Programa do PMDB é para já. Mas será para valer?, por Helena Chagas

Por Helena Chagas

No Fato Online

Já ficou claro para todo mundo que o bem recebido programa econômico do PMDB, que encantou a mídia e o PIB, é coisa para já, e não para uma hipotética candidatura presidencial em 2018. Até porque dificilmente um candidato do partido apresentar-se-ia às urnas propondo aumentar a idade mínima para aposentadoria ou acabar com gastos obrigatórios para a Saúde e a Educação. Poderia acabar em suicídio eleitoral, pois são reformas estruturais importantes, mas de difícil assimilação por parte da maioria das pessoas. Então, fica a pergunta: é para já, mas é para valer?

Seria necessário um megaconsenso político para aprovar as propostas peemedebistas no Congresso, algo que só se obtém em raros momentos de crise ou de ruptura, quando se juntam governo, oposição e outros bichos para salvar o país.

O que o PMDB não diz explicitamente, mas está nas entrelinhas, é a insinuação de que o governo Dilma Rousseff – alvo das críticas do documento por seus excessos na economia – talvez não tenha mais fôlego para aprovar tudo isso, já que nem um ajuste fiscal básico para resolver o problema emergencial de suas contas ele tem conseguido tirar do Congresso.

Mais: ao situar suas propostas no extremo mais liberal – que, aliás, nunca esposou – o PMDB tenta confrontar o governo do PT com sua impossibilidade visceral de convencer a própria base a aceitar mudanças desse tipo. Não há possibilidade de os petistas aceitarem a desvinculação orçamentária para a  área social, as privatizações e o fim de indexações como a que permite que o salário mínimo tenha aumentos reais.

Não se trata, portanto, de um programa para Dilma – e ela, obviamente, já terá percebido isso. A jogada do PMDB é apresentar ao PIB, à mídia e a outros setores importantes do establishment uma espécie de cartão de visitas de Michel Temer, como se dissesse: é isso que faremos se assumirmos a presidência da República.

Mas será que é mesmo? Sucessores de presidentes afastados costumam receber crédito de confiança das forças políticas, dos agentes  econômicos e da sociedade em seus primeiros tempos. Ainda que a hipótese do impeachment hoje seja remota, Temer talvez tivesse mesmo melhores condições políticas do que Dilma para aprovar seus projetos no Congresso.

Pelo menos, é isso que o PMDB, ou parte dele, quer que todo mundo pense neste momento em que a situação da presidente melhorou mas o afastamento não é ainda carta totalmente fora do baralho. A intenção clara é se credenciar como alternativa política e programática, e não apenas constitucional – coisa que, até hoje, o peemedebista Temer não fez.

Há, porém, muitas pedras no caminho da estratégia peemedebista, e a principal delas está em casa, ou seja, na natureza do próprio PMDB. Basta lembrar que, por trás das matérias da pauta-bomba aprovada nos últimos meses no Congresso, estão os deputados do partido, comandados pelo também peemedebista Eduardo Cunha, que, acuado pela Lava-Jato, preside a pauta da Câmara segundo os próprios interesses. O PMDB apoiou a aprovação de uma alternativa ao fator previdenciário, o que poderia piorar o rombo da Previdência, e o desastroso aumento do Judiciário, contribuindo bastante para o naufrágio da primeira versão do ajuste fiscal.

Situação que levou o Planalto, no melhor modelo do toma lá dá cá, a dar os ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia à bancada do PMDB da Câmara. E não há, por enquanto, sinais de que essa ala do partido esteja disposta a devolver os cargos recém-adquiridos, obrigação que se seguiria ao rompimento do partido com o Planalto para trabalhar pela substituição de Dilma por Michel.

Tendo como pano de fundo a tradicional disputa pela hegemonia partidária, está claro que nem todo peemedebista quer ver Michel Temer presidente da República. Podem até não gostar de Dilma, mas acham que têm melhor qualidade de vida hoje, com uma presidente fraca que tem que ceder e negociar a cada votação, do que com a ascensão de um adversário interno que vai ficar poderoso e forte.

Pode ser o caso, por exemplo, dos senadores peemedebistas liderados por Renan Calheiros, que sempre disputaram o controle do PMDB com o grupo de Temer. Esses senadores hoje articulam a saída do vice da presidência do partido e parecem ainda interessados na salvação de Dilma e em tudo o que ela pode lhes oferecer.

O que não quer dizer que os ventos não possam virar. Mas pautas impopulares não combinam com anos eleitorais, como serão 2016 e 2018, já muito próximos. Difícil acreditar que, até lá, o PMDB esteja disposto não só a votar, mas a articular e a convencer as outras forças políticas a aprovar a reforma estrutural profunda que está propondo.

O programa apresentado pelo PMDB contém medidas importantes e necessárias. Nada indica, porém, que, seja com Dilma ou com Michel, será aprovado por um Congresso à beira da desmoralização e às voltas com impopularidade semelhante à da presidente da República. Será preciso esperar por 2018, e pela legitimidade que apenas as urnas conferem aos eleitos, para botar o país no trilho das reformas e do necessário convencimento da sociedade que deve precedê-las. Até lá, vamos sobreviver de meia-solas. 

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