“Projeto de humanidade está em risco no Brasil”, diz Erundina

Candidata à prefeitura de SP diz que um dos desafios nessas eleições é reverter o desencanto com a política
 
 
Jornal GGN – Não basta ser um bom gestor público para comandar a cidade de São Paulo se não compreender o papel da metrópole como liderança regional e, portanto, seu papel no desenvolvimento do país.
 
Essa visão integrada foi defendida pela candidata a prefeitura da cidade Luiza Erundina, entrevistada do programa “Na Sala de Visitas com Luis Nassif”. A deputada federal avaliou, ainda, que a crise econômica enfrentada no país, e que atinge particularmente os municípios, é reflexo da desestruturação político-institucional presente em todas as esferas de poder.
 
“Essa crise é mais do que uma crise econômica, é uma crise institucional que mostra que o poder local, municipal, estadual, está esvaziado sem estratégia de ação política”, completou. E o fortalecimento da ação política não virá de outra maneira, para Erundina, senão com o aumento da participação direta da população nas decisões políticas. 
 
O primeiro passo apresentado nesta entrevista pela candidata, e que pode diminuir o distanciamento entre a prefeitura e o cidadão, e a reestruturação da gestão financeira da cidade. “O planejamento orçamentário tem que se inverter. Analisando, por exemplo, a realidade per capita orçamentária entre as regiões mais ricas e as regiões mais pobres você percebe que há uma enorme injustiça e concentração em termos de infraestrutura e serviços prestados”. 
 
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A título de comparação, a deputada destacou que o per capita orçamentário gasto pela prefeitura em serviços e manutenção na região de Pinheiros, bairro nobre da cidade, chega a R$ 180 reais por ano. Em contrapartida o gasto per capita na Cidade de Tiradentes, bairro da Zona Leste de São Paulo, não chega a R$ 80 reais. Tal inversão de valores é apontada por Erundina como a “raiz da desigualdade social da cidade”, lembrando que esses gastos orçamentários per capita determinam a concentração de equipamentos nas regiões mais bem avaliadas, melhores serviços de transporte, lazer e até área verde. 
 
Ainda na perspectiva da visão integrada, Erundina se recorda que na década de 1990, quando prefeita da cidade de São Paulo, criou junto com prefeitos de outras cidades a Frente Nacional dos Prefeitos, completando que se for eleita pretende criar dentro da FNP um grupo para articular decisões de interesse metropolitano. 
 
“Vou retomar minha participação na Frente Nacional dos Prefeitos com instrumentos de força política pra garantir demandas que são de interesse da cidade, portanto uma visão mais estratégica da cidade e de pensar São Paulo, não numa perspectiva de quatro anos, oito anos, [mas] de décadas por metas de um ano, dois anos, quatro anos”, ponderou.
 
Quanto aos desafios de governabilidade Erundina respondeu que “a governabilidade não pode apenas passar pela relação Executivo-Legislativo”.
 
“Isso aconteceu com o governo federal, com Dilma e com o próprio Lula, [ficaram reféns de uma base congressual que vai de A a Z no espectro político-ideológico”. E a maneira mais eficiente do Executivo se fortalecer é ter a população do seu lado.
 
Nesse ponto há dois desafios que os políticos progressistas necessitam enfrentar: primeiro, acabar com o desencanto de boa parcela da população com os velhos partidos políticos e, segundo, recuperar o espaço que esse desencanto abriu, preenchido por outros grupos de interesse, notadamente mais à direita. 
 
“O projeto de humanidade está arriscado, e isso não é só no Brasil, é no mundo. Mas isso pode também sinalizar uma luzinha lá no fim do túnel, como o fim de um ciclo histórico-social, e um ciclo histórico-social retoma outro ciclo num outro patamar dentro do espiral da história. Então quem sabe estamos no fim de um ciclo?”, analisou.
 
O reencantamento político é possível na formação política, observou a candidata que, inclusive, diz enxergar uma juventude ansiosa na busca de novas utopias. “Na nossa estratégia de campanha nós temos feito dezenas de rodas de conversa nas casas das pessoas. Se reúnem 50, 60 pessoas pra discutir não a campanha, a candidatura, não a próxima eleição, mas para discutir política”. Indo além, Erundina destacou que a educação política está no cerne dos desafios de todos os candidatos. 
 
A deputada reconheceu, no entanto, que o processo de educação política não se dá apenas em uma eleição “muito menos num governo de quatro anos”. 
 
“Tem que estar na base de qualquer disputa política e que se faça com forças que querem mudanças estruturais na sociedade, mudanças de fato para além de questões eleitorais”, continuou.
 
A candidata apresentou otimismo, mesmo diante do quadro de incertezas na política e levante de propostas de grupos que querem o retrocesso em direitos sociais arduamente conquistados, concluindo que o desânimo não deve ser pauta para a esquerda. 
 
“O desalento, a desesperança são conservadores porque nos coloca no individual, e no individual não muda coisa nenhuma. Mas a esperança é uma energia que te contagia, é um vírus do bem. A esperança é isso que contagia qualquer um e o contágio gera energia, movimento, movimento gera ação e ação gera mudança”.
 

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