Para sociólogo, saída para Dilma é reagrupar base social

Na visão do cientista político e sociólogo Antonio Flávio Testa, se a presidente não der uma “guinada qualitativa”, não haverá defesa nas ruas em caso de impeachment

Jornal GGN – Na semana passada, quando jornais e lideranças de oposição decidiram subir o tom das ameaças de impeachment, a equipe de Dilma Rousseff anunciou uma série de ajustes nas contas e programas sociais, na tentativa de virar a página e criar condições de governabilidade. Mas será que criar impostos, desidratar o Minha Casa, Minha Vida e aumentar a dependência em relação a emendas parlamentares para injetar recursos em áreas essenciais são a solução para a crise do governo?

Na visão do cientista político e sociólogo Antonio Flávio Testa, da Universidade de Brasília, a presidente está trilhando um caminho perigoso. Sem garantias de que os parlamentares aliados conseguiriam frear um processo de impeachment no Congresso por crime de responsabilidade, por exemplo, ela erra quando deixa de lado ações para agradar a base social que ajudou a reelegê-la.

“Tudo que Dilma está fazendo não está surtindo efeito. Só dá mais poder ao PMDB. Pessoalmente, a única saída que vejo para ela, hoje, é manter políticas sociais e enfrentar o sistema financeiro. Fazer um trabalho que ela disse ter feito a vida inteira, que é de enfrentar um sistema que privilegia poucos. Acho que ela deve dar uma guinada qualitativa. Chamar a população e dizer qual é a situação, dizer que ela melhorou de vida nos últimos 12 anos a um custo, e fazer os ajustes sem esquecer que o que sobra é articular com a base popular”, disse.

“O desafio é esse: decidir entre enfrentar o sistema financeiro ou agradar a base política. Um bom trabalho para o Brasil seria enfrentar a questão da dívida pública. No orçamento da União, mais de 40% dos recursos são para só os juros disso. Não vejo ninguém na mídia falar de dívida pública, com exceção do PSOL. É preciso renegociar isso. É claro que o assunto é muito mais complexo, mas a decisão seria estratégica e política. Mudaria o jogo”, sugeriu.

Na visão de Testa, se Dilma não “sair pela esquerda”, em caso de o processo do impeachment ser deflagrado, não haverá apoio ao governo nas ruas. “Tem algumas pessoas que acham que haverá uma reação social imensa se Dilma começar a cair hoje. Na atual conjuntura, não acredito nisso, porque ela não tem como ampliar programas sociais que sustentam a base. Pelo contrário: ela reduziu. As reações dos movimentos durariam uma semana. Vindo um novo governo, renegociariam todo o apoio. O jogo é muito pragmático. É um jogo de interesses. Dilma é muito ruim de timing. E ainda tem o problema da grande mídia, que vai ver como fazer essa sedução”, apontou o cientista político.

Conjuntura do impeachment

Para o professor da Universidade de Brasília, as chances de Dilma renunciar são pequenas. Mas o impeachment é questão de o PSDB convencer mais peemedebistas insatisfeitos com o governo a encampar o processo. Essa aproximação poderia ocorrer com mais intensidade em caso de o Tribunal de Contas da União rejeitar as contas de 2014 do governo, porque, dessa maneira, a oposição teria um motivo para tentar dar um jeito de afastar Dilma do poder.

Testa observou, contudo, que hoje não há razões legais para sustentar o impeachment. E mesmo uma decisão negativa do TCU poderá ser revertida – ou sequer analisada – no Congresso, pois a análise do parecer deve ser feita por ambas as casas do Legislativo. Depende, portanto, da vontade de Renan Calheiros (PMDB) em pautar o assunto, “o que lhe confere muito poder de barganha”.

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