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Intervenção militar no governo militar? Fechamento do STF com STF acovardado? Golpe no meio do golpe?, por Paulo Cannabrava

do Diálogos do Sul

Intervenção militar no governo militar? Fechamento do STF com STF acovardado? Golpe no meio do golpe?

por Paulo Cannabrava

Baixada a poeira pós-7 de setembro, devo dizer que é ingenuidade falar em risco de intervenção militar diante de um governo militar de ocupação. Entre nove mil e 12 mil militares estão no Planalto, nos principais centros de decisão. O que está em jogo é a continuidade da ocupação, mantendo a aparência de legitimidade dada pela fraude eleitoral.

Fora de foco também está quem achou que o Bolsonaro fosse dar um golpe com apoio das Polícias Militares e das Forças Armadas e não conseguiu, fracassou. Errado porque era isso mesmo que eles queriam: aumentar a confusão, esticar a corda, manter a estratégia do caos. Eles quem? Os militares que ocuparam o poder através de uma operação de Inteligência, “legitimada” pelo voto em 2018.

Eles não querem “romper”, pois já romperam em 2016 e 2018. Querem manter a institucionalidade porque necessitam de uma máscara de legitimidade como essa que obtiveram com a eleição de 2018. Necessitam também do Congresso, dos partidos, do Judiciário e da mídia. E estão todos se comportando dentro do planejado. 

Eles manejam o Orçamento da União e até mantêm um Orçamento Secreto. São bilhões disponíveis para alimentar os currais eleitorais. O Orçamento para 2022 prevê a contratação de 74 mil novos cargos para a Administração Federal, que serão ocupados por civis ou militares, ao custo de R$ 513 bilhões.

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Serão cabos eleitorais que se somarão aos já 12 mil militares e algumas centenas de milhares de civis engajados no projeto. E há também oficiais e paraças das três forças armadas além das forças policiais flagrante e ilegalmente, descaradamente engajadas no projeto.

Eles também contam com 530 parlamentares do Centrão, com seus currais eleitorais, somam milhões de votos, muitos dos quais comparados por R$ 100 ou até mais. R$ 100 foi quanto o empresário de Pompeia, interior de São Paulo, pagou para 250 cidadãos que colocou em vários ônibus, engrossarem as manifestações pró-governo.

O projeto de captura do poder foi planejado por mais de uma década e conta também com as massas filiadas às várias denominações evangélicas, particularmente aquelas neopentecostais e neopentecostais sionistas, com estratégias de tomada do poder. 

Todos esses agrupamentos citados fizeram um ensaio geral no dia 7 de setembro. Foi um espetáculo grotesco de vilipendio à Constituição e seus princípios. Isso dito pelos próprios supremos juízes do STF. E daí?

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Essa é a máquina institucional com que eles contam para faturar 2022. Acrescente-se que já estão promovendo filmes e publicidade em diferentes mídias tratando de convencer o público de que este é um bom governo. Propaganda antecipada é crime, porém, como todo o sistema é cúmplice, inclusive a Justiça, nada acontece.

Radar dos Fatos, em análise que fez do uso das redes, detectou o uso de robôs na mobilização (manipulação) para o 7 de Setembro de apoio ao governo. Isso custa muito dinheiro, mas, quem é que se importa? Como já disse, é mais um ensaio para a próxima eleição. Eles não contemplam a derrota, ou a volta para os quartéis.

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Esse é o cenário decorrente do fato de não terrem derrubado o governo nas várias oportunidades de tempestade perfeita que se apresentaram ao longo desses quase três anos. 

Luiz Fux, na presidência do STF, falando em nome de todos os magistrados, promotores, desembargadores, advogados e advogadas disse, lendo um texto monocórdio, que ninguém fechará o Supremo! Sem citar o nome disse que houve crime de responsabilidade a ser examinado pelo Congresso. Que Congresso? O de Lira?

Depois dele, falou o Procurador Geral da República, Augusto Aras, para lembrar que desde Aristóteles a democracia se funda na separação dos poderes. Poder de quem, cara pálida? Aras simplesmente argumentou que o Judiciário não tem que se meter com o Executivo.

Fux diz que o crime tem que ser examinado pelo Congresso. Já são mais de uma centena de pedidos de impeachment e um super-pedido que consolida todos os anteriores. Todos na gaveta de Arthur Lira, o presidente da Câmara a quem compete tramitar o processo. Vários partidos que estavam em cima do muro ou apoiando o governo militar se prontificaram a aderir à causa. Os tucanos e até Paulinho da Força, do Solidariedade, passando pelo PSL, PSB e PDT, a favor do impeachment.

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Celso de Mello, ex-decano do STF, diz em entrevista à revista Veja, que o ocupante do Palácio “não está a altura do cargo que exerce. Lhe faltam estatura presidencial e senso de estadista. Triste figura a destorcida mente autocrática de um político medíocre e sem noção dos limites éticos e constitucionais”. 

Senhor decano, com todo respeito, por favor, me diga o quanto de responsabilidade cabe a essa Corte por estar no Palácio esse governo?

Para Jânio de Freitas, jornalista há mais de 50 anos, em artigo publicado na Folha, considera que “por mais de dois anos e meio o Brasil vê, inerte, a construção de um golpe. Por criminosos e seus asseclas. Golpe que o invisibilizará talvez para sempre. Metade, ou mais da população medianamente informada está aturdida. O país parado, à espera. É vergonhoso”.

Vladimir Safatle, filósofo, vai mais fundo na interpretação dos fatos e personagens. Em artigo, publicado na edição brasileira do El País, vaticina que “a esquerda precisa mobilizar a partir da sua própria noção de ruptura, em alto e bom som. Uma ruptura contra a outra. Não há nada mais a salvar ou a preservar neste país. Ele acabou. Um país cuja data de sua independência é comemorada dessa forma, simplesmente acabou. Se for para lutar que não seja para salvá-lo, mas para criar um outro”.

Historicamente, talvez um país não acabe, mas fica inviável. Colonizável. 

Quem acabou? Bolsonaro ou a Democracia?

Agora a mídia se junta aos partidos políticos para criar uma nova expectativa em torno do dia 12 de setembro. Era para ser dos nem-nem, financiados por Washington, que não querem nem Bolsonaro nem Lula. Acabou virando uma grande frente contra o Bolsonaro. Tudo bem, sinal de amadurecimento, um dos inimigos, pelo menos, está identificado.

Qual o objetivo? Mostrar que somos mais? A ver quem grita mais alto? E daí? Qual a consigna? 

Será mais uma manifestação testemunho de que aqui há democracia, liberdade de expressão e de manifestação. Juz Sperniandi garantido, com marcha fúnebre no enterro da democracia. 

Os fascistas estavam lá em Brasília, invadindo na véspera a Praça dos Três Poderes, dizendo que são o povo. Povo endinheirado que lotou todos os hotéis da Capital. Não é o povo que está no sufoco fazendo ginástica para sobreviver a cada mês. Ocuparam a praça com beneplácito da Polícia Militar. Quem é que se importa com isso?

Vejam que as pautas dos manifestantes favoráveis ao governo apontam à não aceitação do resultado das eleições, não só com relação ao voto auditável na urna eletrônica, mas com a ênfase em torno da não obediência aos Tribunais superiores, em que se inclui o TSE e o STF, onde tramitam notícias crimes contra Jair Bolsonaro e a chapa com que conquistou o poder em 2018. É isso que está em jogo, mas, nada acontece.

Realmente vergonhosa a exibição de uma força que não é real e a truculência com que o titular da Presidência da República, ataca as instituições e viola a Constituição. O que vale não é o tamanho do ato. É o ato em si, o que ele significa e a repercussão do ato que é tremendamente maior que o próprio ato.

Há uma imensa batalha que se trava nas redes, e eles é que mantêm a ofensiva e ditam as pautas. As reações das oposições são inócuas porque se dão em cima das pautas que eles colocam. Não entenderam o que é a técnica de diversionismo aplicada pelo núcleo de inteligência do governo militar de ocupação.

Uma só pauta deveria nortear a oposição: a nulidade da eleição de 2018. Derrubar o governo para que não presida as eleições. Apontar o caminho: Independência, soberania e democracia.

Como enfrentar a ofensiva contra as instituições, contra a democracia? Chamar todos a se unirem em defesa da Constituição. Democracia e soberania estão asseguradas na Constituição. Essa a grande arma para a grande frente de salvação nacional.

É o que faltou no pronunciamento que o ex-presidente Lula divulgou no dia 6. O que menos se esperava num momento tão grave como esse é um discurso de campanha, saudosista. O que o seu povo precisa é de uma voz de comando, enérgica, que dê a confiança de que não passarão. Uma voz que una em torno da obediência à Constituição, contra a voz que prega a desobediência civil e o fim das instituições.

Paulo Cannabrava Filho é jornalista e editor da Diálogos do Sul.

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