Roberto Simonsen e a falta de lideranças intelectuais e políticas, por Moacir de Freitas Jr.

Por Moacir de Freitas Jr.

Comentário ao post “Pedro Passos ou a decadência dos industrialistas

É vendo artigos como estes citados pelo Nassif, os “patos” da FIESP e outras barbaridades, que fica claro para todos nós a falta que fazem líderes capazes de formular visões sobre o país e seus destinos. Meu trabalho de doutorado foi sobre a obra e o pensamento de Roberto Simonsen, a maior liderança intelectual e política dos industrialistas brasileiros da primeira metade do século XX, fundador da CIESP, da CNI, do SESI, da Escola Livre de Sociologia e Política e de tantos outros empreeendimentos voltados para formulação e prática de ideias sobre como o Brasil deveria modernizar sua economia, ingressando no capitalismo industrial e se libertando da política de importação/exportação. Em muito por seu trabalho, tais ideias tornaram-se a força hegemônica na sociedade brasileira daqueles tempos.
 
Simonsen antecipou conceitos que a CEPAL desenvolveria a partir de seu Manifesto em 1949, especialmente os de subdesenvolvimento, substituição das importações e os efeitos nefastos da então divisão internacional do trabalho que relegava ao Brasil (e à América Latina) o papel de exportadores de matérias-prima, entre outros. Ainda, Simonsen tinha a percepção de que as condições de vida dos trabalhores impediam o desenvolvimento brasileiro, na medida em que a remuneração pelo trabalho era tão baixa que não conseguia fazer girar a roda da economia de mercado. Discordava dos que afirmavam que o Brasil era um país “rico” argumentando que países ricos produzem sua própria riqueza, coisa que não fazíamos. 

 
Esta, inclusive, é a meu ver, sua prinicipal contribuição: a de perceper que a pobreza, que o baixo padrão de vida dos trabalhadores brasileiros, especialmente se comparados aos padrões dos trabalhadores de outros paises, era, além de um impedimento à expansão do capitalismo, uma fonte constante de contradições sociais que impedia o desenvolvimento econômico. Não por acaso, sob sua coordenação a ELSP realizou duas pesquisas sobre o padrão de vida dos trabalhadores de São Paulo nos anos 1930; ainda, foi Simonsen quem, como Deputado Constituinte em 1937 e Senador em 1944, fez constar na Constituição o salário mínimo como um direito dos trabalhadores. 
 
Como se vê, a queda de qualidade é brutal: não só parte importante dos economistas não conseguem formular análises que não seja a repetição das políticas neoliberais como também uma parcela dos empresários nacionais – não todos! – não é mais capaz de ter ideias sobre o Brasil, nem mesmo quando são as vítimas da política econômica que defendem cegamente. 
 
MOACIR DE FREITAS JR – Professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia
 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

4 comentários

  1. Elite brasileira é empecilho para um Brasil para os brasileiros.

    Alguém como Roberto Simonsen foi excesso a regra da estupidez da elite econômica brasileira. Desde o Brasil Colônia até hoje, a mentalidade da elite foi sempre a mesma: lucrar como intermediária entre as riquezas naturais do país e o seu usufruto por estrangeiros. O Barão de Mauá, Antonio Ermírio de Moraes e Roberto Simonsen foram exceções. Todos os três pagaram com a perseguição ou indiferênça pelas suas crenças em Brasil desenvolvido.

    As únicas forças sociais que lutaram por um Brasil livre e soberano foram os militares à partir do “tenentismo”, a esquerda nacionalista (é célebre a tese dos comunistas sobre sobre a superação do Brasil atrasado através do desenvolvimento de uma burguesia nacional, e depois, lutar pelo socialismo) e raros empresários nacionalistas.

    Os empresários nacionalistas foram derrotados com o Golpe Militar de 1964. Com eles, acabou o conglomerado Matarazzo, a Panair, os Diários Associados e a pujante indústria eletro-eletrônica que chegou a rivalizar com as estrangeiras nos anos 70 até que o Ministro Delfim Netto negasse aos brasileiros os incentivos fiscais que deu aos estrangeiros para instalação de fábricas na Zona Franca de Manaus.

    Hoje, os que não são escancaradamente entreguistas são medrosos na sua pregação de “inclusão”. Onde estava o Instituto Ethos durante a conspiração golpista contra a Presidente Dilma? E os empresários da cadeia de produção da construção civil, petróleo e gás, mesmo sabendo que seriam “limados” das compras governamentais a partir do Golpe?

    A construção de um Brasil para os brasileiros não passará pela elite econômica do país. Ela deverá ser totalmente alijada do processo. Se aceitar bem, haverá paz. Se tentar acabar com ele com violência, deverá ter a devida resposta do governo e da população.

  2. Mais uma visão elitista
    Qualquer análise política e/ou econômica sobre o Brasil neste século, que ignore Lula, é apenas mais um discurso acadêmico elitista e fora da realidade. Temos lideranças políticas sim, aliás temos a maior de toda a nossa história, que neste momento luta contra as forças antinacionalistas. Temos outras grandes lideranças, algumas não eleitas em virtude do sistema eleitoral perverso, outras presas pelos golpistas, outras aniquiladas também pelo golpe. O que não temos é tempo para discursos que ignorem a extraordinária revolução econômica e social que Lula promoveu neste país. A ponto de um Delfin Neto o chamar de “o maior economista do Brasil” e, por outro lado, o mundo reverenciar e tomar nosso avanço social como modelo.

  3. Comentário ao comentário

    Não contesto o papel de Simonsen na liderança dos industriais e na formulação de propostas para o desenvolvimento do país. No entanto, em uma situação em que a mídia “descobre” que a corrupção existente no Brasil, vale a pena lembrar um fato apontado por um dos mais importantes sociólogos brasileiros, José de Souza Martins, no livro O poder do atraso (p. 41):

    Roberto Simonsen foi encarregado de construir quartéis do exército quando seu amigo Pandiá Calógeras era o Ministro da Guerra (1919 a 1922). Martins conta que Simonsen convidava engenheiros militares para trabalhar com ele, depois de pedirem reforma, indo para a reserva. Com isso, Simonsen podia pagar salários mais baixos. Acrescento ainda que ter oficiais do exército como engenheiros facilitaria bastante a vida para quem queria ganhar o direito de realizar obras para o exército, já que eles tinham uma rede de contatos estabelecida. Martins diz algo semelhante sobre a contratação de oficiais das forças armadas como diretores de indústria, durante a ditadura de 64.

    Em nota, Martins relembra a atuação de Simonsen, arrematando: “Foi um empresário moderno.”

  4. Cumequié?

    “… foi Simonsen quem, como Deputado Constituinte em 1937 e Senador em 1944, …” 

     

    Pelo pouco que sei a tal constituição de 1937 (Estado Novo), foi escrita por uma única pessoa, e até 1945 o Congresso Nacional estava fechado. 

    Quando vejo um erro tão banal assim, que uma simples consulta à Wikipédia poderia ter evitado, eu me questiono quanto à veracidade / corretude do resto do tema. 

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome