O fim das ilusões: a lógica política de Lula é a lógica que o levará preso, por Rodrigo Vianna

na Revista Fórum

O fim das ilusões: a lógica política de Lula é a lógica que o levará preso

Ex-presidente lidera disparado na pesquisa que sai no mesmo dia em que STJ nega habeas corpus – Lula vai virar um Dom Sebastião encantado a atormentar a direita: nesta e nas próximas eleições

por Rodrigo Vianna

Não é possível ter mais qualquer ilusão: o jogo institucional conduzirá Lula para a cadeia. A lógica do golpe – iniciado nas ruas em 2013, interrompido nas urnas em 2014, e retomado com total apoio midiático após as passeatas amarelas (2015) que levaram à derrubada de Dilma (2016) – é a interdição de Lula e do PT.

Dias antes do STJ reunir-se para negar (nesta terça-feira, 6 de março) o habeas corpus pedido por Lula, li análises de advogados de esquerda que (mesmo em privado) ainda faziam apostas ilusórias, contando com votos e decisões que contrariassem a Lava-Jato – reversões todas baseadas em sólidos argumentos jurídicos.

Ilusão. A ordem jurídica de 1988 desmoronou. A hora é de jogar fora as ilusões.

A lógica do golpe conduz à prisão de Lula. E a própria lógica de Lula não permite pensar fora do institucional – que por fim o levará preso.

Lula e o PT são frutos da Democracia, respiram a ordem democrática construída desde a Anistia em 1979. E reforçada com a Constituição de 1988 e as eleições sempre bem disputadas.

Só que os tempos agora são outros.

Na entrevista para Mônica Bergamo, semana passada, Lula deixou claro que rechaça qualquer estratégia fora da lógica do “respeito às instituições”. Quando li a entrevista, pensei com meus humildes botões: em 1961, quando um golpe militar ameaçou barrar a posse de Jango (após a renúncia de Janio Quadros), Brizola cavou trincheiras no Palácio do Piratini em Porto Alegre, requisitou rádios e passou a resistir “por fora” da lógica institucional.

Brizola não era um guerrilheiro. Fora eleito governador, liderava o PTB no sul. Mas soube fazer a leitura: horas excepcionais requerem ações excepcionais.

Por que Lula não faz o mesmo? Porque não comanda a resistência civil, com as possibilidades que existiriam à mão? Por que não cria uma trincheira para o embate de comunicação permanente? Porque aí ele não seria Lula. Seria Brizola. Para o bem e para o mal.

Brizola barrou um golpe no peito. Mas jamais chegou à presidência. Lula, negociador, avançou passo a passo sempre dentro da ordem. Essa é sua força, mas também seu limite.

Penso em Sigmund Freud, criado na Viena cosmopolita e culta da virada do século XIX para o XX: a cidade tinha sido a sede do Império Austro-Húngaro, multi-étnico e tolerante (inclusive com os judeus). Nos anos 1930, Freud até o fim duvidava que o nazismo pudesse avançar sobre sua querida Viena. Foi só na undécima hora que topou voar para Londres, escapando da morte que a máquina nazista certamente lhe reservava.

Lula segue a acreditar na negociação e nas instituições. Não vai operar fora dessa lógica. Assim como Freud não conseguia compreender que havia desmoronado a Viena tolerante e democrática. Freud escapou para Londres. Lula, ao que tudo indica, não escapará: seguirá o destino que lhe impõe o Judiciário golpista neste triste Brasil da intolerância.

E isso apesar de as pesquisas mostrarem Lula inabalável em primeiro lugar na preferência do eleitorado.

Na CNT/MDA, divulgada nesta mesma terça-feira em que o STJ negou o habeas corpus para o petista, Lula lidera com folga. Não caiu na preferência popular, desde que foi condenado em segunda instância no TRF-4. Ao contrário, segue em alta.

Lula – 33,4%

Bolsonaro – 16,8%

Marina – 7,8%

Alckmin – 6,4%

Ciro – 4,3%

Álvaro Dias – 3,3%

Temer – 0,9%

Manuela – 0,7%

No segundo turno, Lula ganha disparado de Alckmin, Bolsonaro ou Marina – com quase o dobro dos votos.

E no voto consolidado, Lula tem 27% de eleitores fechados com ele. Vivo ou morto, preso ou solto. Esse é o patrimônio que Lula tenta manter coeso e talvez até ampliar, com sua prisão. Se Lula transferir miseráveis 20% dos votos para outro candidato da esquerda, este nome estará no segundo turno.

Antes de encerrar, chamo atenção para um ponto: na entrevista para Mônica Bergamo, Lula fez um gesto em direção a Temer – lembrando que a Globo tentara dar um golpe no atual presidente. Por que essa frase? Por que afagar Temer?

De novo, a lógica institucional. Lula manobra ainda pensando no STF. Separados, nem Lula nem Temer têm forças pra conter os abusos da Lava-Jato. Juntos, talvez tenham: Temer com a caneta, Lula com quase 40% dos votos nas pesquisas.

Dias atrás, O Globo abriu espaço para uma estranha entrevista do ministro Celso de Melo, que deixa claro: já há nova maioria no STF para rever essa história de prender após condenação em segunda instância. Por que O Globo pautou essa entrevista? Certamente não foi para agradar Lula, que seria beneficiado com a mudança de interpretação (aliás, diga-se, mudança de interpretação que colocaria o STF de novo como guardião da Constituição – que prevê a presunção de inocência até o trânsito em julgado). Mas para dar um sinal a Temer.

O atual presidente resiste a aderir à chapa Alckmin-Meirelles – defendida pelos bancos e a Globo. Resiste porque sabe que o seu destino é a cadeia tão logo deixe o cargo. Para Temer (e também para alguns tucanos e emedebistas que podem ficar sem mandato em 2019), evitar a prisão em segunda instância seria fundamental. A entrevista de Celso de Melo é um sinal a Temer: venha conosco e lhe garantimos sobrevida fora da cadeia.

Ou seja: Lula e Temer jogam juntos (mas com projetos e por motivos diferentes) para colocar freios na Lava-Jato, via STF. A lógica institucional é essa. O jogo de Lula (em parte) também parece ser esse.

Um analista experiente em Brasília, com quem falei esta semana, vai mais longe: “Temer prefere que Lula/PT ganhem, porque sabe que PSDB/Alckmin vão jogá-lo aos leões da Lava-Jato assim que passar a eleição”.

A confusão, portanto, é gigantesca também do lado de lá.

Mas eu apostaria no seguinte quadro: o STF (Carmen Lucia) vai esperar Lula ser preso. Só depois disso, o Supremo mudará a regra. Lula, então, poderá ser solto. Mas já terá sido humilhado com câmeras ocultas e fotos vazadas desde a cadeia para Veja e Globo.

Essa a lógica do golpe. Não tenhamos ilusão: as fotos e imagens virão. Isso é tão certo quanto o fato de que Lula seria eleito se pudesse ser candidato em outubro.

A dúvida, no entanto, entre os golpistas mais inteligentes é: esse zig-zag de interpretações a escancarar o golpismo jurídico e essa humilhação midiática não deixarão Lula ainda mais forte? E se o candidato dele vencer a eleição com apoio do mártir na cadeia?

Os aloprados da Lava-Jato e da Globo não vão recuar. E  aí podem errar feio: não conhecem a alma sebastianista do brasileiro. Lula vai virar um Dom Sebastião encantado a atormentar a direita: nesta e nas próximas eleições.

Talvez essa seja hoje a aposta que resta a Lula. Um caminho sinuoso e incerto, já que nem mesmo as eleições estão garantidas. Podem ser adiadas devido à anemia dos candidatos neoliberais.

O golpe se aprofunda, e as instituições em que Lula segue a apostar apodrecem. Parece um quadro sem volta pelos próximos dez anos ao menos.

A hora é de coragem. Hora de abandonar ilusões e nos prepararmos para enfrentar uma noite escura.

 

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17 comentários

  1. Nesse pais da elite mais

    Nesse pais da elite mais atrasado do mundo não existe espaço para a conciliação de classes, politica levada a cabo por Lula. Tem que ir pro pau, é o que ficou provado com o golpe.

  2. Lula seria obrigado a usar tornozeleira eletrônica nas Eleições

    p { margin-bottom: 0.21cm; }p.western { font-family: “Liberation Serif”, serif; }p.cjk { font-family: “Noto Sans CJK SC Regular”; font-size: 24pt; }p.ctl { font-family: “FreeSans”; font-size: 24pt; }p { margin-bottom: 0.25cm; line-height: 120%; }a:link { }

    Lula seria obrigado a usar tornozeleira eletrônica nas Eleições 2018

    Em conversas reservadas com meus colegas “Neurotrons”, uns primos de meus poucos neurônios que pensam viver ainda na juventude plena, fiquei sabendo que, esgotando-se os prazos recursais da defesa do ex-presidente Lula no caso Triplex, antes de ir pro STF (incluindo-se aqui a não retomada das discussões sobre a Ficha Limpa, para não parecer que mexeriam na Lei só para beneficiar o petista), o juiz Moro ordenaria a aplicação da pena ainda nos próximos dias, adido de uma observação que se resumiria no seguinte: “Tendo em vista o risco de se tratar de figura com relativa capacidade de influência popular, e em obrigação com os poderes de fazer cumprir a Carta Magna que diz que a Justiça deve evitar conflagrações no país — visto que o risco de colocarem fogo na nação é real, caso o réu fosse pra cadeia -, Lula seria obrigado a usar tornozeleira eletrônica”. Ou seja, ele ficaria solto, fazendo campanha e carregando um símbolo que, na visão dos fascistas tupiniquins, o humilharia, pelo menos na foto, já que, no primeiro comício, o povo pegaria o ex-operário nos braços e arrancaria a tal tornozeleira.

  3. Se Lula, nas urnas, é

    Se Lula, nas urnas, é imbatível, mas ao mesmo tempo, é homem com disposição natural para a negociação, esteja quem estiver do outro lado da mesa – de Renan e Sarney a Temer e Alckmin – por que motivo então os golpistas, atendendo a um imperativo lógico, não permitem sua candidatura?

    Se Lula se manteve, em seus dois mandatos, preso à letra da Lei, dos Contratos, deu a mais ampla e irrestrita liberdade aos demais poderes da República, fortaleceu as instituições, não tocou no monopólio da mídia, não ameaçou o mercado – pelo contrário, proporcionou lucros fantásticos aos bancos – , e mesmo assim colocou em prática políticas públicas que o tornaram o franco favorito do eleitor, por que, em nome da ordem e da prevalência do status, não chegar à conclusão de que seria mais adequado permitir a sua volta?

    Acham, por acaso, que Lula, em um novo mandato, agiria diferente? Se a única chance de ele voltar a disputar as eleições é uma composição com essas mesmas forças, em torno de certos compromissos, como imaginar que ele agiria diferente, uma vez eleito?

    Haveria chance de uma composição como essa, com Brizola? Ou com PSOL, e outros partidos mais à esquerda?

    Com Lula, a chance de uma composição é grande. E a chance de ele romper um hipotético acordo é nula.

    Em nome de evitar uma possível convulsão social, não seria mais negócio para o Golpismo permitir um novo mandato de Lula? Ele tem 71 anos, não tem herdeiro político, e com a nova ordem judiciária em vigor, qualquer nome petista que surgisse – e duvido que haja algum com 1% do carisma e popularidade de Lula – poderia ser facilmente destruído. Os bancos seguiriam tendo lucros fabulosos, a Globo seguiria intocada, a lavajato iria para o espaço, etc. Novos Meirelles e novos Armínios – ou os mesmos, para todos os efeitos – seguiriam no comando da economia, metade do orçamento continuaria indo para os bolsos dos banqueiros…

    Seriam só quatro anos, ou oito talvez. O povo brasileiro já aguenta e se conforma em ser nada há séculos…

    Se alguns bezerros mais taludinhos, para usar linguagem de Graciliano Ramos, começassem a se agitar, e agitar os outros mais sossegados, três ou quatro pescoções no cachaço resolveriam o problema. 

    Parece sórdido demais?

    Não parece, é. Mas se for para resolver tudo na base da política, é o único jeito.

    Ou isso, ou sangue nas calçadas.

     

  4. Perfeito

    Concordo integralmente com a análise.

    Não há mais nenhum espaço para otimismo.

    Não há, neste momento, estado democrático de direito nesta república de bananas 

  5. Gostei bastante da análise.

    Gostei bastante da análise. Realmente nunca tinha pensado por esse ângulo = Temer e Lula se juntarem pra não irem pra prisão. É líquido e certo que Tucanos jogarão Temer ao mar no dia 2 de janeiro – afinal um partido em que aquele é tido como símbolo dele, F gagá C, sem a menor cerimônia rifa o seu próprio candidato, preferindo um troglodita como o dono da Riachuelo ao Alkimin, mostra o caráter da alma tucana. 

    Minha esperança é que a prisão de Lula – que acho sem volta – mobilize uma peça que no xadrez do Nassif ainda não entrou = o povo de verdade. E aí o governo vai ter duas opções = ou mandar as Forças Armadas pra cima ou deixar que Lula dispute. E aí a campanha de 18 fará a do Collor parecer coisa de civilizado. Os golpistas usarão de todos os artíficios pra que Lula não ganhe – mesmo que isso custe a eleição do nosso Duterte Caboclo, o Bolsonaro. 

    E sobre o Freud, ele só se salvou do Holocausto por causa da princesa Maria Bonaparte, admiradora do pai da psicanálise. 

  6. Só pra avisar

    Um passo de cada vez é a melhor estratégia diante da crise. Lula será preso, é o cenário mais provável.

    Acontece que Lula é maior que a Justiça ou que a prisão, pelo simples fato de não há mais leis ou Constituição. Só o arbítrio fascista. Duvido que abaixe a crista e se deixe flagrar como vencido, mesmo porque é inocente. Lula tem luz própria e independe dos humores do mercado ou da mídia ou de carcereiros ou de manifestoches vários.

    Ainda que preso, se ele mandar, o morro descerá. Se ele quiser, quebraremos esse país. Ou não.

    Não temos grana, nem poder, mas estamos do lado certo. O império nazista ruiu. O império protofascista da Casa Grande brasileira um dia vai acabar. E quando isso acontecer não cometeremos o mesmo erro da abertura democrática que perdoou os criminosos das Forças Armadas. Estamos no limite.

     

    • Viagem

      O morro descerá? E desde quando Lula manda no morro?

      Temos aqui mais uma amostra da obsessão que tomou conta de muitos esquerdistas: que os marginais dos morros serão a nova classe revolucionária, em substituição aos trabalhadores que aderiram ao capitalismo. Pura viagem.

      Lula não empolga a ponto de provocar uma revolução. Ele lidera as pesquisas, simplesmente porque não tem outro. Mesmo que não estivesse ameaçado de prisão, ele já está velho e desgastado, e a ausência de um novo líder à altura bem mostra o declínio do PT, um partido cujas ideias estão presas ao século 20 pré-queda do muro, e só chegou ao poder no século 21 puxado pelo carisma pessoal de Lula, carisma esse que está no fim.

      Com a absoluta ausência de alternativas, o perigo agora é Bolsonaro ganhar a eleição. Aí, na melhor das hipóteses, ele abandonará o discurso radical, mas fará um governo menos que sofrível que deixará o povo disposto a experimentar outro candidato de esquerda daqul a 4 anos.

  7. Sentido. Volver!

    Concordo com o autor.

    O enredo já está traçado.

    A prisão é inevitável.

    Como diz o ditado, quem brinca com fogo pode sair queimado.

    “Brincam” com fogo puro.

    Quero saber como o STJ e o STF vão fazer para dar um cavalo de pau e reverter totalmente a interpretação, agora para  proteger os seus criminosos de estimação.

    Falando nisso, por onde anda o Aécio, Serra e Cia?

    Resta algum Juiz em Brasília?

  8. Concordo integralmente com a

    Concordo integralmente com a análise do Rodrigo Vianna. Se o STF agir contra a prisão em segunda instância, será apenas após uma eventual prisão do Lula, com direito a fotos no cárcere. Não há motivos para acreditar no contrário. Eleições, também, não acredito que aconteçam. Não deram o golpe que deram para entregar o poder novamente à esquerda.  

    • É isso mesmo.

      Muita expectativa com eleições que podem simplesmente não ocorrerem

      Ou, caso ocorram, é muito otimismo imaginar que tudo transcorrerá sem qq deslise, seguindo à risca todos os trâmites de uma democracia que já se foi.

  9. Insurreição ja

    Fico muito preocupada com a possibilidade de inventarem uma lei qualquer para que não se realizem as eleições de 18. Acho que so temos uma saida visto o quadro pintado: uma insurreição.

    Nos dois casos, tanto o golpe em cima das eleições diretas para presidente e não para semi-parlamentarimo ou eleição nenhuma; quanto a prisão de um icone como Lula e sua inabilitação eleitoral, é preciso a maioria do povo nas ruas dias e dias seguidos. 

    Quando é que vamos sair chamando a população nas periferias, nas favelas, nos morros, nas universidades, nas fabricas ou no que sobrou delas, em todos os lugares, para ir para as ruas pedir eleições diretas e a candidatura de Lula? 

  10. Concordo com Rodrigo Viana e,

    Concordo com Rodrigo Viana e, o que fica muito claro, é que infelizmente não podemos mais confiar nas instituições deste país. Acredito que o Lula já percebeu, que neste país a “lei não é para todos”. Que o diga a carmem lúcia e grande parte do stf.

  11. bom post.

    Gostei muito do post do Rodrigo. Os poucos textos que li dele também me agradaram. 

    Gostaria de vê-lo aqui mais vezes.

    Quanto ao post em si, ele pode estar completamente certo ou não. 

    Cada vez me convenço mais que fora tirar Lula da eleição, prendendo-o ou não, ninguém sabe exatamente o que pode ocorrer. 

    Podemos ter grandes novidades ou nada.

    Pela simples razão que não existe um comando único golpista, existem vários comandos jogando um jogo de xadrex ( como dira o Nassif).

    E parte da esquerda assiste ao jogo (de xadrez), mas não sabe as regras!

     

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