Seria a atuação da Lava Jato kamikaze?, por RR

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Foto: U.S. Navy
 
Por R R
 
 
O que eram as empreiteiras senão um dos principais ativos políticos brasileiros? Por meio de financiamento de campanha, as empresas nacionais da construção civil faziam valer seus interesses e lucros junto ao Estado brasileiro. Para isso tinham que se articular com os diversos centros de poder político regionais, estrutura herdada do passado colonial e até hoje em vigor no país. Havia uma relação de mútua dependência, ganho mútuo.
 
Sendo uma operação de indisfarçável caráter político, por que então ela ataca fortemente um setor tão constitutivo da organização política-partidária nacional? Do ponto de vista econômico, a Lava Jato se mostra imperturbável frente ao enfraquecimento de agentes nacionais. Politicamente, os alvos preferenciais de ações jurídicas e policialescas tem sido predominantemente integrantes dos quadros do PT e, menos enfaticamente, do PMDB e demais partidos da base governista. Nomes do PSDB foram atingidos exclusivamente por denúncias em jornais e revistas, preservando-se além do alcance de prisões preventivas ou conduções coercitivas.

 
Não há portanto como negar que o combate à corrupção da Lava Jato é seletivo. Ao buscar a anulação de um grupo político, a operação tem sido insensível aos graves efeitos colaterais provocados em setores econômicos e no sistema político como um todo. Pouco importa se o resultado é o fortalecimento da recessão econômica ou um abalo no modo geral de fazer política no país, levando-se a um descrédito dos partidos tradicionais e da instituição política em geral. O que não deixa de ser contraditório, pelo fato de que a Lava Jato tem lado e é seletiva. Ao escolher um partido, evidencia-se predileção por um entre os vários grupos regionais de poder político. O PSDB também se aproveitou amplamente da promiscuidade entre agente econômico e agente político; em certos momentos, aproveitou-se como ninguém.
 
A operação Carne Fraca mostrou que a insensibilidade pode se estender a outros setores econômicos. Apesar da investigação focar em casos de corrupção dentro do Ministério da Agricultura, ela foi promovida como um escândalo sanitário, envolvendo a qualidade dos produtos e a reputação de toda a indústria. Atribuir essa má promoção a um erro particular ou a um rompante de egos ignora que o modo de fazer política no país se formou sobre o agronegócio e ainda em boa parte se reproduz em função dele. Colocar o setor na berlinda é confrontar fortes interesses econômicos historicamente interligados à política.
 
Cabe dessa forma perguntar: seria a atuação da Lava Jato kamikaze? Por um lado ela escolhe lado e favorece um partido político, por outro lado ela destrói agentes econômicos com presença até então atuante na vida política nacional. Teria o PSDB a mesma facilidade para obter financiamento junto a empreiteiras e frigoríficos após os últimos acontecimentos? Quem o financiaria na próxima campanha presidencial?
 
Mas aqui se nota a vantagem geográfica. Com cerca de 34% do PIB e 20% da população, o estado paulistano concentra a indústria e o sistema financeiro nacionais. Que outros grupos políticos poderiam se beneficiar de relações com bancos e firmas financeiras, com multinacionais, com a sede da mídia e da indústria cultural tupiniquim, com indústrias e empreiteiras, com o maior dentre os orçamentos estaduais? Cabe ao estado de São Paulo, consequentemente, um papel de liderança entre todas as demais regiões do país, inclusive e crucialmente no atraso do desenvolvimento brasileiro.
 
Desarticulação do setor de óleo e gás e da indústria da defesa
 
Além do setor da construção civil pesada, a Lava Jato tem causado profundas consequências no setor de óleo e gás brasileiro. Quanto aos agentes econômicos, promove a substituição da Petrobras por outros competidores estrangeiros. Deve-se notar que o controle da Petrobras mudou de mãos no momento em que o Pré-Sal se revelava a principal fronteira petrolífera do século XXI. Simultaneamente, tanto a credibilidade da empresa quanto a da própria reserva energética foi minada junto à opinião pública nacional. A operação serviu de justificativa para uma revisão da contabilidade da empresa e para o discurso do desinvestimento, na prática se tratando do desmonte dos ativos existentes e da própria empresa.
 
Vale ressaltar que a nova administração da Petrobras, sob o comando de Pedro Parente, tem até deliberadamente usado de fraude na venda de ativos, como evidenciado no caso da ‘aquisição’ por uma empresa australiana de áreas do Pré-Sal. A existência de negociações fraudulentas soaria frontalmente oposto ao espírito de combate à corrupção da Lava Jato, se de fato houvesse genuinamente um tal espírito. Muito pelo contrário, há na verdade uma complementação entre Lava Jato e a administração Parente, cujo objetivo final é desarticular a capacidade exploratória da Petrobrás, provavelmente antes das eleições de 2018, e com isso o controle brasileiro, do ponto de vista técnico, da exploração do Pré-Sal.
 
As ações dos operadores da Lava Jato/administração Parente não se restringem à Petrobrás. Elas também atingiram em cheio a toda a cadeia de óleo e gás nacional, como estaleiros e indústrias. Procura-se, por um lado, criar dependência técnica e econômica de agentes internacionais, enquanto se abre aos mesmos espaços de atuação na esfera nacional, inclusive em termos de participação de mercado. Vale lembrar que uma das táticas dos grandes importadores de energia – EUA e Europa – é contrabalançar o déficit no comércio com exportadores de petróleo via artigos de alto valor agregado, usualmente equipamento militar. Como no caso brasileiro faltam inimigos – ao menos por enquanto, a tática pode se concretizar via equipamentos, como plataformas.
 
E uma vez que junto com a descoberta do Pré-Sal foi erguido um projeto de fomento da indústria de defesa nacional, decidiram botar as barbas de molho e não dar sorte ao azar. Assim a Lava Jato colocou em suspeição todas as iniciativas da área, desde a compra dos caças suecos, passando pelas tecnologias nucleares, até chegar à Embraer. Esta se encontra sob supervisão direta de um interventor estrangeiro, outra demonstração da absoluta falta de soberania do país.
 
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