Não é negacionismo. É plano de morte, por Wilson Luiz Müller

Os genocidas aceitam sem reclamar o título de idiotas. O importante é que o plano de morte não sofra solução de continuidade. Importa que seja levada a cabo a “solução final”.

Em Manaus, capital do Amazonas, a Prefeitura foi obrigada a abrir covas coletivas, chamadas de “trincheiras” - AFP

Não é negacionismo. É plano de morte

por Wilson Luiz Müller

Por essa mesma época do ano passado, escrevi uma paródia intitulada “Quantos falta matar?”.

A inspiração para a paródia foi a experiência do horror da chamada “solução final” do regime nazista. Bem antes disso, a propaganda nazista tinha conseguido naturalizar a matança de judeus. Aos domingos, oficiais encarregados pelos pelotões de fuzilamento levavam suas esposas para acompanhar seu trabalho. Era tão natural como um piquenique dominical.

Quando o mundo tomou conhecimento do genocídio que estava sendo executado pelos nazistas, eles tiveram que encontrar uma solução mais razoável para eliminar os judeus. Os próprios soldados passaram a apresentar problemas psicológicos ao terem que fuzilar milhares de crianças e mulheres.

Para contornar esses problemas, era preciso criar um método de extermínio que fosse mais impessoal e que pudesse matar mais pessoas em menos tempo.

Com o estabelecimento da Solução Final, os campos de concentração passaram a receber judeus de todas as partes da Europa. Os principais campos de concentração foram instalados na Polônia, e os prisioneiros eram levados de trem. O termo usado pelos nazistas era reassentamento, mas esse termo era um eufemismo para extermínio em massa.

Para executar o plano da “solução final”, o qual tinha a pretensão de ser uma solução definitiva para o “problema judeu”, milhões de judeus foram transportados, em vagões superlotados, para serem envenenados, longe dos olhos do mundo, nas câmaras de gás dos campos de concentração nazista.

A paródia usou o paralelo nazista por causa de algumas tristes similaridades com a nossa situação:

– nosso comandante também é um genocida que alimenta a mesma pulsão de morte identificada nos principais líderes nazistas;

– a “solução final” implementada aqui implicava a morte de tantos quantos fossem necessários para se atingir a imunidade do rebanho. Nas palavras dos genocidas pátrios: que morra quem tiver de morrer! Só morre quem tem comorbidades! Todos morrem um dia!

– os condenados à morte morrem aqui, como nas câmaras de gás, longe dos olhos do mundo; somente os profissionais de saúde tem noção do seu sofrimento;

– a morte aqui também foi naturalizada, tratada como inevitável; falta pouco para os genocidas dizerem que é algo desejável mesmo, pois os que morrem já não teriam chances de levar uma vida normal, ou não teriam mais nenhuma contribuição a dar à sociedade;

– o número de mortos aqui está à altura de um plano de morte que merece ser chamado de “solução final”.

Tinha a paródia a intenção de alertar para a repetição do horror. Os sinais que se apresentavam desde o início da pandemia eram nítidos. Por isso, o enredo se desenrola dentro do vagão de um trem. Um maquinista sádico, infeliz com a própria existência, tinha sido contratado para conduzir milhares de indefesos passageiros à morte.

Indignado, o passageiro condenado reflete sobre as razões que levaram tantas pessoas, que se autoproclamam cidadãos de bem, a terem financiado um projeto tão macabro.

Acabrunhado, o predestinado à morte não se conforma com a passividade com que tantos outros se deixam conduzir bovinamente ao matadouro.

O passageiro traz na memória um número: 30 mil teriam que morrer. No mínimo. Sabia o número de cor, de tanto ouvi-lo pela boca do maquinista que agora pilotava o trem.

Apenas 5.000 (apenas! Como encontrar palavras adequadas para falar disso?) tinham sido mortos até o momento em que a paródia foi escrita. Há um ano apenas. Mas o passageiro desconfiava, cruzando informações que trazia na memória, que a meta seria multiplicada cada vez que atingida a meta anterior, de modo que não havia um número certo para a matança ser interrompida.

Apenas o plano de matança era imutável. A meta seria variável, no sentido de ser infinita e nunca alcançável.

Quando a matança começa, nunca se sabe como termina.

Passado um ano, a realidade sobrepujou a ficção de uma maneira aterradora. Hoje são 3.000 pessoas sendo mortas por dia. Dentro de alguns meses, o maquinista do trem da morte terá levado meio milhão de brasileiros ao matadouro.

E ninguém foi capaz de parar o trem. Ao contrário, ele avança em alta velocidade. Cada vez são engatados vagões novos, mais espaçosos, tão apinhados de pessoas, que elas não podem se mexer, não conseguem mais respirar.

E ninguém consegue deter o maquinista, que cada vez se mostra mais ensandecido, mais eufórico com o sucesso da empreitada. Nem ele pensava, ao ser contratado, de ser capaz de entregar números tão impressionantes.

Os planos de matança do maquinista eram desde sempre conhecidos. A morte sempre foi a sua bandeira. Senão a única, pelo menos a mais importante. Foi pela promessa de morte que ele ficou conhecido.

Seria uma grande desonestidade, por parte daqueles que o contrataram, dizer que o fizeram por razões outras que não o de matar gente. Se tinham amor à vida, se queriam construir coisas positivas, por que foram contratar alguém que tinha a arma como símbolo e a morte como inspiração de vida?

A matança que nos atinge é sem precedentes. Essa tragédia só foi possível porque as elites do grande capital se mancomunaram com as elites das instituições do Estado para colocar o maquinista assassino no posto de comando.

Nunca lhes esqueceremos isso. Nem se morrermos por causa disso.

Argumentavam, as elites atrasadas e reacionárias, para justificar suas opções insanas, conhecedoras que eram das intenções malévolas do maquinista, que ele, uma vez no poder,  seria domado pela força do poder econômico ou pela letra morta dos poderes instituídos.

Prevaleceu apenas o plano de morte. Apenas o que sempre tinha sido prometido.

O plano de morte foi e continua sendo a única coisa perene. O que era, o que é, o que será. É o fio condutor da nossa história recente.

O genocida sempre sonhou com uma guerra civil. A matança promovida pela pandemia é a sua guerra possível neste momento. Isso não quer dizer que o risco da guerra civil esteja afastado. Ao contrário. A guerra civil continua sendo uma meta acalentada com carinho. Com pandemia com tudo.

Por que ninguém consegue parar o trem da morte?

De um lado há um plano de morte sendo executado com método e planejamento.

De outro lado, há milhões de pessoas bem intencionadas que se negam a acreditar no plano de morte, apesar de ele ser anunciado sempre de novo, todo dia. Como que para convencer  até os mais teimosos.

Do lado de cá discute-se, à exaustão, não a essência do plano de morte, mas os diversionismos que o lado de lá produz para confundir os bem intencionados.

Aceitam-se as mentiras que são contadas para esconder o que é para ficar encoberto. Aceita-se que a mentira seja simples ignorância dos fatos. A denúncia mais contundente que fazemos é que eles são incompetentes, o que pressupõe – para alegria dos mentores do plano da morte – a nossa concordância com a boa fé deles, tendo eles apenas a má sorte de serem idiotas completos, de não saberem o que que fazer para salvar a vida de tantos irmãos nossos.

E gastamos o nosso tempo tentando convencer “esses ignorantes da ciência” de que eles estão errados, que eles devem vir para o lado da ciência. Mas eles não vem, por mais dados que lhes mostremos. E não vem porque o “negacionismo” é apenas uma máscara – um simulacro – para esconder (mas nem tanto) o plano de morte que norteia a estratégia deles.

Um bom exemplo de verdadeiro negacionismo é o do primeiro-ministro inglês. Ele de fato mostrou-se ignorante por ocasião do início da pandemia. Mas ele não tinha um plano de morte para seu povo. Quando confrontado com a realidade, mudou radicalmente a política de enfrentamento à pandemia.

Mas aqui estamos diante de um plano de morte. O “negacionismo” é apenas um pretexto para que não seiam executadas as medidas que poderiam suspender a matança.

Os genocidas aceitam sem reclamar o título de idiotas. O importante é que o plano de morte não sofra solução de continuidade. Importa que seja levada a cabo a “solução final”.

Veja quem  quiser ver. Ouça quem quiser ouvir.

Não existe preocupação com nada mais. Nem com economia. Nem com o bem-estar da população. Nem com o amanhã. E talvez nem exista preocupação com uma possível reeleição.

Talvez se trate apenas (apenas! Madilto vocábulo! ) de matar e torturar pessoas. Quanto mais, melhor.

Foi isso que ele sempre falou. Foi somente isso e nada mais.

Se o plano é apenas matar mais gente, não importa que a vítima seja de direita ou de esquerda, que seja preto ou branco, pobre ou rico. Importa apenas que o número final seja impressionantemente grande.

Após a “solução final”, o regime nazista começou a desmoronar. Mas não sem antes condenar à morte dezenas de milhares de cidadãos alemães que alguns anos antes teriam dado tudo para passar uma tarde de domingo vendo os judeus sendo fuzilados.

Wilson Luiz Müller – Integrante do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia- AFD

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