“Não vou deixar eles me silenciarem”, diz Patrícia Lélis sobre gabinete do ódio ao Cai na Roda

A Jornalista fala sobre sua trajetória na política, do bolsonarismo ao PT, da sua descoberta como feminista e do gabinte do ódio. Assista

Por Duda Cambraia

Jornal GGN – A trajetória política de Patrícia Lélis vai de um extremo ao outro, migrando do bolsonarismo para a esquerda. Por isso, a jornalista conhece bem os bastidores do Partido Social Cristão e conta suas experiências e descobertas no Cai na Roda deste sábado, 01 de maio, programa exibido na TV GGN.

Hoje, a jornalista política, de 27 anos, é membro do Partido dos Trabalhadores (PT), mas já trabalhou para o PSC, partido de direita. Por isso, Lélis confessa que quando começou a receber muitos ataques nas redes sociais, ela já conhecia, há anos, todas as táticas do partido. “Hoje em dia as pessoas falam de gabinete do ódio, mas as pessoas não param para pensar quando é que isso começou. Quando eu trabalhava no PSC já tinha o gabinete do ódio. Claro que não com a estrutura que temos hoje, mas já existia”.

Várias vezes ao longo da entrevista, Patrícia cita o nome do assessor especial da Presidência da República, Tercio Arnaud Tomaz. “O Tercio, que trabalha hoje para o Bolsonaro, eu não tenho o menor medo de dizer que ele recebe para cuidar do gabinete do ódio e não é de hoje, é desde a época do PSC”, revela em um dos momentos da entrevista.

“Eu vejo que quando Bolsonaro ganhou as eleições, com certeza eles têm mais dinheiro para fazer esses ataques, e começou a ficar uma coisa muito séria, séria a ponto de a gente ir na Justiça e brigar por uma coisa que nem existe”, desabafa. Lélis ainda afirma ter provas de que uma pessoa está sendo paga pelo filho do presidente para atacá-la nas redes. “Eu tenho uma stalker que é paga pelo Eduardo Bolsonaro, eu tenho provas que ela é paga, que ela tá ali junto com o Tércio”, conta.

Do bolsonarismo ao PT

Sobre o seu período no PSC, Patrícia narra que era uma questão de comodidade não ter parado para observar os outros espaços. “Eu nasci nesse contexto político conservador. Eu venho de uma família bastante conservadora, de uma família evangélica e até então esse era o único cenário que tinha sido apresentado pra mim e que tinha sido mostrado como certo. Então, eu costumo dizer que até ali os meus 22 anos, eu não tive muita opção de pensamento ou de ver o mundo de outra forma”, lembra.

O ponto de virada política da jornalista foi o episódio com o pastor Marco Feliciano, em que a jovem o acusa de estupro. “Quando aconteceu o episódio com o Feliciano, eu fui muito atacada por todo mundo, todo mundo do partido, todo mundo que estava ali envolvido, mas ao mesmo tempo eu fui muito abraçada pela minha família”, conta.

Depois dos abusos, Lélis conta que tinha duas opções: “A primeira opção era não denunciar e compactuar com tudo aquilo, viver na minha comodidade e que provavelmente se eu tivesse seguido aquele caminho, hoje eu estaria com algum cargo no governo Bolsonaro. A segunda opção, que é a opção que eu realmente escolhi, foi a opção de eu não me envolver mais naquela situação. Eu consegui enxergar que por mais que o Feliciano fosse próximo a minha família, não era saudável”.

Quando questionada sobre a ação que moveu contra o pastor, Patrícia revela que, mesmo após cinco anos, o caso ainda está na justiça. “Assim que o Bolsonaro entrou, deu uma parada no processo, a gente já esperava isso, mas segue sem solução. Infelizmente é uma realidade da justiça brasileira, é contínuo, os processos nunca realmente terminam, eles são longos”, desabafa.

Ela ainda conta que o caso do Feliciano noticiado pela mídia é um recorte da realidade. “Tudo que acontecia nos bastidores, muita gente sabia, muitos pastores famosos, que têm igrejas lotadas, sabiam”, diz.

Feminismo

Após o episódio com Feliciano e com o partido de direira, Patrícia conta que foi se descobrindo feminista e conhecendo outros cenários. “Primeiro eu tive que me desligar do pensamento religioso. Pra mim, no contexto em que eu nasci, o feminismo sempre foi colocado como um pecado, era uma coisa extremamente horrível dentro da igreja. Então eu acho que a primeira desconstrução que eu tive que ter foi realmente com a religião”, revela.

“Eu tinha medo da palavra feminista, eu tinha medo de qualquer coisa que envolvia o feminismo”, confessa a jornalista. Patrícia conta que só conseguiu se descobrir feminista após se desvincular da religião. “Aí eu comecei a ter outra visão do mundo, comecei a entender que meu papel não era só casar e ter filhos e viver em casa, que era uma coisa que dava muita briga dentro do PSC comigo. Eu sempre quis trabalhar, fazer alguma coisa e estar envolvida, mas a função que o PSC queria me dar era literalmente da menininha bonitinha que a gente tem no partido para não dizer que a gente odeia mulher”, conta.

A relação do PSC com os jovens

A jornalista conta à redação do GGN que foi Damares quem a convidou para se filiar ao PSC. “Era a Damares que meio que recrutava os jovens, porque até então o PSC era um partido só com gente mais velha”, diz.

Lélis afirma não ter recebido pelo seu trabalho no PSC, mas disse que outras pessoas recebiam, como a Sara Winter. “Eu sei que ela recebia algumas coisas que eu não recebia, mas ela fazia um trabalho diferente para o partido”, lembra.

Aproximação com o PT

Patrícia reforça que não recebe nada do Partido dos Trabalhadores, que toda comunicação que ela faz é de forma voluntária. “Quando eu era do PSC, meu trabalho era convidar os jovens para entrar no PSC, para conhecer o bolsonarismo. E eu fico pensando quantos jovens devem ter ido para o PSC por conta de algum vídeo absurdo meu. Hoje em dia, eu não recebo nada pra isso, mas faço mais pela questão de fazer o reverso”, conta.

Ao ser indagada sobre ter apoiado o impeachment da Dilma em 2016, Lélis revela que sua atitude na época fazia sentido com o contexto de vida privilegiado. “No contexto em que eu cresci, o normal seria eu apoiar o impeachment da Dilma. Só que aí, quando eu passei por esse processo de desconstrução, eu comecei a ver que meu mundinho lá de Brasília, das escolas particulares, aquilo ali não definia o mundo, mas até então, era uma coisa que era normal pra mim”, diz. “O discurso da direita era muito assim: ‘você sempre pode ter o que você quiser, você só tem que se esforçar.’ Hoje em dia, eu já sei que não é assim”, completa.

Participaram deste episódio as jornalistas Lourdes Nassif, Cintia Alves, Ana Gabriela Sales e Duda Cambraia (estagiária). Assista a íntegra:


Sobre o Cai na Roda

Todos os sábados, às 20h, o canal divulga um novo episódio do Cai Na Roda, programa realizado exclusivamente pelas jornalistas mulheres da redação, que priorizam entrevistas com outras mulheres especialistas em diversas áreas. Deixe nos comentários sugestão de novas convidadas. Confira outros episódios aqui:

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