Política externa: além do óbvio

Do Valor

Lula precisa ir muito além do óbvio

Sergio Leo
22/03/2010

O apoio dado pelo Brasil ao Irã, nos últimos meses, será usado como argumento, em maio, na conversa em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende ter com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Lula, segundo o assessor internacional, Marco Aurélio Garcia, deve pedir ao iraniano um engajamento no esforço de paz no Oriente Médio, deixando de apoiar ações agressivas do Hamas, facção palestina que domina a faixa de Gaza, e do Hizbolah, outro grupo radical autor de constantes ataques a Israel. É um pedido que mal não fará. Se tiver êxito, porém, será uma surpresa.

Embora houvesse quem quisesse buscar na visita de Lula incidente diplomático capaz de gerar atrito incontornável com Israel (caso do ultra-nacionalista ministro de Relações Exteriores do país, Avigdor Lieberman, que esperneou ao tentar, sem sucesso, forçar a comitiva brasileira a homenagear uma tumba de forte significado para o movimento sionista), Lula conseguiu mostrar, na viagem, seu propalado trânsito entre as diversas comunidades em conflito.

Teve a companhia oniprensente do presidente de Israel, Shimon Peres, até deixar o país. Foi aplaudido de pé e ouviu elogios e apelos de apoio dos políticos israelenses, mesmo dos que discordaram de sua aproximação com o Irã. Foi celebrado como ídolo na Cisjordânia, onde inaugurou uma rua chamada Brasil, e recebido como futuro parceiro econômico e político pelos líderes da Jordânia, um dos países árabes a sustentar a causa palestina e adotar, ao mesmo tempo, uma política de moderada aproximação com Israel.

Lula ouviu apelos para transmitir sinais de boa vontade israelense aos palestinos. Sugestões para ajudar no restabelecimento de relações entre Israel e Síria. Palavras de reconhecimento por defender a paz de Israel e, na Palestina e na Jordânia, o direito a dois Estados, um israelense e outro palestino.

Meter-se na conflituosa região do Oriente Médio, argumentam o próprio Lula e seu ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, é obrigação de qualquer país que queira presença mais forte na política internacional e se preocupe com o potencial desestabilizador dos confrontos entre israelenses, palestinos e outras comunidades na região. É falso dizer que o Brasil nada tem a ver com o Oriente Médio. A começar pelo mercado do petróleo, até as consequências do terrorismo internacional, o que se gerá lá repercute no mundo todo; é legítima, portanto, a iniciativa de buscar informações e influência sobre a região.

O Brasil tem um cacife, como faz questão de repetir Lula: um país visto com simpatia em todo o mundo, uma diplomacia respeitada e uma posição de relativa equidistância. As condenações a Israel feitas por Lula durante sua visita na semana passada não afetam esse patrimônio. Elas não destoaram em nada do que foi dito em uníssono aos israelenses pela comunidade internacional. Não só a Europa e a direção das Nações Unidas mas até os EUA, humilhados pelo governo de Israel, que anunciou um polêmico assentamento de 1,6 mil israelenses na parte considerada pelos palestinos sua futura capital.

É desconhecido, porém, o teor integral das conversas que Lula manteve com autoridades israelenses, palestinas e jordanianas durante sua ronda no Oriente Médio. Os relatos sobre os encontros, feitos por ele e seus auxiliares, falam de vagos apelos à paz, de otimismo e de sinais de interesse nas negociações por todos os envolvidos, de busca de maiores informações para entender melhor a região.

Para entender melhor, há que se compreender mais profundamente as circunstâncias políticas de cada país envolvido. Israel, em parte como reação ao terrorismo, em parte como desdobramento das agendas políticas dos partidos mais ortodoxos, tem, hoje, segundo pesquisa divulgada pelos jornais israelenses, “o Congresso mais racista” de sua história, com 21 projetos aprovados em 2009 contra os direitos de seus cidadãos árabes – entre eles o que pune com um ano de cadeia qualquer pessoa que publique ou diga algo capaz de “ofender ou trazer desconforto ao país”. Em um regime parlamentarista, o poder do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu depende dos partidos que apoiam esse tipo de projeto, alguns dos quais fundamentais em sua coalizão de governo.

Do outro lado, os líderes moderados palestinos têm sua autoridade contestada por grupos radicais, dos quais o Hamas começa a mostrar-se o mais moderado. Na semana passada, quando Lula terminava sua viagem, um grupo, as brigadas Ansar Al-Sunna, alegadamente vinculados a Al Qaeda, contra a vontade do Hamas, lançou um foguete em direção a um kibutz no deserto de Neguev. Matou um imigrante tailandês e desencadeou represálias israelenses, incluindo conflitos que resultaram na morte de quatro palestinos. O Irã vê nessa radicalização oportunidade de ampliar influência na região, recrutando aliados contra os inimigos ocidentais.

Vê-se que não é problema que se resolva com uma boa conversa. Outro ator importante nesse teatro de guerra são os Estados Unidos, onde o presidente Barack Obama luta para mostrar ser capaz de administrar com pulso forte os desafios internacionais enquanto a oposição republicana e o lobby israelense o acusam de aliar-se aos árabes contra os interesses dos EUA e seu aliado mais fiel na região. A esse cenário onde política interna e externa se misturam e condicionam, é preciso acrescentar o componente religioso, onde radicais de um povo se consideram os eleitos de Deus para ocupar as terras que ocupam à força, e os de outro acreditam ter a missão sagrada de destruir os infiéis.

Não é como lidar com conflitos e idiossincrasias da América do Sul. E o presidente Lula, se quer transpor a esse cenário sua respeitada – mais lá fora que dentro do Brasil – capacidade diplomática, terá de trazer bem mais ao debate que platitudes com que marcou sua visita ao Oriente Médio, como a afirmação de que “todos querem a paz” ou que “árabes e judeus conseguiram viver em harmonia no Brasil”.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail: [email protected]

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