Os ecos desencontrados de um fim de ciclo político

No período julho de 1994 – mês de lançamento do Plano Real – a 2001, a dívida líquida do setor público brasileiro saltou de 29,29% para 51,57% do PIB. Além da remonetização da economia – que permitiria ao governo zerar sua dívida – houve a privatização de mais de 80 empresas, permitindo ao Estado arrecadar US$ 60,1 bilhões e transferir US$ 13,3 bilhões em dívidas.

Foi o maior desastre fiscal da história do país.

A culpa foi das teorias liberais, da desregulamentação da economia, do primado do mercado?

É evidente que não. O que ocorreu foi uma distorção deliberada das taxas pagas pelos títulos públicos, um assalto recorrente aos cofres públicos que nada teve a ver com os princípios liberais.

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Nos últimos dois anos, o país foi submetido a uma onda inédita de isenções fiscais, interferências indevidas em vários temas econômicos, achatamento de tarifas casado com aumento das responsabilidades da Petrobras, que lançaram o país em uma nova crise fiscal.

Culpa do neodesenvolvimentismo, neokeynesianismo, nova matriz econômica ou o nome que se dê a esse conjunto de medidas? Evidente que não. Foram erros individuais que não podem ser debitados a nenhuma escola econômica.

Quando bravos economistas como Marcos Lisboa e Samuel Pessoa atribuem os desastres à  suposta “nova matriz econômica”, eles tiram casquinha da crise, como seus colegas desenvolvimentistas analisando os desastres do governo FHC.

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Podem alegar que foram esses princípios de ativismo ideológico que permitiram ao governo Dilma exercitar o voluntarismo. Mas seus adversários desenvolvimentistas podem alegar que foi a desregulamentação selvagem que permitiu ao Banco Central praticar as mais irresponsáveis taxas de juros, no período FHC.

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O que esses dois exemplos comprovam é que desenvolvimento não se faz com mera ideologia: ou a desregulação total ou o intervencionismo selvagem. Ambos servem apenas como tacape intelectual, na disputa entre tribos de economistas.

A política econômica, como um todo, é algo muito mais pragmática, um conjunto de medidas visando atender a projetos de país ou de setores, sendo construída no dia a dia, assim como a jurisprudência em cima dos postulados constitucionais. O importante é que haja ideias centrais, princípios fundadores, objetivos comuns. A construção restante se dá no dia a dia das disputas políticas – no Congresso, junto à opinião pública e nos ministérios.

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Por tudo isso, é hora de cada setor começar a pensar claramente no seu próprio projeto de país, para uma grande discussão que se iniciará em breve, no rastro do fim de ciclo político que está posto na mesa.

Quem será o mediador? Quem acredita que com 7% de aprovação a presidente perdeu as condições, que preste atenção na última pesquisa do IBOPE divulgada por José Roberto Toledo, do Estadão: apenas 11% aprovam Michel Temer, 11% Eduardo Cunha e 8% Renan Calheiros.

No domingo saiu importante entrevista de Delfim Netto ao Estadão. Nela, diz ter votado em Dilma Rousseff, mas, devido às suas trapalhadas, acredita que Aécio Neves teria se saído melhor.

Exagerou. O único consolo dos que votaram em Dilma é a certeza, pelo que mostrou nesses meses todos como líder dos Revoltados Online, que Aécio Neves conseguiria ser pior.

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