O militarismo americano

Do The Guardian/Estadão

O militarismo domina a sociedade americana

Declarações do general McChrystal foram mostram o trabalho que Obama tem para subordinar os militares ao poder civil

Simon Tisdall, The Guardian – O Estado de S.Paulo

O presidente Barack Obama está às voltas com um problema em relação aos generais dos EUA, que provavelmente não poderá ser resolvido de maneira rápida ou fácil, qualquer que seja o resultado do caso Stanley McChrystal.

O comportamento desrespeitoso do comandante americano no Afeganistão e de seus assessores é o sintoma de um doença de raízes mais profundas e potencialmente perigosa, sugerem os analistas. Assim, os acontecimentos da semana passada poderiam ser considerados um duro golpe contra o país.

Um dos motivos da dificuldade de Obama em fazer frente ao problema é sua inexperiência. Como comandante-chefe estreante, além disso democrata, observadores em Washington afirmam que Obama teve poucas oportunidades de conquistar o respeito dos militares. Seu mal-estar com a herança violenta no Afeganistão e no Iraque é evidente.

Outro motivo é, aparentemente, a disposição dos conservadores americanos, de todas as classes, em uma sociedade cada vez mais polarizada, de adotar o discurso dos membros da equipe do general McChrystal contra os “frouxos da Casa Branca”. O discurso soou como uma crítica de direita, segundo a qual Obama, que nunca serviu o Exército, não tem condições de liderá-lo.

Daí para uma acusação formal de covardia, o passo não é muito grande. “A verdade desagradável é que ninguém na Casa Branca de Obama queria o envio de novas tropas para o Afeganistão”, escreveu o colunista do New York Times, Thomas Friedman, na semana passada. “A única razão pela qual eles enviaram mais soldados é que ninguém sabia como sair de lá. Ninguém teve a coragem de puxar a tomada”, escreveu Friedman.

11 de Setembro. No entanto, a razão principal pela qual o problema de Obama com os generais é maior do que McChrystal está no persistente impacto do legado do 11 de Setembro. George W. Bush definiu os EUA como uma nação perpetuamente em guerra. O Pentágono elaborou toda uma teoria a respeito: a Doutrina da Guerra de Longa Duração, que postula um conflito interminável contra inimigos indefinidos, mas onipresentes.

De acordo com o escritor Andrew Bacevich, as Forças Armadas dos Estados Unidos exercem uma crescente influência política e social em uma sociedade cada vez mais militarizada. Atualmente, os gastos com a defesa nacional aproximam-se de US$ 1 trilhão ao ano. Em comparação, a verba destinada à diplomacia e à ajuda externa é ínfima.

Algumas personalidades, como o almirante Mike Mullen, chefe das Forças Armadas dos EUA, têm um enorme prestígio no Congresso. O general David Petraeus, herói da Guerra no Iraque e novo comandante das tropas no Afeganistão, é considerado por muitos um futuro candidato à presidência pelo Partido Republicano.

Poder civil. Os EUA não se assemelham em nada à Turquia onde, até bem pouco tempo atrás, os governos civis viviam com um medo constante de um golpe militar. Nem Washington é uma capital da África, onde os presidentes, volta e meia, ficam sob a mira de uma metralhadora.

Entretanto, a rapidez com a qual boa parte dos comentaristas e dos analistas da política americana, reagindo ao comportamento sedicioso de McChrystal, passaram a enfatizar a necessidade de controlar os generais, foi um indício do mal-estar criado em razão das tendências atuais.

“A questão mais importante no furor provocado pelo caso McChrystal é a questão central em uma democracia: o controle exercido pelos civis sobre os militares”, afirmou Jonathan Alter, colunista da revista Newsweek.

“Embora certos chefes militares sintam-se perturbados com a Casa Branca de Obama, e por mais que gostem do espírito determinado de McChrystal, o momento das críticas foi absolutamente infeliz. Ninguém pode acreditar que McChrystal seria tão estúpido”, escreveu Alter.

Obama continua desconfiado de seus arrogantes generais e, em grande parte, à mercê deles, pelo menos enquanto perpetua a ideia de um país em guerra e mantém uma interminável ofensiva no Afeganistão.

O Pentágono já resiste ao prazo fixado para julho para o início da retirada de parte das tropas do Afeganistão. Ao mesmo tempo, Petraeus recusou-se, há duas semanas, a descartar a possibilidade de envio de mais soldados – que corresponderia a um segundo reforço de tropas no Afeganistão.

Obama pode não gostar da situação, mas ela não deve surpreendê-lo. No livro que Andrew J. Bacevich escreveu em 2005, O Novo Militarismo Americano, o historiador e ex-coronel do Exército, que ele serviu por muitos anos, afirma que os americanos estão percebendo que estão, cada vez mais, escravos do poderio dos militares e da ideia da supremacia militar global.

Guerra sem fim. No contexto do que chamou de “normalização da guerra”, Bacevich argumentou que a incontestada e crescente superioridade militar americana estimulou o emprego da força, acostumou “a mentalidade coletiva do oficialato” a ideias de predomínio, glorificou a guerra e o guerreiro e destacou o conceito da “superioridade moral do soldado” em relação ao civil.

Nos anos Bush, segundo Bacevich, esta tendência levou também a conceber o presidente americano como uma espécie de supremo senhor da guerra, “culminando em George W. Bush, que se definiu como o primeiro e mais completo presidente guerreiro da nação”.

Considerando essas tendências militaristas, não surpreende que os generais, às vezes, se descontrolem. E, se McChrystal quiser ver em Obama um presidente guerreiro, ninguém ficará surpreso se ele se decepcionar. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA 

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