Para onde vamos? O que queremos?, por Marcelo Auler

Foto: Blog do Marcelo Auler

Do Blog do Marcelo Auler

No mesmo dia em que milhares de pessoas voltaram às ruas protestando contra o governo golpista de Michel Temer e as suas propostas de reforma trabalhista e previdenciária – fato desprezado pela grande imprensa que apenas registrou essas manifestações em fotos legenda – o Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro (Senge) e a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge) deram início ao I Simpósio SOS Brasil Soberano. Pode não ter sido a primeira iniciativa do gênero, mas mostra que setores da sociedade já começam a se movimentar para desenhar um projeto de país que seja implantado em substituição ao que está sendo imposto, goela abaixo, pelo governo golpista. Da discussão em busca de saídas e projetos participaram Carlos Lessa, ex-reitor da UFRJ, Fernando de Araújo Penna, da Faculdade de Educação da UFF e os deputados federais Alessandro Molon (REDE-RJ) e Glauber Braga (PSOL-RJ).

No debate de sexta-feira (31/03), no auditório da Faculdade Mackenzie, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, o que ficou claro é que nesse momento pelo qual passa o país, os diversos grupos e segmentos da sociedade que fazem oposição ao governo ilegítimo de Temer, devem buscar pontos de convergência, deixando de lado questões que não terão respaldo unânime. Assim, é mais fácil, por exemplo, unificar as vozes no combate à reforma previdenciária e à reforma trabalhista do que discutir eleições de 2018. Até pela necessidade de se evitar mais retrocessos dos que já ocorreram, como destacou o deputado Alessandro Molon (REDE-RJ):

“Estávamos acostumados a garantir avanços. Agora se conseguirmos impedir retrocessos, seremos heróis. Para resistir teremos que ter grandeza e humildade. Em cada luta teremos que buscar os aliados para aquela luta. Teremos que ter capacidade de buscar todos, não apenas quem pensa como nós”, disse.

ernando Pena abriu o debate criticando a reforma do ensino No seu entendimento, a reforma desenvolvida pelo governo que assumiu com o impeachment, beneficia o setor privado:

“Ela abre espaço para parcerias público-privadas e enfraquece a escola pública, que não poderá investir na infraestrutura básica para os novos itinerários de formação técnica e profissional, devido às restrições da PEC dos gastos. A proposta atende aos chamados “reformadores empresariais da educação”. Para o professor, soberania é, ao contrário, “fortalecimento da rede pública, valorização dos professores – investindo na formação continuada deles –, sem necessidade de recorrer a fundações privadas, ou a entregar parte da formação dos alunos a interesses privados“.

Ele destacou também as mudanças no ensino médio, projeto vendido como a “reforma da escolha”, ao deixar ao aluno a opção das matérias a serem cumpridas. Para ele, inexistem garantias de que serão oferecidas todas as opções a todas as escolas e a todos os alunos.

“Não vai haver escolha. Um aluno que não conseguir estudar química e física provavelmente abandonará a escola. As escolas particulares de elite vão continuar oferecendo todos os itinerários e isso abre um espaço de segregação. Os alunos que não tem recursos vão estudar numa escola que não tem escolha. É uma reforma que impacta de forma bastante grave. Soberania seria fortalecimento da rede pública especialmente de valorização do professor e garantia da infraestrutura para esse professor atuar”, enfatizou.

Molon partiu de uma análise sobre o impeachment de Dilma Rousseff, ao qual ele foi contrário, mostrando-o como um reflexo da elite brasileira, aquela que se opõe a um “projeto de nação generoso, solidário, em que o Brasil começou a saudar suas dívidas com aqueles que construíram o país. Eu digo começar porque a desigualdade do Brasil é tão profunda que não conseguiríamos acabar com ela em alguns anos. Isso não se muda de uma hora para outra”.

“As forças ligadas a um projeto de país que é um projeto subalterno, que não acredita na soberania, não aceitou o resultado das eleições de 2014. No dia seguinte às eleições já tinha gente na rua falando de impeachment. E já se começa o movimento pelo impeachment. Ele nasce antes de qualquer coisa de pedalada fiscal. O movimento se aprofunda e encontra um aliado fundamental que chegou à Presidência da Câmara, Eduardo Cunha. Ele bloqueou qualquer possibilidade de recuperação do Brasil. Em janeiro de 2015 a opção do governo foi abraçar o que foi derrotado nas eleições, chamar Joaquim Levy para Ministro da Fazenda, atuando de maneira contrária ao que foi eleito e afastando a presidenta eleita de sua base. Reforçando uma instabilidade política que foi crescendo até abril de 2016”, analisou.

Na sua visão, o objetivo que está por trás do governo golpista é a destruição do estado brasileiro, através da implantação de um projeto derrotado nas urnas em 2014:

“Não é apenas a pessoa que ocupa o cargo de presidente da Republica – é uma usurpação de poder total – venda de terra para estrangeiros, entre outros ativos“.
E, segundo explicou, há pressa em aprovar as reformas propostas justamente por elas conterem medidas antipopulares. A pressa está diretamente relacionada com a eleição de 2018:

“Ninguém vai para a eleição com uma pauta como essa e ganha. Não vai chegar na campanha e falar: ‘eu quero fazer as pessoas trabalharem 49 anos, eu quero precarizar, eu quero terceirizar’. Por isso a pressa em aprovar tudo até as próximas eleições para que o candidato desse campo não precise defender isso. O trabalho sujo já terá sido feito”, expôs.

Na mesma tecla da necessidade de conversão dos setores que possam fazer a resistência com a esquerda foi o discurso de Glauber Braga – “Tem que trazer pro nosso lado aqueles que possam resistir conosco”, disse. Ele, porém, destacou a necessidade de não só desfazer o que está sendo feito de errado, mas se apresentar algo a ser colocado no lugar:
“Primeira coisa é desfazer o que está sendo feito agora. Mas, temos que pensar em um projeto político novo que deve ser apresentado para a sociedade brasileira, ampliando esse debate para toda a sociedade”, defendeu.

O deputado do PSOL também criticou o fato de em nome da corrupção e da punição aos corruptos, destruir-se empresas nacionais importantes.

“Quando uma empresa tem dirigentes denunciados, o dirigente deve ser condenado e julgado, mas o patrimônio deve ser considerado como patrimônio nacional para um projeto nacional”.

O professor Lessa analisou o peso da indústria automobilística na economia brasileira, respondendo hoje por 6% do PIB, o maior percentual de um único setor. Ao mesmo tempo, mostrou que com este transporte individual, não só as metrópoles, mas também cidades pequenas já sofrem as consequências dos engarrafamentos e do que eles provocam: como a perda de horas de descanso e lazer por parte dos trabalhadores que a cada dia gastam mais tempo entre o deslocamento trabalho-empresa.

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