O Senhor das Moscas líbio

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O Senhor das Moscas líbio

Omar Ashour

28/02/2011

 “Sou uma glória que não será abandonada pela Líbia, pelos árabes, pelos EUA e pela América Latina…revolução, revolução, iniciemos o ataque”, disse aquele que se autodenomina rei dos reis africanos, o decano dos líderes árabes e imã de todos os muçulmanos, o coronel Muamar Gadafi. A declaração resume a reação extremamente repressiva do regime líbio à revolta popular contra a ditadura de 42 anos.

Mas as táticas de Gadafi o isolaram. Será difícil que consiga refúgio no exterior, como o ex-presidente da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali. E o exílio interno, como o atualmente concedido a Hosni Mubarak, será impossível.

Embora a capacidade do regime de cometer massacres em grande escala tenha diminuído, a derrota de Gadafi virá a um custo elevado em termos de vidas humanas. Num cenário extremo, o regime poderia usar armas químicas, como fez Saddam Hussein contra os curdos de Halabja em 1988 ou poderia lançar uma campanha de bombardeios aéreos intensivos, como fez o sírio Hafez al-Assad em Hama, em 1982.

Aí, uma intervenção internacional seria muito provável. Um milhão e meio de egípcios e muitos outros estrangeiros, entre eles cidadãos britânicos, estão na Líbia, em posição extremamente vulnerável. Em seu primeiro discurso durante a crise, Saif Gadafi, o filho “moderado” do coronel, acusou uma conspiração internacional contra o regime envolvendo egípcios, tunisinos e outros agentes estrangeiros. A resposta de pai e filho foi incitar violência contra os estrangeiros.

Outro cenário possível é uma inciativa do Exército, ou de uma parte significativa deste, contra Gadafi e seus filhos. O problema é que o exército líbio não teve condições de funcionar de forma unitária desde o início dos protestos, em contraste com as forças armadas egípcias e tunisianas. Soldados e oficiais têm desertado, muitas vezes com suas tropas, aderindo aos opositores do regime. Dois pilotos da Força Aérea desviaram seus aviões para Malta, desafiando as ordens de Gadafi para que bombardeassem a cidade oriental de Benghazi.

Mas, pelo menos até agora, não houve nenhuma cisão divulgada entre os Comitês Revolucionários, partidários ferrenhos de Gadafi, estimados em cerca de 20 mil combatentes. O mesmo vale para a Brigada 32, comandada por Khamis Gadafi, outro dos sete filhos do coronel. Essa brigada é encarregada de proteger a área de Bab al-Aziziya, em Trípoli, onde o coronel vive em seu simulacro de tenda beduína.

Há décadas são conhecidos os crimes contra a humanidade e de complôs terroristas perpetrados pelo regime de Gadafi. Não foram investigados principalmente porque interesses petrolíferos prevaleceram sobre a indignação moral. 

A Inteligência Militar Líbia, comandada por Abdullah al-Sonosi, as Forças de Segurança Interna, por Khaled al-Tuhami e o Aparelho de Segurança Jamahiriya também permanecem intactos, não havendo notícias de cisões internas. É verdade que a profunda e arraigada rivalidade e desconfiança entre os aparelhos militares e de segurança líbios provavelmente darão origem a cisões que serão um fator chave para minar o regime. Mas, no geral, a natureza e as lealdades tribais do exército líbio o impedem de funcionar como uma unidade coesa, seja no apoio a Gadafi ou em adesão à revolta contra ele.

Lealdades tribais desempenharão um papel fundamental se Gadafi for derrotado nos próximos dias. Rivalidades históricas, vinganças e o porte de armas são generalizados entre as tribos líbias, o que sinaliza a probabilidade de guerras tribais na era pós-Gadafi.

No entanto, sinais do leste da Líbia, agora uma zona “liberada do poder de Gadafi”, indicam o contrário. As rivalidades intertribais são fortes no leste da Líbiamas o nível de organização e de coordenação entre os líderes da rebelião foi notável. Comissões de segurança, médicas e outras organizações foram rapidamente estabelecidas, assim como foram criadas outras instituições rudimentares no Egito pelos manifestantes rebeldes.

Além disso, quando Ahmed al-Qaddaf Dam e Said Rashwan, duas principais figuras do regime, visitaram o Egito e tentaram recrutar tribos com ramificações na Líbia para que atacassem o leste liberto do poder de Gadafi partindo do deserto ocidental egípcio, eles retornaram de mãos vazias. A tribo de Awlad Ali, assim como outras, recusaram generosos subornos que lhes foram oferecidos.

A sociedade civil líbia não é tão desenvolvida quanto as correspondentes egípcia e tunisiana, o que reforça as expectativas de que a queda de Gadafi poderá resultar numa guerra tribal. Mas as lições da sangrenta guerra civil no Iraque pós-Saddam foram aprendidas em todo o mundo árabe, e a dedicação e a maturidade dos jovens tunisianos e egípcios tornou-se um modelo para outros árabes em busca de liberdade e dignidade. O povo líbio pode ser politicamente mais maduro e sofisticado do que acreditam muitos observadores.

A comunidade internacional tem um dever jurídico fundamental em relação à Líbia. Os nomes daqueles que comandam as forças responsáveis pelas mortes que têm ocorrido são bem conhecidos. Se os generais e coronéis, como Abdullah al-Sonosi, Mansour Abdullah e Khaled al-Tuhami, bem como Gadafi e seus filhos, foram colocados em listas de procurados internacionalmente ou se mandados de prisão forem expedidos contra eles, muitos de seus subordinados pensarão duas vezes antes de ordenar a seus soldados que disparem ou bombardeiem.

O Ocidente tem conhecimento há décadas dos crimes contra a humanidade e de complôs terroristas perpetrados pelo regime de Gadafi, especialmente o massacre de Abu Selim em junho 1996, quando mais de 1,2 mil presos políticos foram fuzilados depois de protestar contra condições carcerárias. Não houve, porém, investigação internacional, principalmente porque interesses petrolíferos prevaleceram sobre a indignação moral.

O Ocidente deve aos líbios proteção contra outro massacre. Até agora, o governo Obama e os líderes europeus disseram todas as palavras certas. Mas palavras não são suficientes, é hora de ações concretas.

Omar Ashour é professor de Política do Oriente Médio e diretor do programa de graduação de Estudos sobre o Oriente Médio no Instituto de Estudos árabes e Islâmicos na Universidade de Exeter (Reino Unido). É autor de “The De-Radicalization of Jihadists: Transforming Armed Islamist Movements” (a desradicalização dos jihadis: a transformação de movimentos islâmicos armados). Copyright: Project Syndicate, 2011.

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