Recuar imediatamente da flexibilização em São Paulo, por Rovilson Robbi Britto

O vírus chegou nas regiões mais carentes e de maior adensamento populacional. É dramática a situação do povo nas periferias das grandes cidades do estado.

Recuar imediatamente da flexibilização em São Paulo

por Rovilson Robbi Britto

O governo do estado de São Paulo decidiu flexibilizar o isolamento social de combate à pandemia da Covid19, distribuindo o nível de liberação do comércio, espaços públicos e outros serviços a partir de uma gradação de um a cinco fases.

No geral, acerta o governador ao tomar medidas relacionadas à pandemia baseado em informações denominadas “técnicas” e acompanhada de uma junta de especialistas das áreas da saúde e outros campos da ciência. Não parece ser esse o critério, para decidir pela abertura nessa fase da pandemia.

O governo erra ao minimizar os números da pandemia. Ao divulgar as novas regras o governo comemorou dizendo que desde 15 de março São Paulo representava 68% dos contaminados do Brasil este percentual estava em “apenas” 22% em 25 de maio. São Paulo é a maior cidade do Brasil e foi aqui a porta de entrada da pandemia no país. Existe outra dimensão em números absolutos, por exemplo, no dia 30 de março os contaminados no Brasil eram 4.579 tendo 159 óbitos e em 31 de maio chegamos a 514.849 infectados tendo mais de 29 mil óbitos. O número de 22% de contaminados em São Paulo corresponde à distribuição proporcional da população nacional, portanto, não existe “apenas”, mas sim, ainda.

O segundo erro é considerar que a cidade de São Paulo está apta a iniciar a abertura comercial e de circulação de pessoas. A decisão não pode ser tomada sem levar em conta a situação metropolitana. Como classificar de modo distinto as cidades da região metropolitana se as pessoas transitam livremente entre as cidades? Os prefeitos da região questionam o governo estadual corretamente sobre critérios diferentes sendo que a cidades estão emanadas.

O terceiro erro é dizer que estamos estacando a curva de crescimento do Covid19, dados de São Paulo e do Brasil mostram o contrário, ainda estamos na ascendência de contaminação. O vírus chegou nas regiões mais carentes e de maior adensamento populacional. É dramática a situação do povo nas periferias das grandes cidades do estado. O governador diz que se houver ampliação da contaminação pode recuar na medida, mas já há ampliação: a pandemia está em rápida evolução.

Não há informações suficientes para determinar se São Paulo chegou ao platô da pandemia, e ainda que tivéssemos atingido o platô, os números são da alta de contaminação e não de queda.  No dia 20 de maio, o estado tinha quase 70 mil infectados e mais de cinco mil óbitos; nesse mesmo período, na cidade de São Paulo, tínhamos quase 40 mil infectados e mais de três mil óbitos; dez dias depois, em 30 de maio, no estado de São Paulo passamos de 107 mil infectados e 7.500 mil mortes no estado, sendo mais de 55 mil infectados e mais de 4 mil mortes na capital paulista.

O quarto erro está no controle do isolamento social, a cidade de São Paulo não chegou próximo da meta estabelecida de 70% de permanência das pessoas em casa. O teto de isolamento, medido pelo governo paulista é de 58%, tendo na média, abaixo de 50%. Como se comporta a população quando o governador anuncia a flexibilização? Já sabemos. Dória ensaiou uma abertura meses atrás, justamente quando a população iniciava um aumento do isolamento, após essa mensagem houve um relaxamento da adesão populacional. Não tem jeito, por enquanto, é o isolamento social a maior arma que temos para combater a propagação do vírus.

O quinto erro são as condições estruturantes da saúde pública paulista para enfrentar a pandemia. Por maior esforço que haja, ainda não temos leitos de UTI suficientes, a média de ocupação na cidade de São Paulo é de 90%. Mesmo com hospitais de campanha e a liberação de leitos privados, estamos próximos da saturação e colapso do sistema. A flexibilização pressionará o sistema de saúde.

Entendo que as medidas tomadas pelo governador João Dória estão relacionadas à pressão e a angustia de parte importante dos setores econômicos do estado de São Paulo. De fato há uma situação dramática para a sobrevivência de empregos e empresas. Na bancada do PCdoB em Brasília, há o esforço do nosso deputado Orlando Silva (PCdoB/SP) em garantir renda para o povo e condições de existência das empresas. Como relator da MP 936, aprovou mudanças importantes para beneficiar trabalhadores e segmentos econômicos da sociedade brasileira. Contudo, a questão continua, qual será o impacto econômico se não controlarmos a pandemia? A flexibilização em tempo errado pode retardar a retomada do crescimento econômico. Sei que a decisão é dura, mas ações que visam dar mais otimismo à sociedade sobre essa grave crise sanitária e econômica pode ter efeito frustrante se logo após a abertura outras medidas mais rígidas serem necessárias, além do efeito “sanfona” de abre e fecha, o povo não pode receber mensagens controversas.

Governador João Dória, reverta essa decisão o quanto antes e retome a linha de ouvir os especialistas tendo como centro a proteção da vida, já que o presidente Jair Bolsonaro não tem compromisso algum com a saúde de nosso povo. Enfrentar o coronavírus é o maior desafio de nossos tempos. Coragem para enfrentar este difícil momento.

Rovilson Robbi Britto é presidente estadual do PCdoB-SP

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