a mim mesmo: por que esta miséria e fome recaem sobre nós no campo? E por que o restante do mundo permanece calado? Eu tive que lutar arduamente por tudo. Eu queria sair daquilo. Eu queria tomar as rédeas do destino em minhas próprias mãos e escapar do ciclo vicioso de violência retaliatória. Essa luta moldou quem sou hoje.

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