O pragmatismo de curto fôlego de uma certa esquerda, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

Foto: Agência PT

Por Ricardo Cavalcanti-Schiel

(comentário ao post “Podemos fazer mais?”, de Ion de Andrade)

A análise que Ion de Andrade oferece – ao debate que aqui se vem travando sobre as “possibilidades” de uma esquerda petista – se concentra quase exclusivamente na dimensão institucional da política, ou seja na dimensão de governo, supondo como pacífica a tese de que Lula será eleito como próximo Presidente da República.

Creio que isso produz um duplo efeito perverso sobre o sentido da análise. Primeiro, que a torna meramente instrumental(izada) quanto à percepção do que seja o campo da política, sobretudo no que respeita às construções simbólicas nesse campo (algo sobre o quê os antropólogos teríamos algo a dizer, mas que os cientistas políticos em geral não têm). Segundo, que a hipótese Lula é apenas uma hipótese e que, ao absolutizá-la como alguns pretendem (talvez para lhe outorgar o efeito performativo de verdade), não se faz mais que continuar míope dentro do campo mesmo da institucionalidade política.

Nesse sentido, as “três vertentes” que o analista pretende sintetizar podem ser não mais que projeções cômodas, restritas e contingentes, sobre um fragmento (o institucional) da política a partir de uma outra projeção voluntarista que está ainda muito longe de comportar todas as possíveis variáveis, ou seja: como, por que caminho e com que composições políticas poderia Lula retornar à Presidência.

Começo pela redução mais simples: a hipótese Lula na Presidência. Suponhamo-na como efetiva e provável (para facilitar as coisas até mesmo para esses analistas tão afiançadamente montados sobre seu wish fulfillment). Significaria a chegada de Lula à Presidência, pelas urnas, a legitimação de algum projeto político propositivo? Ou significaria, antes de mais nada, a reação eleitoral a um movimento destrutivo, embalada pela miragem antiga de um outro movimento que já não tem mais condições de se reproduzir? Significaria a efetiva reconstituição do campo político-institucional agora sob uma redimida hegemonia petista? Ou significaria a consumação do reconhecimento de desintegração desse campo por meio da conclamação de um líder messiânico?

As consequências das dúvidas em torno dessa hipótese podem não sintetizar outra coisa senão algo singelo: a eventual chegada de Lula à Presidência pode não ter conteúdo efetivo algum, pode ser aquilo que os antropólogos, desde Lévi-Strauss, chamamos de “significante flutuante” ou significante com valor semântico zero. É apenas uma “coisa” (no sentido polissêmico que esse termo tem), ou, como se diz em francês, “truc”. Isso não quer dizer que as “coisas” não “sirvam” (simbolicamente) para nada. Elas servem para ocupar um lugar que não pode ser preenchido por nada definido de uma vez por todas, projeto nenhum, especificidade nenhuma. Essa “ocupação” só se sustentará enquanto não-compromisso, para sustentar a persistência de um não-lugar, logicamente necessário, mas sempre (e de forma imperativa para sua própria existência) semanticamente precário. Seria uma espécie de finalização da não-política, um populismo finalizado, não importa tanto sua coloração, róseo como Lula, cor-de-pepino como algum eventual tucano (paulista ou não). Pode ser para isso que caminhamos…

Consideremos agora a redução da política à política institucional. Será que ela expressa de forma suficiente as ainda mal traduzidas demandas “populares”, as que parecem emergir desse lugar social (não necessariamente geográfico) que Ion de Andrade quis chamar (talvez numa espécie de tentação hipostasiante urbanóide) de “periferias”?

Suspeito que haja um grande desencontro aí. Eu chamaria esse desencontro de “síndrome de junho de 2013”. Outros analistas desse fenômeno temporal preciso o traduziram sob a forma de “crise de representação”, e meu velho professor Luis Eduardo Soares chegou a chamá-lo de “colapso da representação”. Com isso tudo eu quero dizer uma coisa bem simples: o campo político-institucional não dispõe de recursos discursivos de mediação que possam prover de legitimação um certo projeto que se descolou das possibilidades de construir mediação.

Não se trata de um descolamento explicado pela figura insondável (exceto para os marxistas e suas miragens de totalização classista) da “conciliação de classes”. Trata-se de um descolamento explicado pela redução funcionalista da política à maquinária eleitoral-partidária, condição suficiente não só para definir toda e qualquer possibilidade de ação como também para definir interlocutores autorizados (aqueles que “não têm votos” – conquistados sabe-se lá por meio de qual máquina de marketing movida por quais propinas – têm mais é que manter seu silêncio obsequioso…). Para fazer uma analogia gaiata com minha categorização anterior, eu chamaria esse descolamento de “síndrome José Dirceu”.

Não se trata, portanto, de reivindicar a política como essa caricatura panfletarista de ir para as ruas politizar as massas por meio de doutrinação ideológica. Trata-se de reivindicar a política como um campo de mediações muito mais amplo que as (in)suficiências palacianas, tecnocráticas e gestoriais. Significa ver a política não em termos de verticalismos, caciquismos, correias de transmissão e forma-partido, mas sim em termos de trabalho de construção e ampliação de legitimidade, em que ela (a política, seus recursos e instrumentos) seja efetivamente publicizada, em lugar de ser clientelizada sob a forma de programas assistenciais que replicam o paradigma livre-cambista e utilitarista “produto-consumidor”, que foi a forma como o PT tratou a cidadania.

É a partir de outra visão da política que, no fundo, se move a crítica à insuficiência do projeto petista, que agora tem a pretensão de se desdobrar nem como tragédia nem como farsa, mas como zumbi, esse signo sem conteúdo vital (semântico), que apenas se move e devora o que pode.

Debruçar-se sobre a possibilidade de construção de um projeto progressista de sociedade é ir muito mais além do fôlego curto das reduções imediatizantes e instrumentalizantes; é debruçar-se sobre essa semântica, ou seja, sobre a possibilidade de sentido do público, da inclusão, da cidadania que não seja apenas uma colcha de retalhos mal-ajambrada de assistencialismos, de corporativismos, de particularismos “afirmativos”, enfim, desse modelo de dedução do público como espaço de predação utilitária.

O ciclo petista (como projeto com possibilidade de sentido e de angariar legitimidade) não se esgotou por causa da “conciliação de classes”. O ciclo petista se esgotou por ter levado ao paroxismo a redução da política à lógica predatória do utilitarismo neoliberal. Foi aí que ele deixou de ser um projeto, para ser mais do mesmo, igual a todo o resto, tocado por gente corrupta e “sem alma” (sem sentido propositivo e transformador) como todos os demais. O ciclo petista significou, em suma, o aborto do projeto progressista de transformação social em que o horizonte utópico da ideia de socialismo apontava para uma coisa bastante elementar: a precedência lógica do público.

Cair gozosamente na armadilha dos reducionismos pretensamente pragmáticos significa render-se à vacuidade semântica da impostura como pretensão política, significa render-se à ordem imutável da “naturalidade” já dada, e para isso basta ocupar o não-lugar do alheamento, arrastar até o limite do asco definitivo o colapso da representação (um limite – apesar de muitos não o reconhecerem – ronda perigosamente a imediata proximidade dos ingênuos).

Não! Os petistas perderam a dimensão da política. É disso que se trata fazer uma autocrítica.

Alguma esquerda viável para o futuro só será possível se essa dimensão for, antes de mais nada, restaurada. Trata-se agora de se retornar às condições mínimas para a produção de sentido, e não de condições práticas para a reprodução do não-sentido, essa permanente provisoriedade onde as razões do Outro (em termos de economia lógica o chamamos de “direita”) são as que mandam.

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