São Bernardo prepara ‘tombamento’ de Lula

Do Valor

São Bernardo prepara ‘tombamento’ de Lula

Marli Olmos, de São Bernardo do Campo
10/03/2010

Wanderley Salatiel conheceu Luiz Inácio Lula da Silva em 1979 quando, aos 17 anos, trabalhava num bar em frente ao estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Hoje, aos 49 anos, presidente do diretório municipal do PT em São Bernardo do Campo, Salatiel conseguiu evitar que uma pizzaria se instalasse no segundo andar do prédio e agora tenta agendar o dia em que o presidente da República poderá ir até à sede estampar suas mãos nas paredes que ajudou a erguer. A nove meses do fim do mandato presidencial, sem a perspectiva de novas lideranças sindicais da região ingressarem no topo da política nacional, o reduto petista do ABC prepara um tombamento de Lula em vida.

O tombamento começou pelo estádio de Vila Euclides, agora chamado de 1º de Maio. Foi na assembleia dos 100 mil metalúrgicos ali reunidos em abril de 1979 que Lula projetou-se para a política. O prefeito de São Bernardo , Luiz Marinho (PT), anunciou o plano de criar ali o Museu do Trabalho. O prédio foi tombado provisoriamente pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural de São Bernardo em 2002.

Um poster de mais de quatro metros de comprimento cobre toda a parede da sala onde trabalha Salatiel. Lembrança da última campanha presidencial. O retrato gigante com o sorriso de Lula, que abre os braços para uma criança erguida por um soldado, foi usado num caminhão de som. Assim que o material de propaganda começou a ser retirado, o dirigente decidiu levar o cartaz ao partido.

A casa que abriga o diretório do PT recebeu melhorias recentemente. Para acomodar as visitas, foram colocados sofás vermelhos no saguão de entrada. As paredes e janelas ganharam tinta nova nas cores branca e vermelha. A reforma só preservou os buracos de bala de revólver na porta de ferro lateral – herança dos tempos de intervenção militar. O dirigente guarda um filme em que Lula aparece ajudando a despejar cimento durante a construção.

A próxima parada do circuito São Bernardo de Lula é o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Com muitas salas e um auditório, o prédio de três andares deixou de ser funcional, segundo o presidente, Sérgio Nobre. Ao contrário dos anos de ditadura, a agenda da entidade inclui muitas negociações com as empresas e um novo formato de representação dos trabalhadores, com dezenas de comitês. Mas, por uma questão histórica, ninguém ousa mexer no edifício.

Aos seus amigos de São Bernardo, Lula tem dito que uma das primeiras coisas que pretende fazer quando deixar Brasília é descansar no sítio que possui à margem da represa Billings. A expectativa dos amigos no ABC é que Lula, vez ou outra, retome a rotina de churrascos e jogos de bola no sítio. Os amigos dizem que o presidente é bom cozinheiro e esperam que ele retome o hábito de cozinhar coelho.

O sítio de Lula fica em Estoril, no Riacho Grande, um distrito ao sul da área urbana que, além da represa, reune os bairros rurais de São Bernardo do Campo. Cercado de muito verde, em meio à Mata Atlântica, na Serra do Mar, o refúgio do presidente fica na mesma rua do clube de campo do sindicato dos metalúrgicos.

A altura do mato à entrada do terreno – pequeno, segundo contam – revela que há tempos a família Lula da Silva não passa por lá. Uma placa suspensa sobre o portão de madeira anuncia o nome do sítio: “Los Fubangos”. Ideia dos filhos do presidente, fubango é gíria usada por jovens que querem se referir a uma pessoa mal arrumada ou sem dinheiro.

O acesso é no início da Estrada Velha de Santos. Para quem segue pela via Anchieta, sentido Baixada Santista, “Los Fubangos” fica numa região logo após a ponte que passa por cima da represa, do lado esquerdo. No lado direito está a prainha, onde há bares e restaurantes, inclusive um flutuante, que no passado era um destino chique de casais de namorados. Esses estabelecimentos ainda funcionam, mas o Riacho Grande perdeu o glamour. Deteriorou-se. Falta estrutura para receber visitantes e há até pouco tempo os moradores reclamavam da falta de iluminação.

A prefeitura tem planos de revigorar a região. O governo federal vai dar uma mão. Em meados de dezembro, o Ministério do Turismo liberou R$ 10 milhões para revitalizar a prainha e o Estoril. O projeto prevê desde redes de água e esgoto, até a construção de quiosques, deques, ciclovia e reforma de um antigo teleférico.

Segundo o secretário de Desenvolvimento e Turismo de São Bernardo, Jefferson da Conceição, ex-economista do Dieese, a atual administração entende que é preciso resgatar a vocação turística de Riacho Grande. Isso servirá, segundo ele, para montar estrutura de turismo voltada aos que visitam a região a negócios. Apesar de abrigar diversas multinacionais, a cidade nunca teve rede de hoteis de alto padrão. O secretário está em busca também de parceiros para instalar um museu do automóvel.

O sítio de Lula é vizinho ao do prefeito, Luiz Marinho. O presidente animou-se a comprar terreno por lá depois que Marinho e dois amigos metalúrgicos haviam comprado um, em parceria. Um dos sócios do imóvel era o atual deputado federal Vicente Paulo da Silva. Vicentinho e o outro colega venderam suas partes para Marinho, que agora está prestes a morar no sítio de Riacho Grande.

Em seu gabinete, no último andar do enorme edifício no Paço Municipal, Marinho reclama da infiltração de água, cada vez mais comum. O paço inunda a cada temporal e, segundo diz, só não há goteiras no gabinete do prefeito. O único, ironiza, que recebeu manutenção das últimas administrações, comandadas por PTB, PSB e PSDB.

O PT e muitas das suas lideranças nasceram do movimento sindical de São Bernardo. Mas não se pode dizer que a cidade, com mais de 800 mil habitantes, é um reduto do partido. Ao contrário de Mauá, por exemplo, também no ABC, onde Lula sempre venceu nas eleições presidenciais.

Em São Bernardo, o PT só ganhou as eleições municipais em 1988 e 2008. Um dos amigos mais próximos de Lula, Marinho nunca escondeu o desejo de administrar a cidade. Mas permaneceu no cargo de presidente nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT) quando Lula assumiu o primeiro mandato de presidente da República. De lá saiu para assumir o Ministério do Trabalho e depois, o da Previdência. A presença de Marinho numa central poderosa com muitas facções a manteve sob controle no início do governo.

Marinho almeja a reeleição. Isso o levou a abortar a ideia de ser candidato ao governo estadual nas próximas eleições. Ele tem planos de reurbanização da periferia – “que parecia campo de concentração”. Para isso, espera obter ajuda de linhas de financiamento dos governos federal e estadual. Sobre a sua mesa estão os desenhos das plantas dos projetos que mais o entusiasmam: a construção de várias unidades de CEU (Centro Educacional Unificado), criado por Marta Suplicy em São Paulo.

A administração petista enfrenta forte oposição. Marinho só conseguiu maioria na Câmara Municipal graças a uma aliança com o DEM, principal opositor do governo Lula. O vereador Admir Ferro (PSDB), líder da oposição, diz que os primeiros meses da administração petista foram “bastante conturbados”. Ferro, o vereador mais votado, repete discurso comum dos opositores do PT no ABC: “Quem ganhou a eleição em São Bernardo foi Lula e não Marinho”. Para ele, Lula continuará a agir como o principal cabo eleitoral do PT quando deixar a Presidência.

A iminência do término do mandato presidencial provoca sentimentos antagônicos entre as lideranças operárias em São Bernardo do Campo. O retorno do líder ao reduto causa euforia e muita expectativa por um lado, mas um sentimento de vazio por outro. Pela primeira vez desde que o Partido dos Trabalhadores começou a disputar eleições, em 1982, Luiz Inácio Lula da Silva não está no páreo. O ABC ainda não tem um trabalhador candidato a substituto de Lula. Mas o sindicalismo não quer perder espaço no poder. Há poucos dias, durante um congresso, os dirigentes dos metalúrgicos da CUT decidiram que o movimento sindical deve continuar interferindo na política nacional.

“Primeiro, vamos nos alinhar com a candidatura de Dilma”, diz o presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT, Carlos Aberto Grana. Além disso, os metalúrgicos decidiram fortalecer a presença dos sindicalistas na vida política. “Para que esse projeto não fique em oito anos”, diz.

A maior parte dos sindicalistas e políticos alinhados com o PT que atuam no ABC hoje era formada por jovens operários quando Lula despontou na política sindical. E vieram, assim como ele, de outras regiões do país.

É o caso do presidente do diretório, Wanderley Salatiel. Ele abandonou a vida de cortador de cana em Sertãozinho, da região de Ribeirão Preto (SP), para procurar trabalho em São Paulo. E assim como Lula, chegou na carroceria de um caminhão. Arrumou emprego no bar do tio, aquele de onde assistia Lula discursar na Vila Euclides. Começou a carreira sindical numa fábrica de produtos de higiene, base dos químicos do ABC.

Foi nessa mesma época que, um dia, enquanto jogava bilhar no sindicato, Lula recebeu a visita de um jovem desconhecido, que foi pedir ajuda numa greve. Era Carlos Alberto Grana, hoje presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos. Grana conhecia o movimento sindical do ABC desde os 14 anos porque participava de uma organização chamada Juventude Operária Católica. Logo que entrou na Brosol, extinta fabricante de carburadores de Ribeirão Pires, o metalúrgico recém-formado no Senai ajudou a organizar uma greve. Mas garante que a empresa só aceitou negociar depois que Lula apareceu no carro de som.

Assim como Lula, Grana, passou mais tempo da vida trabalhando como militante do que como metalúrgico. Nas próximas eleições, ele se candidatará a uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo. O dirigente contesta a tese de que as fábricas deixaram de formar lideranças políticas. Garante que surgirá muita gente preparada para a política entre os 2 milhões de trabalhadores que formam a base de metalúrgicos no Brasil. Para um cenário mais próximo, Grana aposta as fichas em Luiz Marinho.

Para Sérgio Nobre, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, os sindicalistas hoje estão prontos para atuar de uma forma diferente da época de Lula. Ele lembra que naqueles tempos era preciso fazer greves de pelo menos 40 dias porque somente a partir disso, o estoque de matéria-prima e peças terminava.

A globalização trouxe o desafio do trabalho sem estoques, o que antecipou o diálogo com os empresários. “Criamos em São Bernardo a negociação permanente”, afirma. Nobre diz que a agenda do sindicato hoje é outra. Enquanto nos tempos de ditadura o movimento sindical se concentrava na briga por melhores condições dentro das fábricas e havia conflito por qualquer coisa, hoje os desafios são outros. “A agenda mudou”, diz. “Agora há uma nova realidade econômica e política no país e, por isso, os sindicatos precisam estar preparados para questões como o enfrentamento da crise, o desenvolvimento regional e relações internacionais”, completa.

Para Ademir Médici, pesquisador do ABC, os metalúrgicos se elitizaram. Ele lembra que muitas empresas, como a Volkswagen, que ameaçavam deixar a região, decidiram permanecer e aproveitar a especialização da mão-de-obra local.

Os lulistas do ABC aguardam o fim do mandato presidencial com grande expectativa. Seu reduto espera que, com a experiência do Planalto na bagagem, Lula continue de alguma forma engajado em movimentos populares. Essa legião de seguidores já está informada de que o presidente provavelmente se dividirá entre São Bernardo e missões internacionais em países em desenvolvimento.

Para o professor Luiz Roberto Alves, pesquisador da Universidade de São Paulo e coordenador da cátedra de gestão de cidades, no ABC, os admiradores de Lula já se conformaram em não tê-lo mais por perto porque entendem que ele é alguém construído a partir da história deles. “É o povo pobre que saiu de regiões como o Nordeste para trabalhar nas fábricas do ABC e que cresceu ouvindo a mãe contar as histórias de que pobres quase sempre perdem, mas pode haver uma esperança”, afirma.

O Sindicato dos Metalúrgicos o aguarda o presidente para participar do segundo congresso da mulher metalúrgica, no fim deste mês. O primeiro foi no mandato de Lula como dirigente, em 1978. A confederação dos metalúrgicos já o aclamou presidente de honra. E, no diretório do PT, Salatiel ainda tem esperanças de que o presidente tenha tempo para ajudá-lo a organizar o partido na cidade.

Ele gostaria de preparar uma grande festa “de volta às origens”. Pensou numa fila de pessoas de mãos dadas à entrada da cidade. Difícil saber, no entanto, qual entrada, já que São Bernardo do Campo faz divisa com São Paulo, Santo André, São Caetano do Sul, Diadema e Cubatão.

A vizinhança do apartamento da Avenida Prestes Maia também está na expectativa. O administrador de empresas Carlos Borges, que mora no quarto andar, petista e escorpiano como Lula, é fã do presidente. Mas ele já presenciou a cena de vizinhos erguendo faixas com “fora, Lula”, em épocas de eleição. Nathali Requena, que mora nas redondeza, já se cansou do ruído dos geradores dos carros de televisão. Ela diz que não imagina Lula circulando pelo bairro com tranquilidade mesmo depois de deixar a Presidência.

Mas não é apenas a base política que espera ansiosamente pelo fim do mandato presidencial. Num modesto e agradável Restaurante do bairro Assunção, o ex-metalúrgico Juno Rodrigues Silva, o Gigio, já se prepara para servir a chuleta preferida de Lula como nos bons tempos: com o cliente sentado na mesa número 1 ou na número 2, como ele costumava fazer.

Gigio passou os dois mandatos levando o prato do presidente para o prédio da Avenida Prestes Maia, em boa parte das vezes em que ele passava pela cidade. Chegou ao requinte de enviar a carne crua, já temperada, até Brasília. Por isso, ele diz não se incomodar se a próxima missão de Lula for novamente longe do restaurante -“Eu mando a chuleta onde ele estiver”.

A chuleta do Gigio pesa 850 gramas. O prato completo, que acompanha arroz, feijão, fritas e salada de alface, tomate, cebola, presunto e mussarela, custa R$ 45. O Gigio’s, nome do estabelecimento que só funciona no horário do almoço, oferece outras opções. Mas a chuleta é a preferida da clientela – formada por executivos da região e políticos “da esquerda e da direita”, segundo ele. Diariamente saem, em média, 25 a 30 chuletas.

Fã inveterado do presidente, Gigio montou uma galeria de fotos antigas dos tempos sindicais e uma, mais atual, ao seu lado. O caprichado salão com capacidade para 120 pessoas começou pequenino, há 22 anos. Depois de perder o emprego na fábrica e não se dar bem na política, o metalúrgico decidiu vender uma casa e comprar um bar velho. “Deus e Nossa Senhora vão te ajudar”, disse Lula quando o amigo revelou os planos. Quem sugeriu a chuleta foi um camioneiro de passagem. O prato caiu no gosto graças a um bom açougue na mesma rua e ao tempero de Dona Divina, a esposa, que comanda a cozinha.

Os amigos de Lula no ABC têm um certo receio de falar com jornalistas. Gigio lembra um deles que “aprontou” depois de visitar o restaurante em busca de fotos que mostrassem o presidente da República tomando bebida alcóolica. Era Larry Rohter, o repórter do “New York Times” que chegou a ter o visto brasileiro suspenso depois de escrever, há seis anos, a polêmica reportagem sobre a suspeita de que o presidente consumiria bebida alcoólica além do razoável.

Essa é também a preocupação de Rosa Kido, a dona do bar vizinho do sindicato dos metalúrgicos. Descendente de japoneses, ela se instalou por ali em 1968 e não gosta nem de lembrar dos tempos da intervenção militar. Rosa estabeleceu uma relação especial com o passado sindical e se diz orgulhosa por conhecer políticos famosos que hoje ainda passam por lá. Desconfiada, ela vai logo dizendo que quando ia no bar, Lula só tomava guaraná e comia pastel – “E, de vez em quando um Domecq”.

Entre os dois mandatos, Getúlio Vargas se refugiou numa fazenda em sua terra natal, São Borja (RS). Ninguém consegue imaginar um cenário semelhante com Lula em São Bernardo. Para o professor Luiz Roberto Alves, Getúlio, construiu “um mito que desaparecia nos intervalos de poder”. Com Lula, pode ser diferente. “A liderança de Lula excede a do presidente. Se ele conseguir retornar à base sem a mitificação, terá dado um passo importante na história”. diz.

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