O bom boi de piranhas do golpismo, por Ion de Andrade

Por Ion de Andrade

Ou o Xadrez do golpe paraguaio revelado

Venho advogando a inviabilidade política da direita golpear o poder numa fase em que a contração econômica e a crise fiscal a obrigariam, consoante o modelo do Estado mínimo e do neoliberalismo, a medidas que inviabilizariam qualquer candidatura tucana nas eleições municipais e presidenciais agendadas para 2016 e 2018. Uma vitória de Pirro, conforme Jungmann.

Confesso que não gosto de errar e a determinação com que os deputados golpistas conduzem o andor do golpismo me obriga a considerar o meu erro de análise. Estribuchando e ainda considerando o bom senso, atribuí às forças externas, que têm construído o caos no mundo, em toda parte, o comando estratégico sobre essa direita brasileira, prestes e cometer a burrice fatal de pular do cadafalso..

Da mesma forma noutros artigos explorei a hipótese de que os golpistas estariam usando apenas um estratagema de chantagem para obrigar o governo a seguir o programa derrotado nas urnas e a aplicar as políticas de juros altos e privatizações tão caras aos rentistas e ao capital estrangeiro. Isso teria a vantagem de que o ônus recairia integralmente sobre o PT. Mas as movimentações não são chantagem não, eles querem golpear mesmo. Estranho contexto.

Então se fiam em quê, se não podem construir o arrocho, como na ditadura, por debaixo do coturno? Se fiam em quê, se não têm força suficiente para varrer do mapa o Estado de direito?

Fugiria a lógica, e seria um ato de loucos (que não são), se não houvesse outra variável até aqui imperceptível para mim: há um boi de piranhas nessa travessia. O nome desse boi é Michel Temer.

Noutras palavras, a direita realmente não quer assumir o ônus das políticas de arrocho e privatizações que estão na sua agenda, mas são fatais no plano eleitoral.

A tentativa golpista, no entanto é verdadeira, contrariando a minha leitura anterior, que enxergava a sua inviabilidade, pelo fato de que ninguém, com o mínimo bom senso, poderia querer herdar o espólio do Brasil de 2015/2016 de medo de naufragar nas eleições municipais e federais vindouras.

Bingo. O golpe da direita é bem construído e pretende matar dois coelhos com uma cajadada só.

Matam o PT pelo impeachment e o PMDB pelo governo golpista, de arrocho e de privatizações.

Convertem um futuro governo Michel Temer em refém, emprestando a maioria no legislativo desde que a política econômica venha a ser a do arrocho e a das privatizações cujo ônus alcançaria apenas e tão somente o velho e bom PMDB do Michel.

Derrubam o PT e levam o PMDB de brinde. Golpeiam mas não assumem. Sangram Michel Temer e o lançam ao rio de piranhas. De quebra um governo golpista com Michel Temer à frente inviabilizaria por longo tempo a aliança das duas maiores legendas nacional desenvolvimentistas saídas das lutas contra a ditadura. Sem o PMDB, o PT perderia totalmente a capacidade futura de governar e sem o PT o PMDB, eventualmente alçado à presidência, estaria convertido a um eterno refém das forças reacionárias e entreguistas com as quais não somente não tem identidade histórica como está rompido localmente em cada município brasileiro. Xeque mate.

Levam uma boiada numerosa, mas o boi de piranhas é o único que não sabe que vivo não chegará ao destino.

No PSDB já há quem esteja tocando o berrante. Outros amolam a faca, sim, pois o boi de piranhas já sairá castrado de suas ambições eleitorais.

Eis o xadrez do golpe paraguaio revelado.

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