O futebol e a traição à França multiétnica

 
 
 

Os heróis franceses de 1998 se tornaram, 12 anos depois, os rejeitados: impostores, egoístas, mal-educados, patifes. Antes ainda que fossem derrotados pelos sul-africanos emBloemfontein e assim excluídos do Mundial, o jornal Le Figaroresumia assim a indignação geral com relação aos jogadores franceses: são a nossa vergonha e não deveremos aceitar mais que vistam as nossas cores. Enfim, são traidores, ingratos, rebeldes.

A reportagem é de Bernardo Valli, publicada no jornal La Repubblica, 23-06-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tanta raiva por uma derrota esportiva, mesmo que mundial, em uma sociedade depositária do racionalismo, pode causar admiração. É verdade que o futebol, mais do que qualquer outro esporte, causa fortes emoções em quem o acompanha com espírito partidário, oscilantes entre alegria e tristeza, tédio e admiração, portanto exaltação e indignação. Mas a super-raiva jacobina francesa destas horas não se deve apenas às derrotas agonísticas sofridas na África do Sul, em poucos dias e depois de tantas esperanças.

O ano de 2010 mandou aos pedaços aquilo que em 1998 pareceu um encantamento. Isto é, a feliz ilusão de uma integração obtida pelos imigrantes na sociedade que parecia poluída pela xenofobia (que chega ao racismo com o Front National) e também pela discriminação.

No mundo do futebol, a França nem sempre tinha brilhado. Muitas vezes, havia desiludido. Era uma potência média. Não tinha a mesma história do Brasil, daAlemanha, da Itália. Mas em 1998 superou os três grandes e venceu a Copa do Mundo. Foi um delírio. Foi o triunfo dos jogadores magrebinos, cidadãos de segunda classe na sociedade, mas exemplos inigualáveis nos estádios. Eram eles os artífices da vitória. O jovem Zidane era o campeão que havia dado prestígio à França. E a França demonstrava reconhecimento.

Naquele dia de julho, as bandeiras argelinas se confundiam com as tricolores nosChamps-Élysées. Levado pela multidão, em grande parte argelina, eu me encontrava nos corredores do Palácio do Eliseu, do qual Jacques Chirac, então presidente, havia feito escancarar as portas. E na soleira do seu gabinete acolheu sorrindo uma moça kabila. Kabila como Zidane. Uma moça envolvida nas cores da Frente de Libertação Nacional, que, antes de se tornarem as da Argélia independente, haviam sido o símbolo da luta contra a França colonial. Chirac liderou o acontecimento com ímpeto e habilidade. Foi generoso.

A generosidade está ausente em 2010. Os imigrantes e os filhos de imigrantes, embora não mais de origem magrebina, mas de cor, também eram numerosos na seleção nacional.

Desta vez, porém, o seu comportamento, não apenas no campo, durante as partidas, provocou raiva, indignação, impropérios e causou uma desilusão, que, na hipérbole triunfante, foi comparada à provocada pelos infaustos acontecimentos da história nacional. Batalhas verdadeiras e perdidas ou até guerras também verdadeiras e perdidas.Roselyne Bachelot, ministra dos Esportes, enviada a Joanesburgo por Nicolas Sarkozy pessoalmente, falou de “catástrofe”.

Um filósofo apaixonado pelo futebol e fiel às tradições, Alain Finkielkraut, colocou em discussão a composição social e étnica da equipe da França. Escreveu no cúmulo da indignação que, se a “seleção não representa a França, infelizmente a reflete: com os seus clãs, as suas divisões étnicas, a sua perseguições dos cidadãos exemplares”.

É um espelho terrível em que o país pode se ver. E concluiu sugerindo que, no futuro, seja formada uma “seleção de cavalheiros”. A desfeita esportiva assumiu conotações sociológicas.

Doze anos depois, os jogadores que entraram em campo na África do Sul não são mais heróis, mas sim os degradados produtos da história das “banlieues”, e assim da segregação social e urbana. Um dos jogadores, Nicolas Anelka, o que teria dito aRaymond Domenech [técnico francês, foto], nos vestiários, durante o intervalo da partida com o México, “Va te faire enculer sale fils de pute”, vem deTrappes, na periferia parisiense. E ainda das portas da capital, Les Ulis, vêm Evra eHenry, dois outros jogadores.

Abidal, por outro lado, cresceu em La Duchère, perto de Lion. A sua conversão aoIslã ocorreu espontaneamente, por meio das visitas de bairro, ou dos laços conjugais. É o caso de Franck Ribéry, francês de Bologne-sur-Mer, que se tornou muçulmano com o nome de Bilaf Yusuf Mohammed, para ter a mesma religião da esposa.

Apesar da extraordinária ascensão social (e os notáveis ganhos de 10 ou mais milhões de euros por ano), esses jogadores não cortaram totalmente as relações com o mundo das“banlieues” [bairros da periferia francesa], e a sua adesão ao Islã os tornou sensíveis à história colonial, que não é justamente a que se aprende nas escolas francesas. Eric Abidal, por exemplo, um martiniquês, nunca canta a “Marsigliese”, quando a seleção nacional está perfilada no campo, antes do jogo. Ele explica o porquê: “Estudei as palavras do hino e não me agradam. Represento a França, sou feliz por ser francês, mas não gosto desse hino. Não tem relação comigo”.

Depois dos insultos nos vestiários ao treinador Domenech (insultos revelados pelo jornalL’Equipe), quando explodiram as polêmicas e os jogadores se recusaram a participar do treino, a França se indignou. Foi então que explodiram os insultos e que se multiplicaram as acusações de deslealdade, de traição.

Quem representava a nação em um encontro mundial não podia entrar em greve. E se entrava em greve significava que não tinha consciência de representar a França. Não era, enfim, um patriota. Era um traidor. E, acima de tudo, se revelava incapaz nos estádios e, revestido com as cores francesas, era humilhado sob os olhos do mundo. Foi como se a integração anunciada em 98 tivesse se revelado como uma ilusão. E a sociedade multiétnica revelasse a crise que a atormenta.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=33697

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